Carta a um Amigo Detento
Estrela da manhã
Um astro raro presente no céu
Cobrindo a todos com o seu véu
Espalhando paz, amor, emoção
Carinho, ternura e uma paixão
É a estrela que brilha no ar
Toda tão linda, de se suspirar
Quando a vejo, de novo acredito
Ela é o motivo pelo qual existo
Viajando sem ter passagem
Voa tão alto, parece miragem
Volta cedo para me consolar
É tão misteriosa como o mar
Estrela da manhã, te quero!
A tua autenticidade, espero!
Continue sendo... a única
Inspiração da minha música.
Misticismo
Um minuto de conexão
Cem anos sem explicação
Silêncio contido, disperso
Paz no sentido reverso
O que contém a letra M?
O que há por trás dela?
Misticismo e tudo treme
Na contínua passarela
Opções em transposição
No infindável rumo
Quatro ou um milhão
Eu encontro ou sumo!
Por que existe alfabeto?
Só enxergo uma agora
Sob outros olhos, perto
Distante, indo embora
Semelhança que atrai
Diferença que apedreja
Esperança que se vai
Coração que esbraveja.
Lance fortuito
Estar só em um ônibus lotado
Deveras incerto o destino certo
Música alta em um carro parado
Na rua, residência dos sem-teto
Têm dias que passam depressa
Já outros parecem não passar
Paz e guerra na mesma remessa
Assim fica difícil continuar
Se a cada chuva houvesse a certeza
Que Deus está sempre a chorar
A estupidez humana seria clareza
É claro que todos iriam enxergar
Metáforas que representam muito
Gírias e a linguagem informal
É necessário um lance fortuito
O ontem nem sempre é igual.
Somos o futuro
Mais uma noite acaba
Mas não acaba o sentir
Um sentido quase raro
A novidade está por vir
Todo dia é um novo ar
Alguma coisa pra respirar
Estando nessa plenitude
Na eminência de atitude
É claro que haverá então
Outra paisagem lá fora
Somos o futuro, irmão
Quer mesmo dar o fora?
Opto por prosseguir aqui
Um tanto longe de mim
Ainda refletindo comigo
Motivado, mesmo sem ti.
Caiu a ficha
Eu saí com ela depois de um tempo sem nos vermos. Conversamos, rimos, concordamos em muitas coisas e discordamos em outras. Ficamos horas nesta apreciação pura e mútua de um momento, até que chegou o instante em que ela teve que partir. Na ordem cronológica dos fatos, era só mais um lance a passar desapercebido pela maioria, mas o vazio que senti ao seu adeus foi bem perceptível para mim. Então, caiu a ficha: eu estava gostando dela.
Lembrança (até mais)
Ela tinha um jeito delicado de ser
Eu sabia que não me pertenceria
Mas não sabia que tão cedo iria
Me deixar, assim, bem disperso...
A cada lembrança, pingo de chuva
A cada lágrima, que cai como luva
Eu me perco no mesmo pensamento
Que sempre é o do nosso momento
Seria fácil se não tivesse sido nada
Eu sonhei e fiz tudo aquilo por mim
Por nós... foi um beijo e todo o fim
Cada um, então, seguiu sua estrada
No fundo, sei que nos encontraremos
Só a distância insistiu em nos separar
Nada durou pra sempre e nem durará
Quando nos vermos, que reação terá?
Eu quero olhar aqueles olhos mágicos
Desfrutar de novo do sorriso demais
Nessa história, não há nada de trágico
Ela também lembra. Eu sei. Até mais.
Trinta e um
Mais um mês acaba
Em trinta e um dias
E menos um mês
Que acaba em trinta
O que aconteceu?
O que não aconteceu?
Não importa, já passou
Um outro mês chegou
Conforto ou desespero
Depende do que se foi
Imersos no dia de amanhã
Enquanto o sol se põe
Confiamos no dia primeiro
E, às vezes, não em nós
Grande coisa o calendário
Virão ainda novos sóis
Não é a data que altera
Nem o mundo que muda
A mudança vem de dentro
Terráqueo, não se iluda!
A estrangeira
Estrangeira vinda de um lugar qualquer
Hoje eu preciso conhecer o teu jardim
Essa beleza que trazes junto ao peito
É um delírio total para mim, sem fim
Me contaram que és muito solitária
E que tu és repreendida pelos pais
Tua banda favorita não é do Brasil
E que preferes pintar com o azul anil
Me contaram que tu não lês poesia
E que trocas o romance pelo terror
Talvez quem disse seja uma inimiga
Que ainda não percebeu o teu valor
E eu lhe conto: que incrível o efeito
Do vento que antes passou por mim
Associei às conquistas adolescentes
Quando, de repente, pensei em ti
Demonstras em gestos carinhosos
Que, de fria, não tens quase nada
Desejaria se, realmente, fria fosses
Que a minha vida fosse congelada.
Saindo por sair
Marca meia-noite no relógio de um integrante
Do bar da Cidade Alta, local nada adequado
É irônico que a chuva apareça só no sábado
Após toda a semana com um clima radiante
O caminho que eu faço para voltar para casa
Nunca pareceu tão longo, tenso e perigoso
Ainda que mude a rota, dificilmente escondo
O quanto essa indefinição deixa-me nervoso
Saindo por sair, eu lhe visto em outras almas
Torcendo para que alguém toque no seu nome
Entendo que há meses mantemos toda a calma
No papel, visto que anseio que tu me chames!
Se eu consigo chegar, enfim, às seis da manhã
E visualizo a mensagem que deixaste para mim
Visivelmente emocionado, posso deitar em paz
Nós dois, um mais um, tem tudo para ser assim.
Cair noturno
Enquanto digito no meu teclado
Imaginando quaisquer pecados
Que um padre, por aí, perdoou
Estou certo de que ele já amou
Afinal a humanidade é uma só
Bem como cada ser é individual
Todos erramos e até repetimos
Fugindo de um lado intelectual
Aparências caem no cair noturno
Cada um demonstra o que ele é
A essência convive com o existir
Conheçamos ou não um Maomé
Ignorando os credos, seguimos
Com a força da bênção interior
A realidade nem sempre é dura
Basta uma reflexão a todo vapor
Olho a mim mesmo, me conheço
Todavia perco-me em pleno ar
Conspirando sobre o outro lado
Como um marinheiro sem mar
Não queremos dedos apontados
Precisamos de abraços de perdão
Somos sempre jovens insensatos
Apenas romancistas sem religião.
Platonismo
Se fosse ela que estivesse lá
Ele não seria mais ele mesmo
Talvez fosse um cara melhor
Entretanto com outra cara
De revolucionário a conservador
...vejam o que causa o amor...
Ora tagarela, outrora quieto
Moço apaixonado e desequilibrado
O que se procura não se acha
Não quando se está procurando!
É de repente e é também irônico
Que ninguém molde o seu enfim
Com um passo fora da marcha
Tem quem continue esperando!
À beira de um colapso platônico
Sem colher a sua flor no jardim.
Insubstituível
Nunca alguém poderá substituí-la
Visto que cada um de nós é único
Quem não conhece a história faz
Sempre os insuportáveis discursos
Enquanto padeço pensando nela
Chega um rapaz e diz-me de tudo
Fala, fala e não chega à conclusão
Só me resta que permaneça mudo
Pois ele diz que eu posso superar
Seguir vivendo, como todos falam
E eu ainda sonho com o rosto dela
Sonho do tipo em que todos calam
Vai ver atravesso uma fase ruim
A donzela da mente se apoderou
Ouço sua voz suave me chamando
Esqueço por ora se sou ou estou
Será que sou um devoto da utopia?
Será que a dama me cumprimentará?
Deito na cama e penso até dormir
A minha única certeza: ela estará.
Desentendimento com o entretenimento
A audiência de um reality show me espanta
Afinal, tantas pessoas perdem horas e horas
Cuidando o que desconhecidos irão fazer
Ou na expectativa do próximo a ir embora
Anônimos viram estrelas da noite pro dia
Basta apenas que eles apareçam na telinha
Como se o público inventasse seus heróis
Deixando a grande mídia em maus lençóis
Linguajar e atitudes, por vezes, são vulgares
Os espectadores, todavia, são manipuláveis
O "pão e circo" já foi adotado na Antiga Roma
Entretenimento vazio faz no cérebro um coma
Quem produz um programa de TV é esperto
Sabe que cultura dá menos ibope que burrice
A mente humana é repleta destas esquisitices
Que tornaram o conhecimento um raro objeto.
Numerologicamente
A organização toda padece lentamente
Sendo conduzida descontroladamente
Um velho barbudo, no Texas, sorri
Ele sabe bem no que dará isso aqui
Pactos desfeitos por dinheiro a mais
Fale o seu preço, deve haver algum
Somos condicionados ao voto comum
O outro candidato é estranho demais
Paixões incendiando sem uma pausa
Relacionamentos acabando do nada
Aventureiros estão ficando em casa
Confissões silenciosas na alvorada
12 de fevereiro foi o início do fim
20 de maio é uma história daquelas
9 de julho e cá estamos novamente
Acreditando em datas infelizmente
Aquário, Sagitário, Áries ou Libra?
Editoras lucrando quase sem querer
Se a bola de cristal previsse o futuro
De verdade, você gostaria de saber?
Medo da morte
Você é um babaca que sai de casa
Achando que irá causar confusão
Talvez algum incidente lá na praça
Você fala que é fogo, mas é brasa
Tentando se destacar na multidão
Foge quando ocorre uma desgraça
Medo da morte, medo da morte
O seu fim está muito próximo
Medo da morte, medo da morte
Todos os outros achariam ótimo
De quantos você já correu até hoje
Depois de tentar expor a sua visão?
Humildade serve como um lema
A alguém que tenha consideração
Mas o seu nada merece repúdio
Ninguém gosta de se aproximar
Medo do depois, medo do depois
Não existirá par a lhe consolar.
Inconvenientes
A melhor roupa para um evento sem graça
Um traje qualquer para uma noite e tanto
O ingresso mais caro, o preço mais alto
Status lá em cima, satisfação de canto
Ganhar a partida e perder o campeonato
Fazer um gol contra diante do seu rival
Gostar de terror sem conseguir dormir
Começar um filme pensando no final
O amigo da escola que virou conhecido
Rostos estranhos tornando-se naturais
Um diálogo na internet emocionante
Aquele encontro que não saiu mais
Casar porque é normal, mas sem amor
Acabar um relacionamento de meses
Viajar pelo mundo no Google Maps
Ir na brasileira Praia dos Ingleses
Perceber que convêm inconvenientes
Como construção após a destruição
Árvore que cai, ergue-se o outdoor
‘Feliz Dia da Árvore, meu irmão!’.
Terceira pessoa
Se você visse a sua vida como
Uma 3ª pessoa, a acharia legal?
Imagine que é um personagem
De um filme com início e final
Finge que está numa comédia
Tentando disfarçar seu drama
Com as fotos em redes sociais
Que só mostram um panorama
Me responda: como isso seria?
Se não tivesse nada a esconder
Você teria orgulho de ser você?
Eu espero que sim e quero ver
Uma boa ação dispensa plateia
O que importa é sentir-se bem
Curtidas são um afago rápido
Menor que o abraço de alguém
Mostre para si que tem valor
Simplicidade virou grandeza
Se as massas querem aparecer
Destaque-se com a franqueza.
Completamente sozinho
Um músico compõe as suas canções sozinho
Um escritor desenvolve os seus textos sozinho
Eles lidam bem com a solidão, precisam dela
Os não-artistas sentem o vazio escurecer a tela
Estar sozinho é diferente de estar solitário
Dá para se encontrar completo na solidão
E completamente perdido ali na multidão
Como duas vestimentas do mesmo armário
É simples: se trata de gostar de si mesmo
Boa companhia para si deve ser a outrem
Pois quem não pode ser seu grande amigo
Não cria uma boa amizade com ninguém
Sem dramatizar, encare firme o ficar só
Pare e olhe-se fixamente em um espelho
O que você vê é tudo o que precisaria ver
Ótima imagem sua sem um vulto parelho.
O escolhido
Aquele foi um olhar de amor, eu pensei
Uma mulher sempre percebe, eu concluí
Como se pontos tivessem sido entregues
Como se esquecesse o que me trouxe ali
Um homem de verdade não diz "te amo"
De forma gratuita e indiscriminadamente
Entretanto, o denuncia de outros modos
Também retumbantes e desesperadamente
O amor feminino costuma despertar temor
É bem mais fácil envolver-se com outras
Do que com a garota que escolheu você
E você nunca a acha em quaisquer bocas
Aí existe a fuga desenfreada e cansativa
Negando a si mesmo a maior obviedade
Gostar por gostar você gostou de tantas
Ela você ama e já comenta toda a cidade
O sentimento latente bate na sua porta
Ele se chama Amor e pede para entrar
Você pensa muito porque não percebeu
A sua disposição imensa em se entregar.
O resgate
Um fantasma voltou a me assombrar
Eu o vi em todas as fotos, estava lá
Eu estou sentindo-me desesperado
Até escrevi um mirabolante recado
Achava que havia me livrado, errei
Estou palpitando, mas no fundo sei
Há muito tempo não me sentia assim
Com motivo pra sonhar antes do fim
Ela nunca será minha, porém é linda
Uma intuição dizia que a veria ainda
Cá estamos, na loucura e sobriedade
Estranhos mesmo na mesma cidade
Que pena da minha própria pessoa
Logo eu que estava bem numa boa
Subestimei o poder da madrugada
E, no caso, resgatei a minha amada.
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