Boa noite

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houve um tempo que eu habitava a noite, hoje a noite habita em mim...

Inserida por tadeumemoria

FAGULHAS
Esses grãos brilhantes,
Diamantes vãos
A enfeitar a noite a ilusão...
A adornar a solidão
A salpicar o teu poema com fagulhas
Você que delira a contemplar estrelas
Tê-las é delírio,
Lírio é flor do campo
Eu canto as dores do mundo
As alegrias não...

Inserida por tadeumemoria

Mal o meu olhar perdera a pureza
Tereza já se despia
a noite mal anoitecera
ainda ingênua,
uma lua tímida no céu de chumbo
parecia o fim do mundo
o que cairia,
a chuva alagaria a rua,
a tribo dos vagabundos
de todos os mendigos
de pontes e de marquises
o que seria da chusma,
minha madre Teresa de Calcutá,
calcula a minha agonia,
Tereza presa nos meus braços
o paço guardado por vigias
o chumbo alagando o Ganges
a rua parecia o rio...

Inserida por tadeumemoria

se minhas tristezas gritassem na noite ninguém dormiria...

Inserida por tadeumemoria

sonhei contigo a noite toda
e acordei faminto,
as vezes penso que sou adolescente,
que sou um menino...
e toco e toco e canto e grito o teu nome
princesa toma um banho
lava o rosto, esquece o mal jeito
sou um sujeito desprezível
mas te desejo, doce, accessível
mas não uma cadela
me diga não sempre que for possível,
sempre que for possível não cuspa não
o amor é meio sujo
mas não é intragável nem perecível
sonhei contigo a noite toda,
foi foda acordei sozinho...

Inserida por tadeumemoria

LUÍZA LUIZ E LUZIA
Ela sabia que era homem quando vinha a noite
Ela sabia que era homem quando vinha o dia
Ela só não queria ter essa certeza quando via Luzia
Sonhava ser mulher para estar em seu braços,
Luzia também pensava que era homem
Quando vinha a manhã
Quando vinha o cheiro de hortelã
Que a horta expandia
Luzia e Luíza se conheceria
Ambas sabiam que eram homem
E o que consome a alma consome o que é proibido
Ambas se desejavam mas quem seria o marido
Luzia cuidaria ainda muito tempo da horta
Luiza ainda assaria muitas tortas
Mas até que o primo Luiz de uma das duas entrou na história
E a marra de macho das duas desabaria,
Mas, más línguas juraria que a mais fêmea da história era Luiz
E do trio era ele o mais feliz...

Inserida por tadeumemoria

Se eu conduzisse a noite à uma esquina
e entre brilhos e ébrios as estrelas se derramassem
se eu me perdesse no quarto minguante d’alguma cratera
desenterrando as quimeras de um outro passado
ausências, somente ausências são pertinentes às reminiscências,
os ébrios serão poetas e boêmios nas esquinas,
as noites serão lembranças saudosas ou não,
lacônicas ou perenes cheias de brilhos,
esquecidas pelos ébrios declamada pelos poetas
as mulheres serão amadas por seus maridos,
possuídas pelos amantes,
machucadas pelos vagabundos...
e onde estarão agora as mulheres?
Seus corações estarão com seus maridos,
seus corpos com seus amantes
e suas almas alimentando o espírito materno
tentando ser mãe de vagabundos

Inserida por tadeumemoria

Passa a manhã
passa a tarde
passa a noite
passa a morena
passam lembranças
passam saudades
passa a banda...
jumentos cabras cavalos num pasto...
cafezal, laranjal e canavial
passa o lago,
o gado,
a pipa a voar
passa a ponte,
passa o rio,
passa o pai e o filho
o campo, bola na rede
e comemoração
casa de taipa,
vereda, carroça, mula teimosa
casa de varanda,
Vila, quitanda
Igrejinha azul e amarela
mulher batendo roupa na beira da lagoa
crianças brincando à toa,
varal embandeirado delimitando a pobreza...
favela subindo o morro,
antenas e ”gatos” acessos indevidos,
passa o trem,
passamos nós
porque o comboio da vida segue seu destino...

Inserida por tadeumemoria

Esses grãos brilhantes,
diamantes vãos
a enfeitar a noite
a ilusão...
a adornar a solidão
a salpicar o teu poema
com fagulhas
você que delira a contemplar estrelas
vagalumes de outra dimensão...

Inserida por tadeumemoria

MINTO
A noite chega trazendo os meus medos
Confusos, diluídos pela idade de profusos segredos,
um galopar voraz a consumir-me olhares,
paisagens tenho, olhares sutis e rápidos nas tardes mornas,
tenho mentiras cambiantes coordenando palavras,
dizem que sei sonhar em forma de sonetos,
sei que minto há muito morreu o deus do olimpo...
esse pégaso pisoteia as pétalas perfumadas
, o passado surge desfolhado e desflorido,
outono das paixões onde passeiam
visagens enrugadas, embrutecidas...
minto é o que me resta
é a minha meta
a vida é linda e infinda
minto porque sou poeta

Inserida por tadeumemoria

OLHOS DE VALLADOLID
Eram de uma noite tão negra
Como se o inverno chorasse
Todas as suas chuvas em suas madrugadas
E eram tão tristes
Como se abrigassem todos os mendigos
E eram melancólicos
Como se chorassem todas as saudades
E eram pobres como as árvores do outono,
Solitários como sua esperança,
Assustados como uma gazela
E eram de uma solidão divina
Não somente de ser só,
Mas de não ser compreendidos

Inserida por tadeumemoria

Acho que a noite é infinita
como o meu amor
e quando penso
que a noite é tão bonita
o dia já chegou
eu acho que te amo
eu acho que te amo,
não sei por quanto tempo
mas já faz tanto tempo
que eu acho
acho, faz mais de trinta anos...

Inserida por tadeumemoria

Mais que ser só e ser sozinho
Ser solitário e ter a solidão
Somente a solidão
E a noite longa
A alongar tudo que é não ter nada
Mais do que isso
É não ter nem um motivo
Pra ter motivo
Pra mudar tal situação
Ah eu nem tenho um olhar
Que olhasse,
Um olhar que falasse
Que ruidasse um ruído
Que ruísse a parede
E descortinasse um horizonte
Por mais horizontal que fosse a solidão...
Se eu tivesse a solidão
Se ao menos eu tivesse a solidão
A solidão é que me tem...

Inserida por tadeumemoria

PANORAMA
A minha janela acolhe os espectros da noite
E eles cantam suas angustias
E eles dançam seus tédios
E eles se perdem em seus passos trôpegos,
Valsam suas ilusões perdidas,
Choram suas saudades
E afogam-se em arrependimentos;
Mendigam êxtases e se esvaem
Na fumaça que embaçam
A razão e a clarevidência;
Recusam-se a morrer,
Recusam-se a viver
E se entulham na madrugada
Como uma peça dantesca.
A minha janela mostra essa hemorragia
Por onde a vida se esvai,
Um panorama mórbido
Onde os loucos mergulham
E trancam suas vidas
Para todas as passagens e vias de luz...

Inserida por tadeumemoria

REVELAÇÃO
Não demora ...
A noite chora uma neblina,
A brisa fria espalha uma melancolia,
Ecoa a ladainha ...
Os sinos já dobraram uma chamada;
A igreja relampeja a fé,
O amor abraça e beija,
E a esperança pra essa dor é a esperança...
Não demora,
Gótica, a catedral ordena...
Badalam os sinos,
Os meninos abalam,
Nossos destinos baladam,
A gente dança e a dança demora,
Não demora o tempo urge,
Acorda a urbe,
O tempo voa,
A solidão povoa
Demônios, fantasmas e monstros,
A certeza dessa incerteza apocalíptica não demora...

Inserida por tadeumemoria

AO ALÉM

Meia noite e meia, de repente um arrepio

Não é febre, não é frio

Sei perfeitamente o que conduz a lua cheia

Essa abstração aos meus medos, alheia

É a intimidade entre mim e o além

Quem sabe os meus segredos

Sabe que um dia eu já morri também

Ah, eu amo vocês!

Vocês que já foram, mas vigiam os meus passos

E os passos que ouço, a cortina que balança...

Os sussurros no ouvido...

São todos os que me amam e se importam comigo

Inserida por tadeumemoria

Depois da meia noite eu não sei quem

Inserida por tadeumemoria

INSÔNIA
Deixe amor que a noite passe silenciosa

E apenas a noite, do que contém a noite,

Do que sustém a noite,

Do que mantém a noite, do que convém a noite

E se esse silencio for bastante pra nós

For constante pra nós, importante pra nós

O silencio da noite nos dará um sinal

Assim se a noite silenciosa se perder

Silenciosamente nos subterfúgios

Das sombras das noites que fomos,

Deixe amor que a noite passe silenciosa

E se perca silenciosa na noite levando consigo

A ansiedade do que não consigo

Além de sussurros e suspiros

Sob a luz dos astros e o enigmático silencio da noite

Que a noite passe silenciosa

Diante da noite que a noite nos propõe...

Inserida por tadeumemoria

A noite é a face obscura da ansiedade

Inserida por tadeumemoria

CORPOS SANTOS
Acho que ainda não é meia noite,
Quem dividiu a noite eu não sei,
Mas está tudo bem silencioso,
Está meio medroso, o carro preto veio...
Todavia eu procuro umas palavras,
Eu procuro umas palavras,
Umas palavras eu procuro.
Além do muro onde me escondo
Um mocho grasna seu agouro fúnebre,
Esse silêncio tenso tem o timbre do mais triste escuro

O carro preto... o carro preto às vezes é prata,
Às vezes é vermelho, as vezes é branco
Para cobrar vem como um raio
Vem como um relâmpago

Acho que ainda não é meia noite e o pipocar da vida
Abrindo feridas em tantos corpos santos;
Jazem no asfalto anjos sem mantos sob a luz da lua
Seus corpos tatuam pra afastar o medo
Eu procuro palavras... eu procuro palavras
Pra descrever a morte

Acho que ainda não é meia noite...
Quem dividiu a noite pra mim ainda é segredo
Nesse contexto. me parece, morrer é muita sorte
E viver não passa que morrer de medo

Inserida por tadeumemoria