Carta a um Amigo Detento

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⁠Refletir sobre o que já foi vivido é um passo fundamental para integrar as experiências e seguir adiante com mais consciência. O passado não pode ser modificado, mas pode ser compreendido, ressignificado e transformado em aprendizado, sem a necessidade de permanecer preso à culpa ou à ruminação.


Quando essa elaboração acontece, abre-se espaço para escolhas mais maduras no presente. Em um relacionamento, por exemplo, este processo se expressa na disposição para um diálogo profundo e honesto, que permita reconhecer limites, sentimentos e responsabilidades, conduzindo, de forma consciente, à decisão de reconstruir a relação ou de seguir o próprio caminho.

Ao longo de nossas vidas, pessoas vêm e se vão. Algumas caminham conosco apenas por um trecho do percurso, fazem parte da viagem, mas não do destino. Esta compreensão, no entanto, raramente é imediata, ela se constrói com o tempo e com a construção das experiências vividas. Persistir em vínculos que repetidamente nos ferem costuma ser uma escolha marcada pelo apego ou pelo medo da solidão, e não por um desejo genuíno de cuidado consigo mesmo.


Aqueles que já não temem estar sós e alcançaram a solitude precisaram, antes, atravessar a experiência da solidão. Foi necessário permanecer consigo, sem ter que usar outras pessoas como forma de preencher vazios emocionais ou amenizar a carência. Este processo exige coragem, disponibilidade interna e disposição para não depender afetivamente de alguém enquanto se elabora a própria ausência. A solitude, portanto, não é fuga do outro, mas um encontro consigo e só se torna possível quando a solidão é vivida, compreendida e integrada.

Saudade de um filho ausente


Hoje bateu saudade
Martelando sem parar
Sentimento de amargar
Que machuca de verdade.


Quero que o seu progresso
Lhe dê asas pra voar
E que tu possas voltar
Quando alcançar sucesso.


Sejas feliz, fique em paz
Que aguento tua falta
Com essa dor que maltrata
Que a tua ausência faz.


Eu choro com tua ausência
Mas eu posso ir te ver
E teu abraço receber
Contigo ter convivência.


Mas me lembro de repente
De mães que sofrem bem mais
Que os filhos verão jamais
Quando a dor é permanente.


A Deus tenho clamado
Que Jesus olhe por ti
Já que não estou aí
Filho querido e amado.


E que conforto possa dar
Às mães que têm chorado
Pelo Senhor já ter levado
A quem mais vieram amar.

Com a chegada de um novo ano, nasce a expectativa de implementar o renovo! Com isso, faz-se necessário, "entregarmos" os fardos, ao Criador, para sermos recompensados pela Sua graça redentora e mantenedora.
Levemos adiante o que nos capacita, confiantes e aptos a semearmos em terra fértil, para que frutifique o amor, a paz e a esperança, alicerçadas na fé que nos move e alcançarmos o extraordinário!

FELIZ ANO NOVO!

nadas (in)versos

fiz do silêncio um idioma
e dos nadas, um abrigo
o que em mim parecia vazio
era só verso ao contrário
esperando quem soubesse ler

carrego abismos bem vestidos
sorrisos que nunca contam tudo
há verdades que só existem
quando ninguém está olhando

não me explico — me inverto
sou sombra que pensa
e nos meus nadas mais fundos
mora exatamente
o que não ouso dizer

''se o peixe sair da água para dizer que o crocodilo está doente acredite''


Essa frase é um provérbio africano, especialmente iorubá, que significa que quando alguém de uma posição inferior ou inesperada (o peixe) te avisa sobre um perigo ou problema que afeta alguém poderoso ou que você considera invencível (o crocodilo), você deve prestar atenção e acreditar, pois é um sinal de que a situação é séria e a ameaça é real. O provérbio ressalta que até os mais fortes podem ter fraquezas, e a verdade pode vir de fontes improváveis.
Peixe: Representa os mais fracos, as pessoas comuns, ou quem não deveria ter conhecimento sobre os problemas de quem está "acima".
Crocodilo: Simboliza o poderoso, o forte, ou a situação que parece estável e imune a problemas.
A água: Simboliza a superfície, a vida como ela parece, enquanto as profundezas guardam os perigos reais.
Em resumo: Acredite nos avisos, mesmo que venham de quem você menos espera, pois eles podem revelar uma verdade oculta sobre um perigo que está por vir.

Um anjo ensinou os homens a criar armas e a fazer guerra. O mesmo anjo ensinou às mulheres algo mais sutil. O domínio da beleza. As armas destroem rápido, mas a beleza influencia antes do primeiro golpe.
Muitas guerras começaram no ferro… mas foram decididas no olhar, na escolha, no desejo.Porque o poder masculino costuma ser direto e ruidoso.O feminino, silencioso e estratégico.E enquanto a força impõe, a mulher move o mundo sem precisar levantar a mão.

O verdadeiro presente


De que vale um belo laço
Se a alma não vem no gesto?
Presente sem sentimento
Vira um pacote indigesto
Sem presença, perde o brilho
É como um trem que sai do trilho
Não aquece o coração honesto.


Presente bom é um mimo
Que nasce do querer bem
Não pesa, não é obrigação
Não se compra por ninguém
Se vem sem gosto ou carinho
É apenas um ato mesquinho
Valor de verdade não tem.


Mais vale um abraço amigo
Um sorriso que se repete
Que um pacote frio e caro
Que nem afeto remete
O que toca é a companhia
Companheirismo no dia a dia
Com isso, nada compete.


Que no seu aniversário
Haja afeto e bem-querer
Não pese o preço ou a pressa
Mas o gosto de oferecer
Presente que é de amizade
Há verdadeira felicidade
Faz a vida florescer.


Que se divida cada instante
A tristeza e a alegria
Compartilhe de coração
Com ternura e harmonia
Assim o presente é festa
Mesmo de forma modesta
É vida em plena poesia.


Presente medido em cifra
Perde todo o seu valor
Mas aquele dado com alma
Se enche de brilho e cor
Pois quem oferta de coração
Recebe em troca, a gratidão
Recheada com muito amor.

Almas que o tempo não apaga


Dois corações, um só destino,
cruzaram-se na curva do divino.
Almas gêmeas, em puro esplendor,
vivendo intensamente o mais belo amor.


Mas veio o tempo com sua dureza,
soprando orgulho, ferindo a leveza.
Palavras caladas, silêncios gritantes,
e o amor, tão vivo, tornou-se distante.


Seguiram caminhos, corpos separados,
mas os sonhos... ainda entrelaçados.
Cada gesto, cada som, cada cheiro,
era a lembrança do tempo verdadeiro.


O sol que aquece, a chuva que cai,
tudo recorda o que o tempo não trai.
Mas o orgulho, teimoso, cresceu demais,
e cavou entre eles abismos mortais.


Mesmo longe, a dor é presença constante,
como um eco do amor, ainda vibrante.
Dormem e acordam com o mesmo vazio,
tão perto no amor, tão longe no frio.


E o coração? Ainda pulsa em tortura,
amando em segredo, sofrendo a amargura.
Pois saber que se ama e não poder tocar
é o castigo mais cruel de se amar.

Ontem


Ontem mexi no livro,
fiz das palavras abrigo,
encontrei em cada página
um pedaço perdido de mim.


Ontem mexi num logo —
era pra minha filha, meu orgulho,
desenhei sonhos em vetor,
coloquei cor no futuro.


Ontem limpei a casa,
varri lembranças,
espanei silêncios
que dormiam nos cantos.


Ontem brinquei com a Nyx,
ela ronronava esperança,
e eu ria com a leveza
que só uma gata entende.


Ontem cozinhei lembranças,
aromatizei o tempo,
fiz do tempero consolo,
do prato, um afago quente.


Ontem bebi.
Bebi comigo, bebi do mundo,
bebi do tempo que escorre,
e fiquei de pileque —
rindo para as paredes,
como se fossem velhos amigos.


Ontem eu fui.
Fui alegre, fui feliz,
fui triste, fui silêncio,
fui tudo, fui nada,
fiquei…


Preso entre risos e ausências,
entre a bagunça do vivido
e a poesia do que não se diz.

Maré de Lua — Câncer

És mar sereno e tempestade súbita,
Um coração que pulsa em ondas.
Tens no peito uma casa inteira,
Onde todos cabem — e ninguém quer sair.

Teu cuidado é remédio e abrigo,
Sabes sentir até o silêncio.
A intuição te guia como farol,
E teu amor é mar que nunca seca.

Mas… oh, Câncer, quando o medo morde,
Recolhes-te ao casco, frio e distante.
A mesma água que acalenta, afoga;
A mesma lua que encanta, oscila.

Guardas lembranças como tesouros,
Mas às vezes são âncoras que pesam.
Teu apego é calor e prisão,
E teu drama… ah, esse, enche o oceano.

És sensível, mas também forte;
Choras, mas segues nadando.
Virtude e defeito dançam contigo,
No vai e vem eterno da maré de Câncer.

Eu mudei há muito tempo.
Não por ser um mau-caráter, nem por ser um tolo distraído.
Mudei porque não aceito mais caminhar lado a lado com o caretismo que me acompanhava nas vilas da vida.
Não faço questão alguma de voltar ao que eu era antes.
Acordei a tempo de me proteger da tempestade,
de erguer minha própria fortaleza,
de entender que a mudança não foi fraqueza,
foi coragem.
Hoje sigo firme, sem olhar para trás.
Quem quiser caminhar comigo, que venha com verdade.
Quem não quiser, que fique preso às suas próprias sombras.
Eu sigo livre. Eu sigo desperto sem ninguém pra me atrapalhar.

*Vaidade. Um breve comentário.*

Muito se fala sobre a vaidade. Acusamos, reconhecemos, mantemos e, ao final, não trabalhamos o seu real significado e a transformação que essa palavra pode promover em nós. Costumamos usá-la de forma pejorativa, então vejamos o seu conceito.
A palavra vaidade tem origem no latim "vanitas", que deriva de "vanus" e significa: vazio, oco ou sem substância. Assim, o valor da vaidade é um retumbante nada.
Se de tudo podemos tirar uma lição, do nada filosófico, verificamos correntes de pensamento que acreditam que nada existe; a exemplo: o niilismo metafísico, o solipsismo e o ceticismo pirrônico.
Através desses estudos, podemos confrontar a existência, seja no plano das coisas concretas, no niilismo metafísico; seja na existência somente da mente, no solipsismo; ou na dúvida constante acerca da realidade, no ceticismo pirrônico.
Ora! Mas esse nada existencial filosófico não possui relação com a vaidade, à qual gostamos de nos referir. Pois a associação da palavra vaidade, que hoje nutrimos, está intrinsecamente ligada ao narciso que nos cerca. Então vejamos.
Comecemos com um resumo contido nos livros sagrados.
Na Bíblia, Eclesiastes: "Vaidade das vaidades, tudo é vaidade". Aqui, ela expressa a futilidade e a ilusão das coisas terrenas, sendo um aviso sobre a efemeridade da vida e a busca por valores vãos.
No Alcorão (Islamismo): A palavra "vaidade" está associada ao orgulho e à arrogância, que são suas manifestações. Alerta para que a submissão a Deus e a retidão moral sejam maiores do que a valorização excessiva dos bens materiais ou do status social.
No Hinduísmo: A vaidade está ligada ao conceito de ego e ao apego às ilusões do mundo material. A busca por glória pessoal e posses é considerada uma distração do verdadeiro objetivo da vida, que é alcançar a libertação do ciclo de reencarnações e realizar a unidade com o Absoluto.
No Budismo: A vaidade e o orgulho são vistas como manifestações do apego ao "eu" ilusório e uma das principais causas do sofrimento. O budismo ensina a reconhecer a transitoriedade das coisas, bem como a impermanência das coisas materiais e até da própria identidade.
Em síntese, podemos dizer que a palavra vaidade, pelos apontamentos dos livros sagrados, traz sinônimos como: futilidade, ilusão, orgulho, arrogância, ego e apego.
Se os livros sagrados apontam essas características em nós para serem trabalhadas, é porque esses traços estão contidos em nossa essência. E a vaidade não é algo que podemos combater com tanta facilidade, pois, se ela está associada ao ego, à ilusão, ao orgulho, ao apego e às coisas fúteis, que estão enraizadas em nós, então... como combatê-la?
Ora, se eu troco um telefone por um melhor, isso é vaidade, pois dificilmente será por necessidade. Se uma mulher ou um homem se vestem bem, isso é vaidade, pois estão se vestindo para os outros. Se eu cuido do corpo buscando uma estética superior, isso é vaidade, pois nunca é apenas pela saúde. Enfim, tudo é vaidade.
Se esse “nada” é capaz de nos destruir tanto, imagine se tivesse substância!
Agora, a vaidade que podemos combater com certa facilidade é a vaidade que enxergamos nos outros. Costumamos apontar pessoas como vaidosas e colocamos sinais de reprovação. Mas só conseguimos enxergar aquilo que também possuímos. Portanto, toda vez que atribuírem a alguém o título de vaidoso ou disserem que há vaidades, lembrem-se e reflitam sobre o próprio estágio de desenvolvimento, pois ao apontar um dedo, três voltam para nós.
Como dizia Friedrich Nietzsche: *“A vaidade dos outros só vai contra o nosso gosto quando vai contra a nossa vaidade.”*

Graça e Paz.
Reflitam para uma vida melhor.

Massako 🐢

Construir uma carreira no mundo atual é como montar um prato em um restaurante self-service.


Há muitas opções de áreas para seguir, mas se não escolhermos a combinação certa, ou se colocarmos muita coisa, vamos acabar pagando muito caro por algo que não faz sentido.


Escolha com sabedoria, o simples bem feito é como o feijão com arroz, dá o sustento a todo o prato. Mas de vez em quando também é preciso ter algo diferente como uma parmegiana, para não ficar entediado.


No fim, equilíbrio é tudo! 🍲

Sobre o crescimento e o tempo...


O tempo realmente é um agente esclarecedor. Julgamos saber de tudo, mas não ousamos viver no presente. Buscar o que há de melhor na vida nos aterroriza, porque no fundo sabemos que precisamos ser a pessoa que faz com que o melhor seja concretizado.


Porém, nem todos estão dispostos a ser essa pessoa, pois em cada um há um abismo que precisa ser vencido para que sejamos libertos.


E essa talvez seja a resposta pra encontrar a luz. No fim, o crescimento precisa dar sentido a dor.



Quando permitimos sentir o incomodo (ou mesmo a dor)da mudança, podemos ter a chance de ver algo extraordinário acontecer: o nosso crescimento.

UMA ÚNICA VEZ
Somente uma vez a alma será tocada pela divina faísca,
Um amor que te fará incandescer, sem deixar vestígios frios.
Ele percorrerá a essência de teus poros,
Em chamas vivas e sem regresso

A enchente deste amor te arrebatará numa única vez,
E serás tão profundamente inundado
Que o próprio oceano de sua essência emanará
De cada uma das tuas minúsculas células.

Uma só vez, e toda a tua cúpula de estabilidade,
Autocontrole e firmeza inabalável se tornará areia fina.
Teus conceitos mais sólidos serão pulverizados e se espalharão pelo ar,
Rendidos ao vendaval desse amor.

Uma vez, te descobrirás na solidão salgada de um mar sem cais,
Onde a profundeza te rouba o chão e a vista não alcança mais.
Serás o fragmento de um barco, entregue aos braços das correntes imortais
Desta paixão que te arrasta, doce naufrágio,
Rumo a portos desconhecidos e desiguais.

Uma só vez, instante único, eterno e fugaz;
O dom de agora, que jamais se refará.
Não há segunda aurora, nem outro abraço igual;
É este o tempo que não cede, não esfria, não tem final.

Quem dera eu pudesse estar aí pra ti dar um abraço, e hj é um dia tão especial para mim,
Pois eu ter você como minha mulher, é uma honra!
E não basta só eu falar que te amo, mas não é só isso, você é o amor de todos nós.
Você é uma pessoa incrível, você é a pessoa mais forte que eu já pude conhecer, uma pessoa assim tão delicada e amorosa, sempre de coração bom e gentil.
Você me salvou de mim mesmo, me faz querer ser melhor a cada dia, eu já não sei mais viver sem você, rs eu te amo!

Nas profundezas onde o poeta arde,
nasce um amor que ele mesmo inventa
feito de brisa que afaga e tormenta,
de força que dobra, mas nunca parte.


É sutil como o gesto que não se vê,
mas feroz como o vento que rasga o céu;
um amor que ele molda no próprio véu
de sonhos que deseja reconhecer.

Epifania das Flores

Nas flores, mora a essência do sublime, um cântico calado em mil matizes, perfumes que, em silêncio, se redimem dos ásperos tormentos e deslizes.

São púrpuras que dançam na alvorada, em pétalas de lume e de ternura, vestindo o chão da vida enfeitada com véus tecidos pela mão da Altura.

Não há amor que nelas não repouse,
nem sonho que, tocando-as, não se inflame; seu ser traduz o Verbo que compõe o hálito do Eterno em forma e nome.

Assim, ao ofertá-las, gesto mudo, diz-se a amada o que não cabe em fala: que o amor, quando é puro, é quase tudo, e em flor, o coração se declara.

I


Para quê tantos planos, se o inesperado nos aguarda como a última chama de um candeeiro que mal ilumina o próprio pavio? Traçamos rotas sobre mapas que se desmancham na chuva. Colecionamos certezas em gavetas que o acaso tranca com ferrugem. Vejo os rostos que partiram [não em procissão solene], mas evaporados no ar pesado das tardes. Eles não deixaram rastros, só um vácuo de gesto interrompido, um café pela metade sobre a mesa. O imprevisto, quando não chega como um ladrão ágil na janela da mocidade, instala-se paciente na poltrona da velhice, à espera do seu momento. É um hóspede que não traz bagagem, apenas um relógio de areia sem fundo. E nós, que julgávamos donos do terreno, descobrimos-nos frágeis como vidro sob pressão. A realidade não bate à porta; invade pelo telhado, quando já estamos dormindo. E o tempo, esse artesão silencioso, talha-nos com golpes cada vez mais fundos, até que a madeira revela suas rachaduras ocultas...


II


Para quê tantos diplomas, selos de um reino que desaba ao primeiro sopro do inverno? Corremos em círculos numa pista que não leva a lugar algum, apenas nos devolve ao ponto de partida, mais cansados. O sistema cobra em moeda invisível: noites em claro, olhos fixos em écrans frios, mãos que apertam outras mãos sem sentir a pele. No final, a conta vem em forma de silêncio. Um vazio que ecoa nos corredores da memória. Perguntamo-nos se valeu a pena o sacrifício do sol pela sombra, do riso pela cifra. Quiséramos ser imortais na alma [deixar uma marca que não se apaga na água], uma palavra que o vento não dispersa. Sonhamos com um fragmento que sobreviva, contador da nossa breve estadia. Mas a verdade é mais árida: seremos esquecidos, como bilhões antes de nós foram. Nomes apagados das lápides pela hera, vozes dissolvidas no ruído de fundo do mundo. Nem mesmo poeira seremos, pois a poeira ainda assenta nas coisas.


III


Sem identidade, viramos número nos arquivos empoeirados de alguma repartição [quisera celestial]. Sem leitor, nossas histórias são livros fechados em prateleiras abandonadas às traças. Sem memória, o que fomos deixa de existir até como fantasma [um fantasma ao menos assombra]. Sem alguém que lave nossos pés cansados, esses pés que tanto andaram de um lado para outro, atravessando lama e terra, em busca de um sentido que se esquivasse como o horizonte. Esses pés que pisaram flores e pedras, que sangraram em atalhos escusos, que dançaram em noites de alegria efêmera. Quem os guardará? Quem recordará o peso do corpo que carregaram, a direção que não encontraram? Somos peregrinos de uma fé que não nomeamos, em jornada para um templo em ruínas. E no fim, nem mesmo a água do esquecimento nos refrescará. Secaremos como rios intermitentes, nossa história sussurrada por ninguém, nosso amor reduzido a zero na equação do tempo...


IV


Mas talvez haja uma verdade mais dura e mais bela nisto tudo: a liberdade está precisamente no desapego do rastro, na renúncia à eternidade. Que importa não sermos lidos, se em vida fomos o verbo e não a nota de rodapé? Que importa o esquecimento, se amamos com a urgência de quem sabe o fogo se apaga? Os planos fracassados não eram inúteis; eram treinos para a entrega. Os diplomas não serviam ao sistema; eram armaduras que tivemos de desprender para sentir a chuva na pele. Os pés lavam-se a si mesmos no rio do caminho, e a água que levam é a única oferenda. Não ficaremos? Ficaremos no modo como uma pedra altera o curso do rio, mesmo que ninguém veja. Na maneira como uma palavra jogada ao acaso gerou um sorriso em um estranho. Somos o sopro que move um grão de areia no deserto imenso — ação mínima, mas real...


V


Então caminhemos. Sem a âncora pesada da imortalidade desejada. Com a leveza trágica de quem sabe que a chama se extinguirá. Que nossos passos, agora, não procurem sentido [que o criem no ato de pisar].
Que nossos rostos, antes de se desfazerem, reflitam o céu inteiro, ainda que por um instante. E quando o inesperado vier, seja na mocidade ou na velhice, que nos encontre de olhos abertos, contemplando o vazio não como um abismo, mas como o espaço onde, por fim, tudo é possível. Porque fomos. E esse ter sido, efêmero e sem testemunha, foi nosso ato mais radical de amor. Um eco sem paredes para repercutir, mas que existiu como vibração no ar. Um grão de poeira cósmica que, por um segundo, soube que brilhava.


--- Risomar Sírley da Silva ---