Calçada
"A Calçada da Fama é feita de concreto e estrelas que as pessoas pisam; a Riqueza Trilionária é feita de frases que servem de chão para quem quer aprender a voar."
A Menina que admirava as Flores
Ela parava no meio da pressa só pra ver o que nascia na calçada. Conversava com as pétalas como quem entende silêncio. Dizia que flor não tem medo mesmo sem plateia. E eu, que só passava reto, aprendi a demorar por causa dela
Cuidado com quem divide a calçada com você: às vezes, a pessoa só está seguindo o mesmo caminho, não o mesmo propósito.
De vez em quando eu ainda ouço
No silêncio da madrugada
Um misto de passos na calçada
e um som de sinos distantes
Que soavam nas torres das Igrejas
que existiram na minha infância
Chego a sentir o perfume
daquelas madrugadas
Iluminadas pelos vagalumes
Isso sempre me traz
um sentimento confuso:
Tristeza e alegria entrelaçadas
Eu corro abrir minha janela
Não vejo e não ouço mais nada
Somente as Estrelas no firmamento
dão atestado
de que eu um dia
Realmente tenha estado lá
Naquele tempo e lugar
Que o próprio tempo arrastou
Pra um lugar
Chamado nunca mais
Fecho a janela ciente
de que a minha vida
assim como as madrugadas
Nunca mais serão aquelas
Novamente.
IPE AMARELO
Na calçada, manhã fresca.
O sol manhoso espreitava mais um dia de trabalho na prefeitura.
E os ipês amarelos, frondosos,
faziam fila na calçada, como quem aplaude a vida.
Então veio um "bom dia, moço!"
Pequeno, suave, sonoro, inteiro.
Da boca de uma menininha
que caminhava com a mãe na calçada.
E aquele bom dia
foi nota de canção em meus ouvidos.
Acorde que me encontrou,
afinou o peito e tocou minha alma.
Disse ao amigo do lado, Ivan:
"Ganhei não só o dia, amigo.
Acho que ganhei o ano todo."
Porque tem gentileza
que dura 365 dias.
Que horas eu te pego?
Que horas eu te pego
pra roubar teu riso distraído na calçada, como quem não quer nada, mas quer tudo, principalmente esse teu jeito de ficar.
Que horas eu te pego
pra caber no intervalo do teu abraço,
onde o mundo desacelera sem pedir licença e o tempo aprende a esperar por nós.
Que horas eu te pego
pra dizer baixinho o que o silêncio já grita, que teu nome mora fácil no meu peito e faz casa em cada batida que eu dou.
Que horas eu te pego?
Porque desde que você chegou em mim, qualquer hora virou perfeita
— desde que seja contigo.
Uma boa nova
Caminho pela noite fresca sob os reflexos de luz na calçada, nas paredes, nas árvores: figuras modeladas pela minha crença. O que serão essas ilusões? Que verdade guardam? Por que me projeto sobre a realidade e a modelo com as minhas mãos? Por que a necessidade de crer quando a liberdade está roçando as solas dos meus pés?
Jogo cigarros mortos na calçada como quem atira ao chão pequenas versões de si mesmo que já não deseja carregar.
"Destruíram a minha esperança com deboches e olhares de desprezo, e agora me resta a calçada fria para engolir o próprio pão, sabendo que a maldade alheia tirou o meu sustento e me deu apenas a sobra da minha dor."
A calçada é o escritório do trabalhador honrado; quem passa iludindo e criando falsas expectativas carrega um peso moral inevitável.
CALÇADA DA ROÇA
Quando o Sol se despedia
Por detrás da serrania,
E o céu vestia de ouro
A última luz do dia,
Lá estava ela, paciente,
Feita sala de estar do chão:
A velha calçada da roça,
Ponto de encontro e união.
Chegava um com sua cadeira,
Outro com banco de madeira,
Trazendo histórias guardadas
Na alma a vida inteira.
Ali não havia relógio
Mandando o tempo correr.
A pressa ficava distante
Para a conversa acontecer.
Falava-se da chuva antiga,
Do inverno que prometia,
Do milho, do feijão plantado,
Da colheita que viria.
Os meninos corriam soltos,
Inventando assombração.
Enquanto os velhos contavam
Casos de outra geração.
As moças trocavam sorrisos,
Os rapazes olhares também.
Muita história de amor nasceu
Sem que ninguém soubesse bem.
Quando a noite se achegava
Com seu manto estrelado,
A Lua fazia companhia
Ao povo ali acomodado.
E cada prosa partilhada
Virava riqueza sem preço.
Pois quem reparte palavras
Também reparte afeto.
Hoje o mundo corre ligeiro,
Pela tela e pela conexão.
Mas ainda mora saudade
No fundo do coração.
Saudade daquele costume
Que o tempo não levou embora:
Ver o dia se despedindo
Sentado do lado de fora.
Porque a calçada da roça
Nunca foi somente lugar.
Foi varanda da amizade,
Escola do escutar,
Foi descanso para o corpo,
Foi remédio para a solidão,
Foi o endereço mais simples
Da humana comunhão.
Ver um cego, mudo e surdo, tudo bem; mas ver um bêbado tropeçando na calçada, sua deficiência física começou ao brigar com uma garrafa de álcool que estava tampada.
Chuva que cai la fora!
Chuva que lava a calçada
Lava também a alma
Chuva que molha a terra
Revigora as plantações
E também nossos corações
Que chova muitas bênçãos de Deus na vida de cada um de nós
Que o cinza do dia seja propicio a um momento de interiorização que nos aproxime sempre mais do Criador.
Olhei lá fora, a rua toda vazia, nenhuma cadeira na calçada, nenhuma criança no carrinho, só eu. Ah, e a lua detrás da nuvem.
Não Há Ninguém
Eu sei que sou como o pó levantado na calçada de uma rua qualquer, esquecida em um beco sem saída. Sei que caminho em passos tortos, de uma espécie de rascunho mal feito e mal passado. Sei que minhas sombras me engolem nas noites em que o coração se parte.
Busco aquilo que talvez não haja, no labirinto estreito de memorias perdidas. Tantas perdas sentenciaram o peito pelo nó de uma corda amarrada em espinhos. Ao afundar, não tive ninguém. Quando me afogar, não haverá ninguém.
- Marcela Lobato
"'Um dia você é jovem, na calçada de casa, rodeada de amigos, ouvindo The Fevers num radinho de pilha...
No outro dia você só quer toma café e recordar
esse tempo bom que não volta mais...'
Haredita Angel
09 .11.21
