Carlos Drumond de Andrade Contagem do Tempo
muito mais que uma prova, um signo, um portal, um limite.
assim eu vi cada palavra que me foi dada, cada passo na estrada dessa interação de mão e terra, de fendas e obscuridade, de silêncio e grito,
de preparo e clímax, eu e o mundo todo estava em curso, num momento
tudo se fez e prosseguiu,
nunca mais parti
@machado_ac
eu nem lembro ao certo o que tocava
podia ser Stardust ou Misty ou Pastel,
como sempre com Erroll Garner
não importa, só sei que ficou impregnado em minhas mãos
aquele perfume um tanto doce de almíscar e maçã,
duas horas depois eu fiquei flutuando,
parece que cheguei assim em casa,
pelas ondas do que saiu dali,
era qualquer coisa de estranho e bom,
foi assim, não me pergunte mais nada,
eu nunca vou conseguir dizer tudo,
simplesmente não terminou
@machado_ac
você estará seguro
até que
sem que procure
lhe aporte ás retinas
um motivo para que tudo
se transforme
e mais não digo,
você saberá.
talvez...
@machado_ac
Chá da tarde
foi um achado,
achar estas letras que se tinham perdido,
achei que era a hora de escrever,
nem sei se as letras queriam que as tivesse escolhido,
fiz de conta que convidado eu tinha sido,
na verdade era um penetra desavergonhado,
me tomaram por um membro habitual,
disfarçando sentei -me ao lado,
dei um sorriso e me servi.
@machado_ac
moldar, adaptar, enfrentar...
a realidade é uma só,
qualquer coisa além disso
é idealização, se você tiver uma razoável
consciência disso
poderá não ser feliz,
a própria felicidade
já é uma idealização,
mas sofrerá menos
@machado_ac
se o assunto for você,
qualquer coisa
que eu diga
é muito menos
do que a verdade,
mesmo que seja
uma incógnita
@machado_ac
BUSCAS
O que você busca?
Não foram poucas as vezes que me perguntaram:
Por que você escreve?
O que você busca?
E entre as muitas respostas ambíguas para perguntas que remetem aparentemente a definições objetivas eu digo que escrevo porque é o que sei fazer melhor e eu busco discernimento do que eu vivo de uma forma mais profunda, não busco respostas, busco clareza, busco dirimir as dúvidas, dúvidas que a maioria das pessoas não tem, por que não se inquietam com os conceitos e verdades que acreditam e isso não é defeito ou qualidade é apenas característica de personalidade.
A vontade ou em muitas situações a necessidade de escrever é um desemboque, uma erupção, a mensagem verte da ponta dos dedos, escrever é criar, dar uma versão particular a um fato, um sentimento, uma estória.
A busca pode ser um objetivo, uma carência.
Pessoas traçam metas que querem alcançar e isso pode ser planejado, estruturado, medido e acompanhado, isso é baseado em lógica e passa por processos de ressignificação e revisão de valores, tudo muito ponderável e sensato.
Buscas por si mesmo são questões complexas, envolvem autoconhecimento e consciência de si mesmo, as pessoas que buscam por si mesmo têm uma incompletude patente.
E o que é buscar por si mesmo?
Talvez a resposta mais convincente seja: buscar reafirmar o que já se sabe ou sentir que algo mais sólido falta em suas convicções. Uma aceitação de limites ou por outra o sentimento de romper esses mesmos limites.
A busca é sobretudo uma grande escolha e é comum não saber fazê-las e viver em constante alternância dessas mesmas escolhas.
Da mesma forma que desejamos coisas e após a conquista delas troquemos esse desejo por outro, a busca seja por conhecimento ou por esclarecimento também pode ser alternada disso para aquilo, é humano.
Os fatores externos acabam trazendo um grande ruído a essa busca, porque damos importância aos nossos pares esquecendo que vivemos a partir de nossas vivências e a consistência de nossos valores está diretamente ligada ao que vivenciamos e não ao que observamos no outro.
O que torna a busca uma grande viagem consciente é a convicção de que temos a liberdade de buscar, a sensação de que essa liberdade nos fará melhores, mais confiantes ou menos inseguros.
Uma penúltima conclusão (última nunca será) a respeito da busca por si mesmo é o reconhecimento da necessidade que todos temos de considerar, tanto a vulnerabilidade de nossas convicções quanto a possibilidade de convivência com a convicção do outro, sabermos que as experiências sobre o mesmo assunto, podem ser vividas de maneira distinta e todas elas são válidas, para todos, inclusive para nós que não as temos todas
PODE? MICO. Nossa rica língua, definha.
Escrevo diariamente e isso não nomeio como hábito, necessidade ou coisa que o valha, é algo que faço normalmente com prazer, hoje me debruço sobre o tema, usando uma expressão comum que quer dizer que me ocupo de algo, no caso a ação de escrever, com maior atenção.
Escrever é uma das muitas formas de comunicação, talvez a mais assertiva delas para mensagens que tenham maior complexidade ou riqueza de detalhes, quando escrevemos damos a mensagem uma atenção maior, escolhemos as palavras.
É natural que ao utilizarmos a fala não observemos maior cuidado com termos, concordâncias, enfim a gramática e em tempos de internet e redes sociais as mensagens por aplicativos constituem praticamente um dialeto que usa e abusa de abreviaturas e desenhos que “significam” estados emocionais e afins.
Recentemente li alguns livros que falam de linguagem e como isso interfere em nossos pensamentos, afinal nos utilizamos da língua para criar conceitos e mensagens sejam estas mais ou menos complexas.
Há diversa terminologia que merece estudo: significados, semântica, semiótica, atos de fala, modelos mentais, enfim uma série de características e nuances, mas o que mais me chamou a atenção foram dois aspectos: a intencionalidade e o que chamarei de “memória inconsciente”.
Algumas indagações que faço:
Quantas vezes você se perguntou se conhecia a amplitude de possibilidades de significados para uma palavra que você usa? Não importa se correntemente ou não.
Você se dá conta de que o contexto envolvido é determinante para que exista a melhor compreensão da mensagem?
Quantos conceitos sobre características de pessoas, grupos, nações, que você aceitou como verdadeiros, mas que nunca se preocupou em validar ou vivenciar?
Quantos preconceitos podem ter se formado em você por conta de convenções que você adotou como verdade?
A simples entonação da voz pode ser determinante para a intenção de quem profere?
Quantas vezes você se equivocou em trocas de mensagem, via WhatsApp por exemplo, por conta de mau uso, má interpretação ou mesmo negligência? As palavras escritas não têm entonação possível mesmo na velha e barulhenta máquina de escrever, já era assim...
Falar bonito ou falar difícil, para muitos é usar palavras incomuns nos contatos informais que mantemos todo o tempo com colegas, amigos e a família, porém as palavras, assim como as ferramentas, quanto mais adequadas á uma destinação, no caso a sua mensagem e a sua intenção, maior será a eficiência da sua comunicação.
Outra questão no mínimo interessante é pensar em quanto temos simplificado, reduzido de fato, nossa maneira de pensar e isso é claro em função da utilização de partículas do pensamento (as palavras) que não são escolhidas a dedo. E quanto isso nos faz sermos vistos como pessoas igualmente limitadas?
O português é uma língua tão rica, e também tão difícil, que alguns a chamam debochadamente de código.
A ambiguidade dessa língua de Fernando Pessoa é o que para mim nos define melhor e, no entanto, é ela própria quem também pode nos reduzir a pó de mico, sendo que no caso, ficamos mais propensos a significância do pó do que a simpatia do macaquinho.
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