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Amiga

Deixa-me ser a tua amiga, amor,
A tua amiga sĂł, jĂĄ que nĂŁo queres
Que pelo teu amor seja a melhor
A mais triste de todas as mulheres.

Que sĂł, de ti, me venha magoa e dor
O que me importa a mim? O que quiseres
É sempre um sonho bom! Seja o que for,
Bendito sejas tu por mo dizeres!

BeijĂĄ-me as mĂŁos, amor, devagarinho...
Como se os dois nascĂȘssemos irmĂŁos,
Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho...

Beija-mas bem!... Que fantasia louca
Guardar assim, fechados, nestas mĂŁos,
Os beijos que sonhei pra minha boca!

VERDADE

A porta da verdade estava aberta,
mas sĂł deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim nĂŁo era possĂ­vel atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
sĂł trazia o perfil de meia verdade.

E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os dois meios perfis nĂŁo coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram a um lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em duas metades,
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
As duas eram totalmente belas.
Mas carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusĂŁo, sua miopia.

Carlos Drummond de Andrade
ANDRADE, C. D. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002.

As possibilidades de felicidade sĂŁo egoĂ­stas, meu amor. Viver a liberdade, amar de verdade, sĂł se for a dois... sĂł a dois.

Eu sĂł sei que amo verdadeiramente depois de ter esbarrado nas imperfeiçÔes do outro, depois de ter conhecido sua pior faceta e mesmo assim continuar reconhecendo-a como parte a que nĂŁo posso renunciar. SĂł o amor me faz conviver com o precĂĄrio da vida, com a indigĂȘncia humana.

O meu amor conhece cada gesto seu
Palavras que o seu olhar sĂł diz pro meu
Se pra vocĂȘ a guerra estĂĄ perdida
Olha que eu mudo os meus sonhos,
Pra ficar na sua vida.

Pelo menos meu passado sĂł me condena. E o seu que te prende?

AQUELE AMOR

Ela pertence à espécie de mulheres que possuem um só amor em toda a sua vida. Ou amam de verdade apenas uma vez. Seria espécie de mulheres ou a maioria assim o é, mesmo sem o saber?
Também hå homens de eterno amor, embora o machismo e as deformaçÔes de sua cultura e comportamento nem sempre os convença de tal. Ou não convença a maioria. Ou serå que o fato de serem colocadores de semente por determinismo biológico os leva a não prestar a devida atenção à sua destinação para o amor?
No meio da conversa ela diz, de repente, que sĂł gostou de verdade de um homem e eis que vai buscar lĂĄ entre papĂ©is amassados, daqueles que esturricam o couro das carteiras, nĂŁo um mas trĂȘs retratos dele, que espalha, qual cartas de baralho, sobre a mesa do restaurante. E fala dele com a mistura de ternura e tristeza que assaltam as mulheres que nĂŁo lograram viver com o seu amor, casar-se com ele, ter seus filhos, viver em função dele e dela, unidos, pois esta Ă© a verdadeira vontade e destinação da mulher: viver ao lado do verdadeiro amor.
Sim, elas vivem de modo proibido se necessĂĄrio, casam-se com outro, tĂȘm filhos, os amam fundamente, mas a verdade de seu ser Ă© a do amor verdadeiro, atĂ© porque mulher vive para amar e por amor, o resto se ajeita. Podem atĂ© deixar seu amor dormitar por anos e parecer serenado. Volta, porĂ©m a qualquer apelo ou menção do nome dele, encontro fortuito na rua com um conhecido dos tempos do namoro ou da relação.
Como sĂŁo comoventes e lindas na sua integralidade bĂ­blica as mulheres quando expressam para os demais ou para si mesmas, o amor de suas vidas ou quando consultam, escondido, os retratos guardados, recortes, flores secas, a memĂłria Ășmida das restantes lembranças em momentos de silĂȘncio e solidĂŁo!
Abençoados sejam, porque sĂŁo, os homens e as mulheres que na passagem por esta vida receberam um dia de alguĂ©m, ou deram, um amor Ășnico, original e definitivo. Abençoados sejam e para todo o sempre. Como o amor que existe apesar de todas as ternas e dolorosas circunstĂąncias que nĂŁo impedem a sua verdade mas em muitos casos esmagam a sua plena realização.

Quem eu sou, vocĂȘ sĂł vai perceber quando olhar nos meus olhos, ou melhor, alĂ©m deles.

Desconhecido

Nota: A citação é atribuída a Clarice Lispector, mas não hå fontes que confirmem essa autoria.

Se vocĂȘ quiser alguĂ©m para ser sĂł seu, Ă© sĂł nĂŁo esquecer que eu estarei aqui.

Se vocĂȘ quer saber se fez bem a uma pessoa Ă© sĂł vocĂȘ descobrir se, quando saiu da vida dela, vocĂȘ a deixou melhor do que quando a encontrou.
Quem ama de verdade torna a outra pessoa melhor do que ela Ă©, empresta os olhos para a pessoa se ver melhor, se ver mais corajosa, mais bonita.

Fico às vezes reduzida ao essencial, quer dizer, só meu coração bate.

Clarice Lispector
CorrespondĂȘncias. Rio de Janeiro: Rocco, 2002.

Nota: Trecho de carta escrita a Fernando Sabino, em 19 de junho de 1946.

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Conhecimento auxilia por fora, mas sĂł o amor socorre por dentro.

Sou antipĂĄtico com orgulho - sĂł sorrio para quem provoca meu sorriso. NĂŁo gostou? Problema seu. Isso se chama autenticidade, meu caro.

Ailin Aleixo

Nota: Trecho de um texto de Ailin Aleixo, cuja autoria tem vindo a ser atribuĂ­da erroneamente a Arnaldo Jabor, e que foi desmentida pelo prĂłprio no artigo "Blogs, twitter, Orkut e outros buracos", publicado no site "O Tempo", em 03/11/2009.

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Tentando um novo amor

Para curar uma dor de amor, digam o que quiserem, só conheço um remédio: um amor novinho em folha. Enquanto nosso coração não encontrar outro pretendente, ficaremos cultivando o velho amor, alimentando-o diariamente, sofrendo por ele e, no fundo, bem no fundinho, felizes por ter para quem dedicar nossos ais e nossa insÎnia. A gente só enterra mesmo o defunto quando outra pessoa surge para ocupar o posto.

Se isso lhe parece uma teoria simplista, toque aqui. É simplista sim. Isso de enterrar o defunto do dia pra noite sĂł funciona quando o defunto era apenas uma paixonite, um entusiasmo, fogo de palha. PorĂ©m, se era algo realmente profundo, um sentimento maduro, aĂ­ o efeito do novo amor pode revelar-se um belo tiro pela culatra. Ele acabarĂĄ servindo apenas para dar a vocĂȘ a total certeza de que aquele amor anterior era realmente um bem durĂĄvel. E a dor voltarĂĄ redobrada.

Um beijo que deveria inaugurar uma nova fase em sua vida pode trazer à tona lembranças fortes do passado, e nem é preciso comparar os beijos, apenas as sensaçÔes provocadas. Quem jå vivenciou isso sabe o constrangimento que é beijar alguém e morrer de saudades do antecessor.

Um novo amor pode transformar o que era opaco em transparĂȘncia: vocĂȘ nĂŁo sabia exatamente o que sentia pelo ex, se era amor ou nĂŁo, entĂŁo surge outra pessoa e vocĂȘ descobre que sim, era amor, caso contrĂĄrio nĂŁo sentiria esse abandono, essa perturbação, essa forte impressĂŁo de que estĂĄ fazendo uma tentativa inĂștil, de que nĂŁo conseguirĂĄ ir adiante.

Mas o que fazer? Encarar uma vida monĂĄstica, celibatĂĄria? Nada disso. Viva as tentativas inĂșteis! Uma, duas, trĂȘs, atĂ© que alguma delas consiga superar de vez a inquietação do passado, que venha realmente inaugurar uma nova fase em sua agenda amorosa, que deixe vocĂȘ tranqĂŒilo em relação ao que viveu e ao que deve viver daqui pra frente.

No entanto, quanto mais escrevo, mais me dou conta de que nĂŁo hĂĄ fĂłrmula que dĂȘ garantia para nossas atitudes, de que nĂŁo hĂĄ pessoa neste mundo que nĂŁo possa nos surpreender, de que tudo o que vivemos sĂŁo tentativas, e que inĂștil, inĂștil mesmo, nenhuma Ă©.

Martha Medeiros
CrĂŽnica "Tentando um novo amor", 2004.

Nota: Texto originalmente publicado na coluna de Martha Medeiros, no website Almas GĂȘmeas, a 8 de novembro de 2004.

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Saber muito nĂŁo significa ser inteligente; a inteligĂȘncia nĂŁo Ă© sĂł informação, mas tambĂ©m julgamento, a maneira pela qual uma informação Ă© coordenada e utilizada.

Carl Sagan
Cosmos (1980).

LegiĂŁo Urbana - Giz

E mesmo sem te ver
Acho até que estou indo bem
Só apareço, por assim dizer
Quando convém aparecer
Ou quando quero
Quando quero

Desenho toda a calçada
Acaba o giz, tem tijolo de construção
Eu rabisco o sol que a chuva apagou
Quero que saibas que me lembro
Queria até que pudesses me ver
És parte ainda do que me faz forte
Para ser honesto
SĂł um pouquinho infeliz

Mas tudo bem
Tudo bem, tudo bem...
LĂĄ vem, lĂĄ vem, lĂĄ vem
De novo
Acho que estou gostando de alguém
E Ă© de ti que nĂŁo me esquecerei
EstĂĄ tudo bem, tudo bem...
uh... uh...

Porque eu só preciso de pés livres, de mãos dadas, e de olhos bem abertos.

Mas vocĂȘ com esse seu jeito sĂł seu, de nĂŁo me permitir saber o que esperar de vocĂȘ, me faz te odiar tanto e querer tanto a sua atenção.

Eu só confio nas pessoas loucas, aquelas que são loucas pra viver, loucas para falar, loucas para serem salvas, desejosas de tudo ao mesmo tempo, que nunca bocejam ou dizem uma coisa corriqueira,mas queimam, queimam, queimam, como fabulosas velas amarelas romanas explodindo como aranhas através das estrelas.

O que serĂĄ ser sĂł
Quando outro dia amanhecer?
Serå recomeçar?
SerĂĄ ser livre sem querer?

Chico Buarque

Nota: Trecho da mĂșsica Abandono.