Boas Vindas para um Amiga
Acontece meu bem que houve lágrimas , um balde delas, mas houve risadas também . E após dez meses que você me deixou eu percebi que estava bem , estava melhor do que quando estava com você , mais viva, mais corajosa , mais mulher. Eu tinha sofrido um bocado mas depois de um tempo parou de incomodar tanto e depois de um tempo você tinha perdido tanta coisa : os amigos que fiz , os livros que li , as festas que fui , as experiências que adquiri. E após expandir meu mundo para tantas outras coisas mais importantes você foi ficando desimportante demais para caber nele .
Te amei em versos brandos, em versos cálidos sob um sol de verão. Te amei em versos tristes e lamuriosos sob tempestades de inverno. Te amei sob flores incessantes da primavera e sob um tapete de folhas amareladas de um outono doce. Te amei em todas as estações de jeitos inteiramente diferentes.E agora me perdoe se estou cansada, me perdoe se lutei sozinha, me perdoe se estou sendo amada, e por alguém que não é você.
Eu dizia "oi" como quem diz "eu te amo", você não conseguiu perceber isso nem uma vez? Não conseguiu perceber meu olhar devastadoramente apaixonado ou o amor dilatado em cada um de meus poros? Então por que não lutou por mim? Por nós? Parecia muito difícil ao meu ver, mas hoje eu percebo que era tão fácil! Era só você lutar por mim, era só você dizer que me amava e eu era sua.
Então não se espante se na próxima vez que me vir eu tiver um sorriso largo demais no rosto , um perfume diferente ou uma aura radiante . Não ache estranho minhas risadas espontâneas demais ou um jeito de ser novo que você não conhecia e que até mesmo eu desconhecia. Sobretudo não estranhe eu passar por você e te tratar não com muita atenção , não com frieza, mas com a mais pura normalidade e desatenção como se você fosse uma pessoa comum , a mais comum das criaturas. Tudo isso é sinal de que estou sendo amada, e por alguém que não é você.
E se me perguntar o porquê de dar um tapa nele eu nem sei dizer. Foi resultado de ele ter me deixado, foi resultado de ter vindo atrás e pedido perdão, foi o fruto de meu orgulho venenoso que se misturou a uma saudade traiçoeira. Foi o amor gritando para ser ouvido nas trevas que eram o meu coração.
Tive um déjà vu,a impressão, ou será que a esperança?, de que tudo não passou de um pesadelo, que não tinha realmente acontecido,que ele ainda seria meu, não dela, que quando eu o visse ele ainda me faria rir, me tomaria em seus braços e diria o quanto eu era sua. É o que teria acontecido em um livro, seria um pesadelo, um engano, um terrível engano, mas isso aqui é vida real. Tentei conter as lágrimas , mas a dor era tanta que transparecia,irrompia, explodia por mim. Não cabia em mim. Eu era pequena demais para tanta dor.
Ele disse que precisava ir, que tinha um jogo de futebol ou qualquer coisa do tipo e deu um beijo no rosto das garotas presentes. No meu caso, não. Ele pegou minha mão e a beijou. Não sei porque ele fez isso; se foi porque me desprezava para dar um beijo no rosto ou se foi porque eu estava muito longe. Eu nunca vou saber o porquê. O fato é que ele beijou minha mão de forma cortês e saiu. Ele me beijou a mão, se fosse o rosto ou a boca eu não teria ficado tão vulnerável, tão frágil, tão fácil, tão dele...Por um segundo eu fui dele e ele nem percebeu.
E querido, talvez a gente nem dure, talvez você cometa o mesmo erro, talvez dure uma semana, um mês, ou talvez dure mais...Talvez seja uma tragédia, mas talvez seja a melhor coisa que poderia acontecer. Talvez é um advérbio de dúvida cruel, mas a verdade é que eu nunca vou saber como poderia ter sido se não tentar.
Eu danço na ponta dos pés, eu faço caretas para o espelho, eu passo um batom e saio e eu nem ao menos penso em você e isso é tão estranho...Eu reinvento meu próprio mundo, e ele é colorido, cheio de verbos, sentimentos, pessoas, risadas, momentos, e você não está em nenhuma parte desse meu mundo, e isso é diferente, mas é tão bom, porque há tanta paz! E de pouco em pouco, de dia em dia ,de hora em hora, essas coisas enterram você e você desaparece como um grão de areia levado pelo vento.
Hoje foi um dia engraçado, pois eu me peguei tentando lembrar das músicas que relacionei a ele e ri alto por lembrar de apenas duas entre dezenas. Outrora aquelas músicas pareciam definir minha vida, como se as palavras desenhassem a trajetória da minha história com ele, como se ao serem cantadas espalhassem o meu amor pelos ares. E ele era a minha vida, as músicas eram pedaços fragmentados de minha própria alma e agora eram só palavras ao vento. São engraçadas essas voltas que a vida dá.
É quarta- feira e estou elétrica, elétrica como se tivesse colocado o dedo na tomada e levado um choque, como se tivesse tomado 10 xícaras de café ou tivesse injetado adrenalina diretamente na veia. Mas eu só tomei uma xícara de café, e isso não é nem o suficiente para me deixar acordada pela manhã, então acho que esse estado de espírito se deve a mensagem que eu recebi daquele garoto. Isso fez eu ficar ligada no 220 e sair correndo pela casa e dar risada à toa, e isso é muito estranho. Eu fico tentando achar explicação para essa felicidade, dizendo para mim mesma que amanhã é feriado, que eu fui bem nas provas finais e que logo chega a pizza que eu encomendei, mas tudo isso não me convence, como se ele fosse o motivo do meu sorriso bobo, da minha distração constante e da minha agitação sem sentido, como se isso fosse resultado da paixão...
Meu professor dizia que "a vida não é um croissant", e eu sei que não é mesmo, sendo sempre doce e saborosa, com os problemas se dissolvendo como areia, nada disso . A vida é mais semelhante a um sorvete, sendo maravilhosa, épica, mas passando rápido demais e derretendo nos momentos mais importantes, em que o coração é leve, as risadas altas e os compromissos quase não existem, como nas férias. Mas por ser efêmera e fugidia é que é bela e peculiar, e deve ser aproveitada, antes que passe num piscar de olhos.
Hoje foi um dia bom. Mas talvez antes de falar do dia de hoje eu deva falar sobre o dia de ontem, ou das luzes do entardecer que cruzaram o céu e que ninguém viu. Quando elas surgiram, eu quis pegar um megafone e anunciar aquela perfeição da natureza a todos para que eles vissem e sentissem a beleza com o entusiasmo com que aplaudem a um jogo de futebol. Mas essa gente é pequena e vazia, não merecendo meu esforço e atenção, carecendo de um pouco de poesia, um pouco de doçura, um pouco de bondade.
Eu sou um mar infinito de paranoia e não sei lidar com relacionamentos, acho que por isso estou solteira, eu não confio em ninguém e sempre acho que estão mentindo para mim ou me enganando porque na minha vida inteira só mentiram para mim, me enganaram ou me usaram. A verdade é que ninguém nunca me tratou como eu merecia ser tratada, o que faz como que eu me sinta como um cachorro de rua rejeitado que ninguém quer...
Olhei para a fileira de poltronas ao lado e o avistei sentado em uma delas, rindo com um grupo de amigos, mas antes que ele me visse eu voltei minha atenção para meu conteúdo de Direito do Consumidor. Em algum momento, no entanto, ele me viu, pois quando peguei o celular, minutos depois brilhava na tela um "oi, sumida" e eu ri secretamente tendo o cuidado para não rir alto, para não sorrir de orelha a orelha, jogar a cabeça para trás toda boba, toda mola, toda dele. Tive o cuidado de guardar aquela emoção para mim mesma antes que ele visse e soubesse como me tem nas mãos nesses momentos e como uma simples mensagem dele adoçou minha noite, a minha semana e quem sabe meu mês?
Eram cinco horas da manhã. Era sábado. Ouviam funk a um som excessivamente alto e irritante de modo que não havia como não sentir vergonha e constrangimento, mas isso não importava. Nada importava pois eu estava nos braços dele, ele me chamava de "anjo", acariciava meus cabelos e beijava minha testa, fazendo eu me aconchegar mais e mais nele. Para que cobertor se eu o tinha ali comigo? Para que paranoia se ele estava ali, me abraçando ao amanhecer? Para que drama se era carinho, se podia ser paixão?
O sol nascia e os galos cantavam ao longe um "cocoricó" digno de aplausos, como uma sinfonia em uma orquestra às seis da manhã de um sábado. O dia nascia, eu tinha passado a noite em claro, no entanto, nunca estive tão acordada em toda minha vida e isso me chegava à consciência de um modo doce e misterioso. Sentei no sofá e fiquei olhando as flores do Ipê caírem e de repente percebi como o perfume dele ainda estava impregnado em minha pele e ele era como o paraíso, tanto que se me concentrasse até ouvia "The Cure" cantando: " You, soft and only, you lost and lonely, you, just like heaven"...
Houve um momento em que ele subiu em uma árvore e ficou olhando para mim. Seus olhos castanhos se fixaram em mim como se quisessem me puxar para ele, como se ele fosse uma espécie de imã e eu de repente sentia que o frio em minha barriga aumentava a ponto de eu sufocar e não lembrar mais de como se respirava. Ele olhou bem para mim, só para mim, diário, eu tenho certeza disso porque virei para trás nessa hora para verificar se ele não estava olhando para outra pessoa, mas não havia ninguém ali. Ele vestia uma blusa rosa, eu acho, não lembro ao certo, talvez fosse branca, ou até azul, mas para mim pareceu cor-de-rosa, mas quem sabe nem fosse, e era somente eu que via tudo cor-de-rosa naquele momento de tontura.
Então há poucos minutos eu larguei meu livro e me sentindo um tanto quanto sozinha, vim escrever em você, diário, pois toda vez que me sinto sozinha você consegue preencher essa solidão, ou eu mesma preencho minha solidão com palavras e algo de vazio em mim de repente torna-se cheio e não me sinto mais tão triste. Eu contive minha vontade de escrever ao Rick, também, pois toda vez que sinto a saudade apertar eu escrevo a ele, e isso faz com que eu me sinta melhor, mesmo que ele nunca vá ler essas cartas. No entanto, escrever a ele é amá-lo cada vez mais, é perpetuar esse amor em suas páginas, é me machucar profundamente e eu não quero mais isso. Basta! Tem que bastar de uma vez por todas! Agatha Christie menciona em “A Morte no Nilo” que: “ O que importa é o futuro, não o passado”. Eu sei que o passado faz parte de nós, que nos tornou quem somos hoje, mas o fato de ele ser importante não significa que devemos viver acorrentados a ele, não é mesmo? Eu estou acorrentada ao Rick por correntes invisíveis que eu mesma criei ao longo dos anos e isso não está certo, não é saudável para mim. (Anseios de uma jovem escritora)
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