Carta a um Amigo Detento
Tareco
Um Tareco não pode
ser feito na batedeira
e nem no liquidificador,
Se é para fazer tem
que ser muito bem
feito para conquistar
com gentileza e sabor:
Um Tareco para ficar
no jeito só pode ser
feito no ritmo do Forró
para agradar com amor,
para ele entrar no passo
e te seguir aonde você for.
Agradeço
Depois de um dia
de calor intenso
sobre nossa amada
cidade de Rodeio
ao vento que encontra
a rota graças
ao Rio Itajaí-Açu
sempre agradeço,
porque é com ele
que me refresco,
tranquilizo e deito
encontrando o quê
preciso no sono noturno
para ter o meu corpo refeito.
Com o calor do meu
amor intenso amor
coloco você derretido.
Que um é a alma
do outro não é mais
nenhum segredo.
Um preso no coração
do outro não nos faz
jamais surpreendidos.
Um gesto teu atrevido
é desejável e previsto,
em ti há o querido indício.
Todo o dia deixo uma
pista nas mãos do destino,
porque eu sou sua, você
é meu e pelas estrelas está escrito.
CAPÍTULO II – O COLÓQUIO DOS QUE NUNCA PARTILHARAM A LUZ.
“Foi apenas um sorriso... mas a eternidade se abriu por um instante e teve medo.”
I. O Sorriso que não Sabia Ficar.
Era uma noite sem lua — mas com vento. Camille desceu ao porão mais uma vez, como se a noite lhe pertencesse, como se a escada soubesse o peso da alma dela. Joseph já a esperava, não como quem aguarda alguém, mas como quem reconhece o inevitável.
Ele estava com as mãos sujas de tinta seca. Rascunhava em uma parede uma frase:
“Deus não nos condena — nos observa em silêncio.”
Quando ela chegou, ele se virou com a lentidão dos que não se acostumam à presença.
— “Trouxe as flores?” — perguntou ela, com a voz baixa, quase como um lamento que queria parecer alegria.
— “Roubei-as do cemitério da rua de cima. Ninguém sentirá falta. Estão todas mortas lá... inclusive os vivos.”
Camille sorriu. E o sorriso dela doeu.
II. Colóquio no Escuro.
Sentaram-se frente ao outro. Ele a fitava como quem se vinga da luz, por amá-la demais e ao mesmo tempo temê-la. Ela recostou o queixo sobre os joelhos.
— “Sabe o que me assusta, Joseph?”
— “A vida?”
— “Não. O que há dentro de mim quando você sorri.”
— “E o que há?”
— “A vontade de viver. Isso me assusta mais do que morrer.”
Ele engoliu em seco.
Camille segurou uma de suas mãos, não para apertar, mas para impedir que fugisse de si mesmo.
— “Prometa que se eu morrer antes, você não escreverá sobre mim.”
— “E se eu prometer, você viverá mais?”
— “Não. Mas saberei que ao menos você me amou em silêncio, e não em frases soltas por aí.”
III. Instante Suspenso na Poeira.
Joseph sorriu. Não muito. Apenas o suficiente para que o mundo inteiro parasse por um milésimo de eternidade.
Camille, deitada agora sobre um lençol rasgado, observava os traços dele à meia-luz de um lampião antigo.
— “Por que você sorriu?” — perguntou.
— “Porque me senti feliz.”
— “E por que o medo veio logo depois?”
— “Porque a felicidade não é para nós, Camille. É como o fogo para quem vive em papel.”
Eles não falaram mais por um longo tempo.
Só o ruído do lampião, e o rangido suave da escada apodrecendo com os anos.
IV. Promessas no Fim do Tempo.
Antes de subir de volta à noite, Camille parou no degrau mais alto, olhou para ele como quem olha do fundo de um abismo invertido — do alto para o que está enterrado.
— “Joseph...”
— “Sim?”
— “Prometa que você não sobreviverá muito tempo depois de mim.”
— “Você quer que eu morra?”
— “Quero que não me esqueça. Nem mesmo para viver.”
Ele assentiu. Não era promessa. Era sentença.
V. Felicidade Medrosa: O Amor que Pressente a Perda.
Eles foram felizes naquele instante.
Mas era uma felicidade assustadora, como a criança que descobre por um momento que os pais podem morrer.
Ou como o prisioneiro que vê uma fresta de luz — e teme que ela revele que o mundo lá fora nunca o esperou.
Camille e Joseph sabiam:
Quanto mais se amassem, mais doloroso seria o silêncio que viria depois.
E ainda assim... sorriram.
Com medo.
Mas sorriram.
“Diziam que era apenas um romance soturno... mas era um universo inteiro tentando amar sem voz.”
Fragmento atribuído a Camille, encontrado sob um retrato queimado.
A existência corpórea é apenas um estágio, jamais o fim. Os que chamamos de mortos seguem vivos, e sua presença nos envolve como brisa suave que não vemos, mas sentimos. A certeza espírita nos mostra: a vida não cessa, e o amor é mais forte do que a separação.
O túmulo não encerra vidas; apenas abre horizontes mais vastos para reencontros felizes.
PSICOLOGIA DA FUGA - UM ESPELHO QUE SE RECUSA A REFLETIR.
A Ilusão da Fuga e o Lugar - Onde Mora a Felicidade.
“Ninguém foge verdadeiramente: apenas escolhe caminhos de ilusão, acreditando escapar de si, quando na verdade se perde em culpas e acusa os outros — até que a dor o faça retornar ao ponto de origem, onde sempre esteve a chave da própria felicidade.”
A PSICOLOGIA DA FUGA:
UM ESPELHO QUE SE RECUSA A REFLETIR.
Fugir é uma fantasia recorrente. Alguns fazem isso viajando, outros mergulhando em distrações, relacionamentos tóxicos ou mesmo em conquistas sucessivas. Mas a fuga mais sutil — e mais comum — é aquela de si mesmo.
Essa fuga se dá toda vez que evitamos encarar as verdades que habitam nossas emoções. Em vez de compreendermos nossas dores, culpamos os outros. Em vez de lidarmos com nossas falhas, nos escondemos atrás de máscaras de autossuficiência. Criamos narrativas que nos aliviem temporariamente da responsabilidade de amadurecer.
No entanto, o que ignoramos não desaparece — apenas se acumula. E um dia, retorna, como angústia, como vazio, como sensação de estar "perdido" mesmo rodeado de pessoas.
O ciclo da ilusão: perdidos na própria negação.
Ao evitar olhar para dentro, entramos num labirinto emocional. A cada tentativa de escapar, mais distante ficamos de nós mesmos. Muitas vezes, é apenas quando algo quebra — um relacionamento, um projeto, um plano — que somos obrigados a parar e escutar o que por tanto tempo tentamos silenciar.
A culpa, nesses momentos, costuma ser lançada sobre os ombros de alguém. É o outro que “não entendeu”, que “nos feriu”, que “nos fez sair”. Mas no fundo, estamos apenas projetando para fora a dor de um conflito interno mal resolvido.
A felicidade silenciosa: ela já estava lá.
A verdade mais consoladora — e por vezes mais esquecida — é que a felicidade raramente está em chegar a algum lugar. Ela mora, em silêncio, na sinceridade com que vivemos quem somos.
Ela está nas pequenas pazes que fazemos conosco, na leveza que sentimos quando não estamos fugindo, mas habitando o instante presente com autenticidade.
É possível que já estejamos vivendo momentos felizes — mas tão ocupados em procurar algo maior, idealizado, que não os reconheçamos.
Voltar para si mesmo não é retrocesso. É reencontro. É quando deixamos de correr em círculos para caminhar com direção. É quando compreendemos que a dor não veio para nos punir, mas para nos reconduzir ao centro de onde nunca deveríamos ter partido.
Não é que estejamos longe da felicidade. É que, ao fugir de nós, esquecemos como ela se parece.
Quando Vincent Van Gogh deixou este mundo em 1890, considerava-se um fracasso. Vendera apenas três quadros em toda a sua vida e o mundo via-o como um perdedor sem talento.
Mas a sua cunhada, Johanna Van Gogh, recusou-se a deixar o seu trabalho desaparecer.
Primeiro perdeu o marido Theo, o único que acreditou em Vincent. Viúva e com um filho pequeno herdou 400 quadros de um artista desconhecido e um apartamento em Paris. O que é que ela fez? Vendeu tudo e apostou no Van Gogh.
Transformou sua casa em uma pensão para sobreviver, mas no seu tempo livre escreveu cartas, organizou exposições e publicou a correspondência entre Vincent e Theo.
Em 1905, conseguiu o impensável: organizou uma grande exposição de Van Gogh em Amsterdã. O mundo finalmente viu o que Vincent deixou para trás.
Se hoje conhecemos Van Gogh, é graças a uma mulher que se recusou a esquecer.
Em um gesto simbólico e poético, o corpo de Marie Curie repousa em um caixão revestido com chumbo, preservando o que restou da energia que um dia iluminou a humanidade. Ao lado de Pierre, descansa no Panteão de Paris, entre os grandes nomes da França — Voltaire, Rousseau e outros imortais do pensamento humano.
Mais do que uma cientista, Marie Curie foi uma alma intrépida que desafiou preconceitos, doenças e perigos invisíveis para revelar as leis ocultas da matéria. Seu legado não se mede em radiações, mas em luz moral e intelectual, que ainda hoje inspira mulheres e homens a crerem no poder da busca sincera pelo conhecimento.
“A Santidade do Pecado Que Ainda Me Chama”
Há um altar em mim e nele repousas,
com o perfume dos que foram sagrados pelo erro.
Teu nome não se apaga, apenas silencia,
como se a eternidade tivesse medo de pronunciar o que fomos.
És santo agora dizem os anjos,
mas eu, que te amei no pó e no fogo, sei que há cinzas que ardem mais que a chama.
Tua inocência não me consola;
ela me fere, como a pureza de um véu sobre um corpo que ainda treme na lembrança.
Foste o pecado que ajoelhou,
o amor que quis absolvição,
mas o divino não apaga o humano, apenas o exila num suspiro.
Eu não sonho contigo apenas descanso nas fronteiras do que não pode voltar.
E quando o sono me concede tua sombra, não desperto: permaneço suspenso,
entre o sacrário e o abismo,
onde tua voz ainda pede perdão
por ter amado demais.
Na carne, morre-se uma vez;
no espírito, infinitas.
E em cada morte tua dentro de mim, renasce o silêncio,
funéreo, ardente, onde minha alma te beija pela última vez
sem jamais te deixar.
O Eterno Quadro da Ausência.
I — O Ateliê do Silêncio.
Há um instante em que a alma, fatigada, já não distingue se o que sente é dor ou lembrança.
O ar pesa como tinta não misturada, e o coração lateja como um relógio que perdeu a noção do tempo.
Tudo o que resta é o quadro diante de mim — o mesmo, sempre inacabado — e o vulto que ele insiste em reter, ainda que o corpo que o inspirou já não exista senão nas dobras do pensamento.
O amor, esse artista cruel, ensinou-me a pintar com lágrimas. Cada traço é uma despedida, cada cor, uma esperança morta.
Há dias em que creio tê-la libertado da tela, e outros em que percebo: foi ela quem me aprisionou nela.
II — O Olhar Que Permanece.
Há algo de doentio em amar o que já não nos responde.
E, no entanto, é nesse delírio que a vida encontra sua última beleza.
O olhar que me fita do retrato não é mais o dela — é o meu, devolvido em eco, fragmentado pela saudade.
Sou eu, dividido entre o que amo e o que perdi, entre o real que nega e o sonho que insiste.
Dizem que a morte é o fim, mas a ausência é mais cruel: ela continua viva, mas intocável.
A cada noite, o pincel busca uma cor que não existe — o tom exato daquilo que foi amado.
E, quando o encontro, já é tarde: a luz da manhã dissolve o milagre, e eu retorno à doença da razão.
III — Filosofia da Perda.
A realidade é um quadro imperfeito.
Negá-la é o instinto dos que amaram demais.
Aqueles que já tocaram o abismo da ternura sabem: o amor é uma forma de sofrimento escolhido — a mais nobre das enfermidades.
E há uma pureza nisso, uma santidade quase patológica: viver é prolongar o instante que nos mata.
O pensamento, esse médico impotente, observa o coração como quem assiste a um incêndio que não se apaga.
O amor é o fogo, e a ausência, o vento.
Nada é mais real do que a dor que se sente quando tudo o mais já cessou de existir.
IV — O Funeral do Sentimento.
A doença não é do corpo — é da lembrança.
Diviso, às vezes, o meu próprio funeral: não há lágrimas, só o eco das minhas palavras presas nas paredes do quarto.
Sobre o caixão, o quadro: inacabado, obstinado, com aquele mesmo olhar que me persegue.
É o retrato daquilo que amei e daquilo que fui.
Talvez o amor seja isto — a tentativa insana de imortalizar o que o tempo já levou.
Talvez a morte seja apenas a moldura que encerra o último sonho.
Narrativa Inspirada no Conto Sufi.
Fragmentos do Infinito.
Conta um antigo conto da tradição sufi, atribuído a diversas escolas do Oriente Médio, que a Verdade em sua pureza integral desceu à Terra e os homens não puderam contemplá-la em sua totalidade. Para que não se perdesse por completo, Deus partiu a Verdade como se fosse um espelho, e lançou seus estilhaços ao mundo.
Desde então, cada ser humano carrega em si um pequeno fragmento desse espelho divino, refletindo uma porção da Verdade, mas jamais o seu todo. Aqueles que tentam impor seu pedaço como sendo a totalidade do espelho, sem reconhecer os fragmentos que os outros portam, caem na ilusão do orgulho e da cegueira espiritual.
“O Segundo e a Eternidade”
Ah… senhorita… que o amor nos dure, ainda que por um átimo suspenso na vastidão da eternidade.
Há instantes que transcendem a métrica dos relógios e dissolvem-se nas frestas do absoluto. Foi o teu olhar cintilante como a reminiscência de um sonho antigo que interrompeu a marcha indiferente do tempo. Em um só segundo, o cosmos se deteve, perplexo diante da silenciosa liturgia do encontro.
Nenhuma ciência decifra o segredo contido nesse breve estremecimento da alma. O toque, quando autêntico, converte-se em epifania; e o efêmero, subitamente, adquire a dignidade do perene. O amor, senhorita, é o único viajante que atravessa a fronteira entre o ser e o nunca mais e sobrevive.
Há paixões que não se perpetuam, mas deixam, na memória, o vestígio do inextinguível. Elas não se medem pela duração, mas pela intensidade com que rasgam o espírito. E talvez, ao findar o instante, reste apenas as chagas imaterial de algo que ousou existir.
Assim, se o destino for avaro em horas, que nos conceda ao menos um segundo aquele em que o teu olhar reconhece o meu e o universo, por piedade, suspende o próprio giro.
Porque, afinal…
Há amores que, mesmo breves, condensam o infinito e esse é o milagre silencioso que apenas o coração compreende.
“Existem pessoas tão cheias de si que acabam completamente vazias.”
A vaidade humana é um abismo disfarçado de plenitude. O indivíduo que se enche de si mesmo acredita possuir substância, mas o que nele transborda é apenas a aparência do ser uma bolha de ar que o menor contato da realidade faz estourar. O homem verdadeiramente dotado de espírito não necessita exibir o que é; seu valor repousa no silêncio.
O vaidoso, pelo contrário, é como um vaso sem conteúdo que tenta compensar o vazio pelo barulho. Quanto mais fala de si, mais denuncia a ausência interior. Vive de comparações, de olhares, de aplausos e por isso sua felicidade depende do reflexo, jamais da essência.
Aquele que busca parecer é escravo da opinião. E nada é mais miserável do que depender do olhar alheio para sentir-se existente. Assim, quem se julga pleno de si está, na verdade, destituído de tudo porque o “si” que o ocupa é apenas uma caricatura inflada do verdadeiro eu.
Em suma, o homem cheio de si é um deserto disfarçado de montanha; quanto mais alto se crê, mais ecoa o seu próprio vazio.
A CLARIDADE DA TUA VERDADE.
Dizer a tua verdade, é um ato de resgate íntimo não uma sentença sobre o outro. É o momento em que a tua consciência decide deixar de viver nas sombras do não-dito para respirar na inteireza do que sente, percebe e compreende. A tua verdade nasce de dentro, moldada pelas experiências que só tu viveste, pelas sensibilidades que só tu conheces, pelas feridas e pela luz que só tu carregas.
Quando alguém expressa sua própria verdade, não está criando tribunais, nem ergue paredes morais que acusem o outro de falsidade. A verdade pessoal não tem vocação para arma; tem vocação para libertação. A tua verdade é tua e, por isso mesmo, não precisa desmerecer a história, o olhar ou a compreensão de ninguém. Cada consciência habita uma moldura distinta, e é dessa moldura que emergem percepções que podem convergir ou divergir.
Psicologicamente, dizer a própria verdade significa assumir responsabilidade pela própria visão de mundo, sem depositar no outro o peso do que se sente. É o ato de nomear emoções para libertá-las, não para condenar alguém com elas. É a coragem de não silenciar o que te fere, mas também de não transformar tua ferida em acusação. É assumir-se inteiro sem exigir que o outro responda à tua inteireza.
No âmbito introspectivo, expressar a verdade é um exercício de alinhamento. Quando permaneces calado por medo, receio ou prudências excessivas, tua alma se contorce num labirinto onde tu mesmo te perdes. Mas quando falas com honestidade, ainda que tua voz tremule, não se trata de desmascarar ninguém trata-se de te reencontrar. É o momento em que compreendes que a tua verdade não precisa da mentira alheia para existir: ela se sustenta por si mesma.
Atribui sentido galopante ao teor de alforria. A libertação que vem do gesto simples e profundo de dizer: “É assim que vejo, é assim que sinto.” A tua verdade não vai atrás de culpados; vai atrás de coerência. Ela não exige reverência; exige respeito por ti mesmo. Ela não aponta dedos; abre portas.
Quando dizes a tua verdade, tu te libertas e libertas também o outro. Porque tiras dele o jugo da interpretação, da adivinhação, da suposição. Permites que cada um permaneça no seu lugar de consciência, devolvendo a cada qual a dignidade de sua própria narrativa.
Dizer a tua verdade não transforma ninguém em mentiroso. Apenas te devolve ao território sagrado onde tua alma respira sem medo.
O Chamado Silencioso do Teu Deserto Interior.
— Um Diálogo que Te Desvela.
Apenas acende tochas no escuro das tuas próprias cavernas interiores.
Há um lugar dentro de ti que te parece profundamente secreto, quase interditado. Não porque seja sombrio, mas porque é verdadeiro demais. E a verdade tem o hábito de nos encarar de frente, sem ornamentos face to face, como dizem em inglês (frente a frente). É justamente por isso que tu o evitas: temes que ali se revele a tua audácia legítima, aquilo que há muito deixaste dormir sob o peso das expectativas, das reações alheias, das justificativas tão delicadamente construídas para te manter longe de ti mesmo.
Esse espaço é teu deserto interior não um vazio, mas um lugar onde nada distrai. Onde tudo o que existe és tu, sozinho com tuas inquietações, tuas contradições, teus desejos ainda sem nome. Por isso ele te abala. Porque aquilo que tentas sustentar externamente não resiste ao espelho desse silêncio.
Ha uma pergunta que não responde nada por ti:
Por que relutas tanto em entrar nesse deserto, se é justamente ali que guardaste o que te falta?
Não corro para te oferecer solução. Apenas deixo que a pergunta te toque como água na pedra suave, mas contínua.
Quando te aproximas desse território íntimo, começas a perceber que o temor que sentes não é pelo desconhecido…
é pelo que já sabes e finges não saber.
Então te pergunto:
O que exatamente temes encontrar ali que não toleras dizer em voz alta?
Talvez uma verdade antiga esperando pela tua coragem renovada.
Talvez uma dor que só precisa ser escutada, não temida.
Talvez um talento, um impulso criativo, uma força que te intimida porque te convoca a viver com mais autenticidade.
Se esse deserto fosse, na verdade, o lugar onde começa o teu caminho e não onde termina o teu fôlego como mudaria o que chamas hoje de dificuldade?
Percebes?
Não há imposição.
Só perguntas… aquelas que te devolvem a ti mesmo.
A jornada interior não é um chamado para fugir do mundo, mas para deixar de fugir de ti.
Quando te aproximas desse núcleo secreto, algo se realinha silenciosamente: o que te abala por dentro deixa de comandar o que mostras por fora.
E assim, pouco a pouco, vais descobrindo que a porta do deserto nunca esteve trancada.
Tu é que aprendeste a desviar o olhar.
Então te deixo com a última pergunta aquela que abre todas as outras:
Quando é que tu vais te permitir entrar no lugar onde finalmente podes ser inteiro?
Essa resposta…
só tu podes dar.
"A Luz que Retorna aos Teus Olhos"
Há um instante em que o olhar humano, fatigado das formas e das mentiras do mundo, deixa de ver e começa a contemplar. Nesse instante, teus olhos não pertencem mais à carne: pertencem ao universo.
Toda lágrima que neles nasce não vem apenas da dor, mas da lembrança do que eras antes de existir. Porque há algo em ti que o tempo não apagou: uma luz antiga, sobrevivente das eras, que o esquecimento tentou sepultar.
“Teus olhos foram feitos para o universo...” não como metáfora, mas como destino. Quando olhas para o céu, é o próprio céu que tenta se reconhecer em ti. Por isso há uma saudade muda no teu olhar, uma vertigem doce, um cansaço que é também chamado de eternidade.
E “em ti então se faz mais luz de retorno”. Sim, porque tudo o que amas, compreendes, perdoas ou suportas com ternura se transforma em claridade que volta como eco divino para teu próprio coração. Nenhuma dor vivida em pureza se perde. Nenhum amor silencioso é vão. O universo grava em tua alma o que teus olhos aprenderam a ver sem julgar.
Por dentro, choras mas essas lágrimas não te afogam: purificam.
São o rio secreto por onde a tua luz retorna à origem.
E quando, enfim, o mundo se apagar em tua volta,
serás tu quem o iluminará de ti mesmo.
A Lâmina da Luz que Revela Quem Somos.
Há momentos em que a existência se torna um espelho sem polimentos, é justamente aí que descobrimos que o amor e a rejeição não são opostos, mas respostas diferentes à mesma autenticidade. Quem te ama pelo que és encontra afinidade; quem te rejeita pela mesma razão revela apenas os limites da própria sombra.
A personalidade verdadeira essa que não se curva, não finge, não mendiga aceitação ilumina. E toda luz, inevitavelmente, cria contornos: alguns se aproximam para aquecer-se, outros se afastam para não serem vistos. Mas nada disso diminui a grandeza de permanecer inteiro.
A tua essência não foi talhada para caber em espaços estreitos. Ela foi moldada para mover ventos, despertar afetos e provocar mudanças. Ser quem és, sem reservas, é uma dádiva rara; e quando alguém não suporta tua verdade, é porque ainda não sabe o peso da própria máscara.
Conclusão.
Segue firme na tua identidade. A vida sempre coloca ao teu lado aqueles que reconhecem tua força, e afasta silenciosamente quem não tem maturidade para caminhar contigo. Nunca escondas tua luz por medo de incomodar; ela é precisamente o que te torna único, necessário e inesquecível.
“Sê inteiro, mesmo quando isso custar incompreensão. Quem precisa da tua verdade, encontra-te. Quem teme tua luz, apenas passa.”
“Muitos te amarão pelo que és; outros, pela mesma verdade, te rejeitarão. A luz que te revela também é a luz que incomoda. Sê quem és, mesmo quando isso desnuda o silêncio alheio.”
CAMILLE MONFORT — A LIBÉLULA QUE NASCEU DO BRILHO DE UM ÚNICO MUTISMO EM AFASIA.
Ela desceu como quem não pisa mas evapora em segredos em desígnios.
E, no instante em que o porão respirou para recebê-la, eu senti que não era uma mulher que se aproximava…
era um estado da alma.
Camille Monfort surgia sempre assim:
na fronteira onde o silêncio se torna obra,
onde o indizível se condensa em forma,
onde o olhar ainda não sabe que está olhando.
Era uma libélula.
Não dessas que tremulam ao sol, finas e triviais,
mas uma libélula surgida da própria sombra,
uma criatura que aprendeu a voar
do brilho de um único mutismo em afasia.
Porque Camille nunca precisou de palavras.
Ela carregava dentro de si um silêncio que não era ausência,
era presença demais.
E quando entrou no porão,
a escuridão, que até então parecia imóvel,
ergueu-se num sopro quase tímido,
como se reconhecesse nela
a única capaz de decifrá-la.
Ela caminhou até mim.
Não tocou nada.
Mas tudo ao redor se ofereceu como se fosse tocado.
Os objetos antigos, as sombras que eu temia,
aquela dor encostada no canto,
todos se voltaram na direção dela, como se aguardassem que fosse Camille a lhes conceder destino.
E então ela falou.
Mas não com voz.
Falou com o vazio entre seus lábios, com aquele intervalo que precede toda linguagem, com a pureza de uma afasia que não é falha, mas transbordamento.
Era como se dissesse:
"Tu não tens que temer o que é teu.
Toda dor que escondeste esperava por mim.
Vim para devolver-te ao que foste antes do medo."
Eu a vi se inclinar para o chão,
como quem escuta a memória de uma pedra.
E suas asas, ah, essas asas que não existem,
mas que todos sentem, se abriram na penumbra com a serenidade de um ser que conhece sua própria eternidade.
Camille não era mulher.
Era um sopro antigo,
uma lembrança viva de que o espírito tem profundidades que o corpo não alcança.
E ainda assim, ali, tão perto,
ela parecia feita de matéria sensível: pele alva, olhar de penumbra, murmúrio de eternidade no contorno da boca.
“Além da dor”, murmurou o silêncio dela,
“há sempre um lugar onde tu voltas a nascer.”
E nesse instante,
eu soube que Camille Monfort não tinha vindo me visitar.
Não. Ela tinha vindo me devolver.
Devolver-me à minha essência,
às minhas ruínas, à minha claridade esquecida, àquela parte de mim que só aparece quando uma libélula de luz pousa no subterrâneo da alma.
Camille,
a etérea,
a inaudível que tudo diz,
a que paira sobre o não dito,
a que veste a noite e abre a aurora, olhou-me pela última vez antes de falar aquilo que jamais ousarei esquecer:
"Eu sou a tua luz quando não acreditas mais na luz.
Sou a voz que nasce quando tu emudeces.
Sou o que resta quando tudo em ti se partiu."
E então…
ela se dissolveu devagar,
como quem regressa ao próprio mistério, deixando no ar
um pólen de eternidade
que ainda hoje respiro, triste,pesado e sem ar complexos.
Escritor:Marcelo Caetano Monteiro .
Fragmento Perdido de um Coração em Ruína.
“Se desejas matar-me, não poupes tua ansiedade.
Deixa que ela escorra, lancinante, como um punhal ansioso por minha alma.
Faze com que meu sonho escarlate percorra tua memória, tão santa quanto sepulcral, se nela eu houver de permanecer, mesmo que morto.
Pois te digo: melhor me é morrer em teu pensamento
do que viver sem o teu desejo.
E se meu sangue imaginado tingir a lembrança que guardas de mim,
que assim seja.
Nada mais terrível suporta meu espírito
do que desaparecer sem deixar em ti uma sombra,
um tremor, um eco,
um lampejo que seja de minha dor.”
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
O Cativeiro da Agonia.
“Faço da minha vida um cenário da minha tristeza.”
E assim, a existência se converte em palco, e eu, ator sem aplausos, caminho entre sombras que se arrastam nas paredes da própria alma.
Agonia…
Tu que me encarceras e me vigias como sentinela antiga, tens mil portas abertas em tua fortaleza austera.
Eu, porém , cativo, não tenho nenhuma, ou talvez apenas uma:
o meu pensamento.
E o pensamento, este frágil portal para mundos possíveis, treme. Ele poderia ser fuga, ruptura, salto.
Mas não fujo.
Porque o dom dos abismos se levanta silencioso entre nós dois, entre tu e eu, como muralha feita de memórias, silêncios e ausências que se recusam a morrer.
E nesse intervalo, nesse vão entre o que sou e o que me dói, a vida permanece suspensa, hesitante, como vela acesa no vento que sopra de dentro.
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