Carta para uma Pessoa Especial

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Fernando Pessoa
Cancioneiro

Tomamos a Vila depois de um Intenso Bombardeamento

A criança loura
Jaz no meio da rua.
Tem as tripas de fora
E por uma corda sua
Um comboio que ignora.

A cara está um feixe
De sangue e de nada.
Luz um pequeno peixe
— Dos que bóiam nas banheiras —
À beira da estrada.

Cai sobre a estrada o escuro.
Longe, ainda uma luz doura
A criação do futuro...

E o da criança loura?

Inserida por MERRAH

Os argumentos relativos ao problema da existência de Deus têm sido viciados, quando positivos, pela circunstância de frequentemente se querer demonstrar, não a simples existência de Deus, senão a existência de determinado Deus, isto é, de um Deus com determinados atributos.

O conceito de Deus, reduzido à sua abstração definidora, é o conceito de um criador inteligente do mundo. O ser interior ou exterior a esse mundo, o ser infinitamente inteligente ou não — são conceitos atributários. Com maior força o são os conceitos de bondade e outros assim, que, como já notamos, têm andado misturados com os fundamentais na discussão deste problema. Demonstrar a existência de Deus é, pois, demonstrar: (1) que o universo aparente tem uma causa que é externa a ele; e (2) que essa causa é inteligente, isto é, conscientemente ativa. Nada mais está substancialmente incluído na demonstração da existência de Deus, propriamente dita. Reduzido assim o conteúdo do problema às suas proporções racionais, resta saber se existe no raciocínio humano o poder de chegar até ali, e, chegando até ali, de ir mais além, ainda que esse além não seja já parte do problema em si, tal como o devemos pôr.

Inserida por LEandRO_ALissON

Sonhos da Noite

Todas as noites antes de dormir
Algo me inquieta
Angústia.Saudade.Amor.Arrependimento.
Aquele receio de que Devia ter Amado mais
Abraçado mais
Não tem como voltar ao passado, infelizmente!

Deito-me no travesseiro
E logo lembro das palavras ditas
Palavras que me machucaram
Palavras que ficaram marcadas em mim
O local que foi tocado dói só de Lembrar
Não tem como voltar ao passado, infelizmente!

Mas ao invés de lembrar desse marco
Prefiro ficar com boas memórias
Sonho acordado todos os dias
Sonhos impossíveis
Mas não deixo de sonhar

Prefiro imaginar eu e você
Rindo
Se amando
Indo ao Jogo
Vivendo uma irmandade sem igual
Quero acordar desse pesadelo
Não tem como voltar ao passado, infelizmente!

Inserida por JulianaPessoa

EU ia

Havia um lugar, inabitado por longo tempo, onde de vez em quando eu ia.
Muitas vezes quando lá eu fui, levei comigo tudo que eu sentia, mal entrava e logo saia deixando para trás todo o sentimento que em mim fluía.
Estive por lá nos últimos dias, e esta porta que quase nunca se abria, fôra arrancada por uma forte Ventania, que espalhou tudo o que lá, eu escondia. Todo o sentimento que eu reprimia, em minha volta se consumia. Muita coisa feia se via! Muito mais feia do que já fôra um dia.
O que eu não sabia, era que em meio à tristeza e rebeldia estava também tudo aquilo que bem me fazia, amor e alegria, em total abandono e em plena agonia.
Com a porta escancarada a dor se esvaía, iam embora frustração e melancolia e tudo o que ali contia, estava em pura harmonia.
De lá, eu não mais saía! Não comia e nem dormia! De mim mesmo, me entorpecia. E transbordei de euforia! Eu existia!



Em 15 de Dezembro de 2015.

Inserida por OutremPessoa

Não é Feliz

Só não é feliz, quem vive pelas circunstâncias, ao acaso. Quem não se define e não se aceita como é. Quem não se respeita e portanto, não se ama. Quem procura refletir o externo e não busca em si mesmo a sua própria essência. Apenas não é feliz, aquele que corrompe o próprio ser, e se recusa a viver, plena e satisfatoriamente.

Óutrem Pessoa

29 de Janeiro de 2015.

Inserida por OutremPessoa

Espelho Meu

Foi eu mesmo que eu vi?
Por um instante o mundo parou. Girou lentamente, enquanto passava por mim o reflexo de mim mesmo. Meus ossos congelaram! Minha alma estremeceu! Continuei andando e quase olhei pra trás... Tive medo de me encontrar e perdi-me novamente.


Óutrem Pessoa
Em 16 de Dezembro de 2015.

Inserida por OutremPessoa

Pensamentos


Olho nos espelhos da vida
Ai espalhados pela casa
Não me enxergo
Não me vejo
Apenas me tolero
Queria apenas o teu beijo
Isso é tudo que espero
E assim sigo esperando
Contando os dias
Contando as horas
Multiplicando as intenções
Dividindo os sonhos
Caminhando entre momentos
Bons e ruins
Vivenciando desejos
Amando as emoções
Pintando paredes sem graça
Colocando música aonde não tem
Tentando fazer os outros felizes
Para que eu seja também...


Leticia Pessoa

Inserida por LeticiaAndreaPessoa

Pelo tudo , pelo nada
Pelo sol do meio dia
Pela chuva fria
Pelo frio da noite
Pela flor do juazeiro
Nas asas de um rolinha
E no cantar da Acauã
Pela seca nos acerca
Pelas garras do carcará
Pór tudo que ainda somos
Por tudo que ainda seremos
Pelas contas de um rosário
Desfiado em louvor
A virgem Maria , ao Padre ´´Ciço`` a Deus Nossso Senhor
Um pedido a fazer
Pela distância tão malvada
Pela lua que vai nascer
Pela vida , tua e minha
Pela mente vazia de um sertanejo a sofrer
Pelo sim, pelo não
Pelo hoje e o amanhã
Pelo certo , pelo incerto
Pelo cordel do repentista
Pelo chorar da sanfona de Gonzaga a cantar
´´A todo mundo eu dou psiu , Sabiá ``...
Pelos versos de um poeta
Pela réstia da janela , a luz de uma estrela clarear
Pelos sons do maracatu
Pelas ruas de Olinda
Pelas pontes de Recife
Por ti meu amor
Gritarei aos sete cantos , aos sete mares
Que és minha sétima maravilha
Por todo canto eu direi...
Por toda eterninade
Para sempre te amarei .

Inserida por LeticiaPessoa

A nossa vida não tinha dentro. Éramos fora e outros. Desconhecíamo-
nos. como se houvéssemos aparecido às nossas almas
depois de uma viagem através de sonhos. . .
Tínhamo-nos esquecido do tempo, e o espaço imenso empequenara-
se-nos na atenção. Fora daquelas árvores próximas,
daquelas latadas afastadas, daqueles montes últimos no horizonte
haveria alguma cousa de real, de merecedor do olhar aberto
que se dá às cousas que existem?. . .
Na clepsidra da nossa imperfeição gotas regulares de sonho
marcavam horas irreais. . . Nada vale a pena, ó meu amor longínquo,
senão o saber como é suave saber que nada vale a pena. . .

Inserida por yasminmb

E nós não nos perguntávamos para que
era aquilo que não era para nada.
Nós sabíamos ali. por uma intuição que por certo não tínhamos.
que este dolorido mundo onde seríamos dois, se existia,
era para além da linha externa onde as montanhas são hábitos
de formas, e para além dessa não havia nada. E era por causa
da contradição de saber isto que a nossa hora de ali era escura
como uma caverna em terra de supersticiosos, e o nosso senti-la
era estranho como um perfil de cidade mourisca contra um céu
de crepúsculo outonal.

Inserida por yasminmb

Não sei o que é isto, mas é o que sinto. . . Preciso dizer frases
confusas, um pouco longas, que custem a dizer. . . Não sentis
tudo isto como uma aranha enorme que nos tece de alma a
alma uma teia negra que nos prende?
SEGUNDA. - Não sinto nada... Sinto as minhas sensações
como uma coisa que se sente. . . Quem é que eu estou sendo?
. . . Quem é que está falando com a minha voz?. . . Ah.
escutai. ..

Inserida por yasminmb

Como um vento na floresta,
Como um vento na floresta,

Minha emoção não tem fim.

Nada sou, nada me resta.

Não sei quem sou para mim.

E como entre os arvoredos

Há grandes sons de folhagem,

Também agito segredos

No fundo da minha imagem.

E o grande ruído do vento

Que as folhas cobrem de som

Despe-me do pensamento:

Sou ninguém, temo ser bom.

Inserida por Danielsiuch

Um artista forte mata em si próprio não só o amor e a piedade, mas as próprias sementes do amor e da piedade. Torna-se desumano devido ao seu grande amor pela humanidade — esse amor que o impele a criar a arte para o homem. O gênio é a maior maldição com que Deus pode abençoar um homem. Deve ser sofrido com o mínimo possível de gemidos e queixumes, com uma consciência tão grande quanto possível da sua divina tristeza.
(Aforismos e Afins)

Inserida por EmOutrasPalavras

Um pai pode se tornar um herói ou um vilão na vida de seus filhos.
O que vai definir sua classe, será sua índole e caráter, depois o amor e a dedicação.

Pais,

Vistam suas capas e usem seus super poderes para proteger e amar sua descendência.
Só assim será possível colher bons frutos.

Inserida por TatianaPessoaP

Por todas as razões e mais uma. Esta é a resposta que costumo dar-te quando me perguntas por que razão te amo. Porque nunca existe apenas uma razão para amar alguém. Porque não pode haver nem há só uma razão para te amar.
Amo-te porque me fascinas e porque me libertas e porque fazes sentir-me bem. E porque me surpreendes e porque me sufocas e porque enches a minha alma de mar e o meu espírito de sol e o meu corpo de fadiga. E porque me confundes e porque me enfureces e porque me iluminas e porque me deslumbras.
Amo-te porque quero amar-te e porque tenho necessidade de te amar e porque amar-te é uma aventura. Amo-te porque sim mas também porque não e, quem sabe, porque talvez. E por todas as razões que sei e pelas que não sei e por aquelas que nunca virei a conhecer. E porque te conheço e porque me conheço. E porque te adivinho. Estas são todas as razões.
Mas há mais uma: porque não pode existir outra como tu.

Inserida por lucijordan

VI

Venho de longe e trago no perfil,
Em forma nevoenta e afastada,
O perfil de outro ser que desagrada
Ao meu actual recorte humano e vil.

Outrora fui talvez, não Boabdil,
Mas o seu mero último olhar, da estrada
Dado ao deixado vulto de Granada,
Recorte frio sob o unido anil...

Hoje sou a saudade imperial
Do que já na distância de mim vi...
Eu próprio sou aquilo que perdi...

E nesta estrada para Desigual
Florem em esguia glória marginal
Os girassóis do império que morri...

Fernando Pessoa
PESSOA, F. Passos da Cruz in Poesias. Lisboa: Ática. 1942 (15ª ed. 1995). p. 43
Inserida por pensador

Houve um dia em que subi esta rua pensando alegremente no futuro.
Pois Deus dá licença que o que não existe seja fortemente iluminado.
Hoje, descendo esta rua, nem no passado penso alegremente.
Quando muito, nem penso...
Tenho a impressão que as duas figuras se cruzaram na rua, nem então nem agora,
Mas aqui mesmo, sem tempo a perturbar o cruzamento.
Olhámos indiferentemente um para o outro.
E eu o antigo lá subi a rua imaginando um futuro girassol.
E eu o moderno lá desci a rua não imaginando nada.

Fernando Pessoa
Poesias de Álvaro de Campos. Lisboa: Ática, 1944.

Nota: Trecho do poema Realidade, escrito em 15 de dezembro de 1932.

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Inserida por pensador

Guardo ainda, como um pasmo
Em que a infância sobrevive,
Metade do entusiasmo
Que tenho porque já tive.

Quase às vezes me envergonho
De crer tanto em que não creio.
É uma espécie de sonho
Com a realidade ao meio.

Girassol do falso agrado
Em torno do centro mudo
Fala, amarelo, pasmado
Do negro centro que é tudo.

Fernando Pessoa
Novas Poesias Inéditas. Lisboa: Ática, 1973.
Inserida por pensador

⁠Eu sou o disfarçado, a máscara insuspeita.
Entre o trivial e o vil m[inha] alma insatisfeita
Indescoberta passa, e para eles tem
Um outro aspecto, porque, vendo-o, não a vêem,
Porque adopto o seu gesto, afim que […]
Julga o vil que sou vil, e, porque não me
No meandro interior por onde é vil quem é
Julga-me o inábil na vileza que me vê.
Assim postiço igual dos inferiores meus,
Passo, príncipe oculto, alheio aos próprios véus,
Porque os véus que me impõe a urgência de viver,
São outro modo, e outra (...), e outro ser:
Porque não tenho a veste e a púrpura visível
Como régio meu ser não é aceite ou crível;
Mas como qualquer em meu gesto se trai
Da grandeza nativa que irreprimível sai
Um momento de si e assoma ao meu ser falso,
Isso, porque desmancha a inferioridade a que me alço,
Em vez de grande, surge aos outros inferior.
E aí no que me cerca o desconhecedor
Que me sente diferente e não me pode ver
Superior, julga-me abaixo do seu ser.

Mas eu guardo secreto e indiferente o vulto
Do meu régio futuro, o meu destino oculto
Aos olhos do Presente, o Futuro o escreveu
No Destino Essencial que fez meu ser ser eu.

Por isso indiferente entre os triviais e os vis
Passo, guardado em mim. Os olhares subtis
Apenas decompõem em postiças verdades
O que de mim se vê nas exterioridades.
Os que mais me conhecem ignoram-me de todo.

Fernando Pessoa
LOPES, Teresa R. Pessoa por Conhecer – Textos para um Novo Mapa. Lisboa: Estampa, 1990.
Inserida por jhessicafourny

⁠Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Fernando Pessoa
Poesias de Álvaro de Campos. Lisboa: Ática, 1944.

Nota: Trecho do poema Tabacaria.

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Inserida por andersonmmoliveira