Boa noite
Se a noite é breve,
o sentimento não é.
Final de semana acaba,
mas o amor insiste em ficar.
E enquanto o mundo dorme,
meu coração acorda
só pra te amar um pouco mais.
Se o tempo for vento, eu sou raiz no chão,
se a noite vier, eu acendo o coração.
Porque amar não é só sentir… é construir,
é permanecer quando tudo diz pra fugir.
E no silêncio do mundo, eu faço um juramento:
ser amor constante, em qualquer momento.
Toda noite eu acordo
Te procurando
Não te encontrei
Vou clamando
Eu sei que vou Te encontrar
Eu sei que vou Te encontrar.
Meu coração diz
Vou buscar até me cansar
Vou Te chamar até ver Tua face
Não importa se eu morrer
Só quero Te ver
Como Moisés na fenda da Rocha
Como João diante da Tua glória
Se eu cair como morto
Se eu cair como morto
Sei que Tu vai me ressuscitar!
“Do Outro Lado (Eu Te Reconheci)”
A noite conhece o meu nome
Sabe quantas vezes tentei
Redes vazias, mãos cansadas
E um silêncio que eu mesmo criei
O mar devolve o meu fracasso
E eu perdido em mim mesmo
Já nem sei chamar pelo amor
Até que uma voz me atravessou:
“Lança de novo”
— e algo em mim cedeu
Se antes eu precisei provar
Hoje eu só preciso ouvir
Nu de orgulho, medo e razão
Se for Tua voz a me chamar
Eu me lanço sem nem pensar
Te vi no mar e tive medo
Achei que era sombra no olhar
Mas era a Tua presença
“Sou Eu, não temas”
no caos eTua mão
me puxou de volta ao Teu sim
Voltei pro mar tentando esquecer
Mas o vazio ainda era Você
“Do outro lado…”
— eu reconheci
Não esperei, só me lancei
Porque no fim, o milagre foi
Te reconhecer
Lembra-te de mim
Lembra-te de mim
quando o silêncio te abraçar à noite,
quando o mundo desacelerar e só restar o som do teu coração.
Que em meio aos teus
pensamentos mais profundos,
eu seja aquela lembrança que
te aquece sem pedir permissão.
Lembra-te de mim
nos detalhes simples do dia,
no vento leve que toca o teu rosto distraído, no céu que muda de cor
ao cair da tarde, como se cada tom carregasse um pedaço do que já foi vivido.
Lembra-te de mim
não como quem prende,
mas como quem floresce
dentro do peito sem dor,
porque o amor que em mim
ficou guardado por ti
não pede retorno — só deseja continuar sendo amor.
E se um dia o tempo tentar apagar meus rastros, se a vida te levar por caminhos que eu não vou trilhar,
lembra-te de mim…
nem que seja por um instante,
como alguém que te amou o suficiente pra nunca deixar de amar.
Só por uma noite
Só por uma noite
eu queria parar o tempo,
fazer o mundo esquecer
que a manhã existe,
e viver no silêncio do teu abraço
como quem encontra o lugar onde sempre pertenceu.
Só por uma noite
eu queria teus olhos nos meus,
sem pressa, sem despedidas,
sem medo do depois,
como se o universo tivesse decidido
escrever nossa história entre as estrelas.
Só por uma noite
eu queria ouvir tua voz baixinha,
contando sonhos,
segredos e coisas sem sentido,
porque até o som mais simples
vindo de você
parece música tocando dentro do peito.
Só por uma noite
eu queria que fosse eterno,
porque algumas pessoas chegam
tão de repente
que uma única noite ao lado delas
vale mais que mil dias longe. ✨
Vejo o céu quando
teus olhos me encontram,
negro e brilhante como ônix à noite,
profundo demais pra medir,
seguro demais pra eu cair.
Teu silêncio fala comigo,
teu toque acalma o caos que trago,
e mesmo na escuridão mais densa
teu amor reluz
— raro, intacto.
És pedra e constelação,
força que guarda,
Luz que conduz.
Se o mundo apaga
as estrelas, em você…
eu ainda vejo o céu. ✨
" Não lamente o que a noite levou. Algumas perdas são apenas espaços que a vida abre para novos significados. "
ABISMO DE CHUVA E SILÊNCIO.
A noite escorria pelas vidraças como um lamento antigo. A chuva, paciente e infinita, desenhava caminhos líquidos sobre o mundo adormecido, enquanto o vento carregava murmúrios que pareciam nascer das regiões mais esquecidas da alma.
Havia olhos perdidos diante da tempestade. Olhos que já contemplaram auroras e, ainda assim, encontravam-se aprisionados em crepúsculos intermináveis. Pupilas saturadas de desalento, refletindo relâmpagos distantes como se cada clarão revelasse uma ferida escondida sob camadas de resignação.
A solidão sentava-se ao lado da tristeza como uma companheira inseparável. Não havia vozes. Não havia braços. Apenas o eco de pensamentos vagando por corredores escuros da consciência. Dentro do peito, um precipício. E, no fundo desse precipício, outro abismo ainda mais profundo, onde desciam as esperanças abandonadas, os sonhos desfeitos e as palavras jamais pronunciadas.
Existem momentos em que o ser humano passa a acreditar naquilo que lhe imputam. Chamam-no de fracasso, e ele se vê derrotado. Nomeiam-no insignificante, e ele se sente invisível. Tratam-no como sombra, e ele aprende a caminhar entre as sombras. Aos poucos, a identidade torna-se uma veste costurada pelas opiniões alheias, até que resta apenas a sensação de ser nada.
Nada diante dos julgamentos.
Nada perante as expectativas.
Nada sob o peso das comparações.
E então surge a impressão de que o vazio venceu.
Mas o vazio mente.
Porque mesmo nas profundezas onde a luz parece impossível, permanece uma centelha indestrutível. Ela não grita. Não exige atenção. Não se impõe. Apenas resiste.
A chuva continua caindo.
Os olhos continuam chorando.
A noite continua extensa.
Contudo, nenhuma tempestade possui autoridade sobre a eternidade do amanhecer.
O abismo pode parecer infinito para quem está à sua margem, porém nenhum desfiladeiro é capaz de devorar aquilo que nasceu para ascender. A dor ensina permanência, mas a essência ensina transcendência.
Talvez hoje você caminhe entre ruínas.
Talvez carregue ausências.
Talvez sinta o coração cercado por névoas.
Ainda assim, existe algo em você que não foi derrotado.
Algo que sobreviveu a todas as quedas.
Algo que atravessou todas as noites.
Algo que permaneceu vivo quando tudo parecia perdido.
E é justamente esse fragmento luminoso que conduzirá seus passos para fora da escuridão.
Quando a chuva cessar, você perceberá que nunca foi o nada que disseram.
Era apenas uma estrela esquecida sob nuvens densas, aguardando o instante de voltar a brilhar.
Mensagem final
Nem toda tristeza anuncia um fim; muitas vezes ela prepara uma transformação. Os abismos que hoje parecem definitivos podem tornar-se as profundezas de onde nascerá sua maior força. Continue. Há auroras que somente os que atravessam a noite conseguem contemplar.
ROMANCE: CLADISSA.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro
CAPÍTULO X
As Pedras da Prisão.
A noite descera sobre a Úmbria como um pesado sudário.
Nas profundezas do antigo cárcere episcopal, Irmã Cladissa permanecia sozinha.
A cela era estreita. O odor de umidade impregnava as paredes de pedra, enquanto a escassa luz de uma tocha distante projetava sombras vacilantes através das grades enferrujadas. O inverno aproximava-se das colinas italianas, e o frio infiltrava-se pelas fissuras da construção secular, envolvendo o ambiente numa melancolia quase sepulcral.
Sentada sobre um banco rudimentar, Cladissa mantinha as mãos unidas sobre o colo.
Seu hábito, outrora impecável, agora trazia as marcas do confinamento. Ainda assim, sua postura permanecia serena. Havia em seu semblante uma dignidade silenciosa que nem os carcereiros conseguiam compreender.
Desde sua prisão, muitos dias haviam transcorrido.
As acusações permaneciam envoltas em ambiguidades, tecidas entre suspeitas, intrigas e interesses eclesiásticos que ultrapassavam sua compreensão imediata. O mosteiro do qual viera, situado entre as suaves elevações da Úmbria, encontrava-se distante. Talvez demasiado distante.
Pela pequena abertura gradeada, Cladissa contemplava uma estreita faixa do céu noturno.
As estrelas.
Sempre as estrelas.
Quando ainda era noviça, uma anciã do convento costumava dizer que os céus eram a única liberdade impossível de ser confiscada pelos homens.
Naquela noite, tais palavras regressaram-lhe à memória.
Subitamente, passos ecoaram pelo corredor.
Firmes. Lentos.
A religiosa ergueu os olhos.
Uma figura encapuzada aproximou-se acompanhada por um guarda. O homem carregava consigo uma lanterna e, após breve diálogo com o carcereiro, este afastou-se sem pronunciar palavra.
Por alguns instantes, apenas o silêncio permaneceu entre ambos.
Então, a figura retirou lentamente o capuz.
Cladissa reconheceu imediatamente o rosto.
Era Madre Agnese.
Sua antiga superiora.
Os olhos da anciã estavam marcados pela exaustão.
"Filha", murmurou ela através das grades, "o mundo além destes muros encontra-se em convulsão. Muitos desejam teu silêncio. Outros temem aquilo que sabes."
Cladissa permaneceu imóvel.
"Eu nada possuo além da verdade, madre."
A velha religiosa esboçou um sorriso triste.
"E, justamente por isso, tornaste-te perigosa."
Um longo silêncio instalou-se.
Ao longe, os sinos de uma igreja anunciaram as completas.
Cladissa fechou os olhos.
Na solidão da prisão, compreendeu que sua batalha apenas começava. Não se tratava unicamente de sobreviver ao cárcere, mas de preservar intacta a própria consciência diante das forças que procuravam dobrá-la.
As pedras podiam aprisionar o corpo.
Contudo, nenhuma muralha construída pelos homens seria suficientemente espessa para encarcerar uma alma fiel às suas convicções.
E naquela noite, enquanto o vento percorria os vales da Úmbria, Irmã Cladissa rezou.
Não por libertação.
Mas por coragem.
EIS A FRIA.
Eis aqui a fria, já morta, curvada sobre o teu cadáver. Silêncio. Nem a noite ousa respirar.
As mãos que outrora acariciaram o mundo agora repousam sobre a matéria vencida, como se a morte aprendesse, pela primeira vez, o peso da eternidade.
Mas quem morreu? A carne... ou o sonho que nela habitava?
Os astros prosseguem o seu caminho, indiferentes ao pranto dos homens, e, no entanto, há uma estrela que parece deter- separa contemplar teu último repouso.
E será ela, agora, o deslumbre do universo?
Talvez a morte não seja o apagar da luz, mas o instante em que o infinito abre, silenciosamente, os seus olhos sobre nós.
Porque toda sepultura é apenas uma porta para aqueles que aprenderam a escutar o invisível.
O ÚLTIMO HÁLITO DO ATAÚDE.
Marcelo Caetano Monteiro.
Corri a ti, vencendo a noite fria,
Na vã esperança da derradeira voz;
Que teu último hálito ainda me diria
Os velhos segredos sepultados entre nós.
Mas o Tempo - carrasco de mãos geladas,
Sorriu por detrás dos relógios sem luz;
Roubou-me as promessas jamais reveladas,
E apagou meu caminho onde a saudade reluz.
Teu ataúde, tão belo, tornou-se altar,
Vestido de lírios, veludo e luar;
Minha mística dor o fez florescer,
Como um templo proibido onde aprendi a morrer.
Olhei-me nos olhos, tão negros, tão fundos,
E encontrei o sadismo da própria aflição;
Vi desertos eternos, eclipses profundos,
Bebendo em silêncio meu pobre coração.
As sombras beijavam meu rosto sem nome,
Enquanto o silêncio vestia o jardim;
A morte tem sede, mas nunca consome
Quem morre primeiro por dentro de si.
Só os invisíveis ouviram meu canto,
Quando a última brisa beijou minha voz;
Os vivos passavam, cobertos de espanto,
Sem perceber que a noite rezava por nós.
A lua bordava teu mármore antigo,
Com fios de prata e perfumes do além;
Eu era somente um espectro contigo,
Amando o impossível que ninguém detém.
Então expirei, sem que o mundo soubesse;
Nenhum sino chorou minha lenta partida.
Somente os invisíveis ouviram a prece
Da última respiração perdida.
E, desde essa hora, caminho calado,
Guardião das ruínas que o tempo esqueceu;
Pois quem ama um sepulcro jamais foi deixado:
A morte levou meu corpo... mas nunca o que é meu.
Tags: #Poesia #PoemaLírico #PoemaGótico #LirismoSombrio #Melancolia #Misticismo #Luto #Saudade #Morte #Ataúde #Sombras #Noite #Invisível #Existencialismo #RomantismoSombrio #Gótico #Emo #Mistério #Silêncio #Abandono #Alma #RimasPerfeitas #Literatura #MarceloCaetanoMonteiro
A CATEDRAL DAS SOMBRAS.
Parte i
Quando a noite, em veste escura,Sepultou a velha altura,Vi a Lua, fria e pura,Sobre a torre a soluçar;Cada estrela estremecida,Parecia, adormecida,Uma lágrima esquecidaSem coragem de brilhar.
Pelas naves do silêncio,Onde o Tempo fez domínio,Cada pedra era um martírio,Cada arco, uma oração;E eu seguia, passo lento,Respirando o esquecimento,Como quem transforma o ventoNo compasso do coração.
Vi retratos sem semblante,Vi um espelho vacilante,Onde o rosto do viajanteJá não ousa florescer;Pois a face que eu fitava,Mais que a minha, denunciavaToda a dor que sepultavaO desejo de viver.
Cada porta era um mistério,Cada sino, um cemitério,Cada eco, um ministérioCelebrando a solidão;E as paredes consumidas,Feitas de eras esquecidas,Repetiam, doloridas:— "Tudo acaba... tudo em vão..."
Mas ouvi, de uma janela,Uma voz serena e bela,Como a luz de uma aquarelaSobre um campo sem calor;Não cantava a esperança,Nem promessas de bonança;Era apenas a lembrançaDo primeiro e puro amor.
Meu espírito, cansado,Como um tronco abandonado,Pelo inverno açoitado,Vacilou sem resistir;Pois lembrava, entre gemidos,Os jardins já destruídos,Onde os sonhos esquecidosAprenderam a partir.
Vi então um corvo antigo,Feito sombra e feito abrigo,Que pousou, qual velho amigo,No mais alto castiçal;Seu olhar, sem ter piedade,Conhecia a eternidadeE a secreta identidadeDe todo homem mortal.
Nada disse. Nada fez.Mas o peso da mudezEra a voz da insensatezQue ninguém deseja ouvir;Pois existem mil palavrasQue são frágeis como tábuas,Mas há silêncios que lavramA sentença de existir.
Então vi que cada abismoNasce antes no organismo,Onde o próprio egoísmoErgue alta catedral;Cada culpa alimentada,Cada lágrima abafada,É uma lâmpada apagadaNo invisível funeral.
Quem combate monstros, cedoPode tornar-se o degredoDo mais íntimo segredoQue jurava destruir;Pois o mal que nos devoraNão desperta apenas fora:É a raiz que se enamoraDo jardim por consumir.
E caminhei noite adentro,Procurando algum alento,Mas achei somente o centroDo infinito labirinto;Onde o medo, soberano,Escrevia, ano após ano,Com um dedo desumano,Cada página do instinto.
Quando a aurora finalmenteTocou o horizonte ardente,Vi que o Sol, resplandecente,Não venceu a escuridão;Pois a sombra verdadeiraNão repousa na ladeira,Nem na floresta fronteira:Faz morada no coração.
Mesmo assim, subi o monte,Onde nasce cada horizonte,E rompi, qual velha ponte,As correntes do temor;Porque a noite, por mais forte,Nunca encerra toda sorte:Há mistérios além da morte,Há silêncio além da dor.
Então, diante do Infinito,Ergui firme o meu espírito,Não em gesto de conflito,Mas de lúcida ascensão;E as estrelas, uma a uma,Dissolveram toda a bruma,Transformando a antiga espumaNa mais viva criação.
Compreendi, no último instante,Que o destino mais giganteNão pertence ao triunfante,Nem ao rei, nem ao altar;Pertence ao ser que, vencido,Mesmo em sangue consumido,Faz do próprio coração partidoUma nova forma de amar.
E a noite, antes sepulcro,Fez-se trono, fez-se fulcro;Do silêncio nasceu o músculoDa coragem sem igual.Porque toda alma ferida,Quando enfrenta a própria vida,Ergue, acima da ruína vencida,Sua imortal catedral.
ADEUS.
Adeus... Não chores. A noite me chama,
e o vento desfaz a derradeira chama.
O piano suspira num quarto vazio,
enquanto o silêncio se torna meu rio.
Teus olhos, outrora jardim de esplendor,
são lírios banhados na névoa da dor.
O tempo, esse artista de mãos tão cruéis,
desfolha promessas, coroas, papéis.
Partirei sem ruído, qual folha ao luar,
que aprende com o outono a arte de tombar.
Não levo riquezas, nem glória, nem voz;
apenas o eco do que fomos nós.
Se um dia escutares a chuva cantar,
recorda meu nome a contigo sonhar.
Nas gotas que beijam o vidro sem fim,
talvez sobreviva um pedaço de mim.
O céu tem caminhos que ninguém jamais
desenha com passos iguais aos mortais.
E a vida, qual valsa que chega ao final,
inclina-se, lenta, ao silêncio fatal.
As rosas que deste conservam perfume;
o amor verdadeiro não teme o negrume.
Ainda que a morte nos venha apartar,
há coisas que o tempo não pode apagar.
Adeus... Não é ódio, tampouco é prisão;
é apenas o adeus que amadurece o coração.
Porque todo encontro que o destino encerra
transforma-se em estrela escondida na terra.
Quando a lua pousar sobre o velho jardim,
e o mundo esquecer o princípio e o fim,
talvez uma valsa desperte do além,
tocada em segredo por mãos que ninguém
jamais conseguiu ver, tocar ou deter,
pois vivem onde o amor não pode morrer.
Ali, entre as notas que o vento conduz,
te esperarei vestido de eterna luz.
E se Deus permitir que o infinito, enfim,
reúna outra vez teu destino ao meu ,
não diremos "adeus", " nenhum"adeus outra vez;
seremos dois sonhos na mesma altivez.
Até lá, caminha sem medo, sem dor.
Quem ama de verdade jamais perde o amor.
O adeus é somente a pausa da canção;
o último acorde prepara a amplidão.
"Há despedidas que encerram uma vida, mas há amores tão profundos que transformam cada adeus no prelúdio de um reencontro eterno."
SOBRE O AMANHECER.
O amanhecer, essa transição solene entre o véu da noite e o advento da luz, ergue-se como um rito silencioso que convoca a alma à meditação. Quando o primeiro fulgor solar fende o horizonte, o mundo parece libertar-se de um longo torpor, e com ele despertam o ser interior e os pensamentos adormecidos. Nesse limiar quase sagrado, somos conduzidos à compreensão íntima do recomeço, não apenas na paisagem que se revela, mas no âmago das emoções que nos habitam.
Basta imaginar-se em um campo aberto, onde as sombras noturnas se retraem lentamente diante da claridade nascente. O ar, ainda fresco, carrega consigo uma promessa antiga, a de que todo início é possível. O amanhecer, então, deixa de ser mero fenômeno físico para tornar-se símbolo existencial. Assim como a manhã sucede a noite, o espírito humano também se vê muitas vezes oprimido por temores, frustrações e anseios acumulados nas horas sombrias da vida. Contudo, quando a luz se insinua, mesmo que tímida, revela-se a possibilidade de retomada e de reconstrução. O amanhecer convida à introspecção e exige uma revisão honesta do próprio caminho.
Há nele uma pedagogia discreta e profunda. Cada aurora recorda o valor dos instantes simples, frequentemente negligenciados, e questiona nossas prioridades, vínculos e aspirações. Tal como o sol que retorna diariamente sem alarde, também o ser humano guarda em si a capacidade de renascer, de enfrentar suas sombras internas e de dirigir o olhar a novos horizontes.
Esse renascimento não se apresenta isento de ambiguidade. Misturam-se a alegria do possível e a dor das memórias, as cicatrizes deixadas por dias antigos e a esperança que insiste em permanecer. O amanhecer nos lembra que cada dia traz desafios inevitáveis, mas também oportunidades silenciosas de amadurecimento. Sua beleza reside justamente na transitoriedade, nessa fragilidade que confere densidade e sentido à existência.
Na quietude da primeira luz, a introspecção torna-se inevitável. O amanhecer questiona sem palavras. O que verdadeiramente valorizamos. Quais sonhos ainda repousam no fundo do coração, abafados pela rotina ou pela ausência de coragem. Ele age como um conselheiro mudo, conduzindo-nos à busca de um significado mais profundo e encorajando-nos a acolher as incertezas do porvir com dignidade e firmeza interior.
Contemplar o amanhecer é permitir-se sentir a solenidade do instante. É reconhecer que antigos fardos podem ser deixados para trás e que novas esperanças podem germinar. À medida que cada raio de sol toca a terra, toca também a interioridade humana, reafirmando a possibilidade permanente de escolher a luz em vez da sombra. Assim, o amanhecer converte-se em emblema de renovação pessoal, oferecendo a cada dia a chance de viver com inteireza, amar com profundidade e buscar a autenticidade com coragem serena.
Nesse delicado jogo entre luz e escuridão, somos lembrados da beleza austera da condição humana e do poder silencioso que cada consciência possui de criar sentido em meio à complexidade da vida. O amanhecer deixa de ser apenas um evento natural e passa a espelhar a jornada interior de todo ser que pensa e sente. E a cada dia que nasce, renova-se também a oportunidade de reconectar-se consigo mesmo, de abraçar a existência com lucidez e de escrever, com sobriedade e esperança, mais um capítulo digno na longa narrativa do espírito.
O AMANHECER DA ALMA.
Quando a aurora rompe as sombras da noite, é como se um cântico silencioso atravessasse os espaços, convidando-nos a renovar o coração. O sol que desponta não ilumina apenas os vales, os montes e os rios; ele acende também uma chama íntima, recordando ao espírito humano que a vida é movimento, ascensão e promessa eterna de felicidade.
A beleza do dia que nasce não reside apenas no espetáculo da natureza, mas no símbolo que ele encerra. Assim como a Terra se veste de claridade após as horas escuras, também nós, viajores do infinito, somos chamados a emergir das sombras da dor, da ignorância e das provações. Cada manhã é, em si, um convite de Deus à esperança.
A vida espiritual não conhece crepúsculo definitivo. A morte, que tantos temem, é apenas o repouso de uma etapa, prelúdio de uma alvorada ainda mais bela. O espírito, imortal em sua essência, amanhece incessantemente. A cada existência, a cada experiência, desvela novos horizontes, amplia a visão, depura os sentimentos. Assim, a felicidade não é uma miragem distante, mas o resultado da marcha perseverante sob o olhar da Lei divina.
No alvorecer do espírito, a beleza maior não está no brilho exterior, mas na paz que nasce da consciência reta, no amor que se dá, na fraternidade que se semeia. A natureza ensina essa lição em silêncio: o sol não guarda sua luz, mas a reparte; a árvore não retém seus frutos, mas os oferece. Da mesma forma, a alma só encontra a verdadeira ventura quando aprende a doar-se, transformando cada amanhecer em um hino de gratidão.
Para meditar:
Que cada dia seja para nós uma alvorada da alma. Que aprendamos a saudar a manhã não apenas com os olhos voltados ao horizonte terrestre, mas com o coração aberto à eternidade. O destino do espírito é a felicidade; não a felicidade ilusória que o mundo oferece e retira, mas aquela que floresce no íntimo e que cresce, segura, à medida que nos aproximamos de Deus pela prática do bem.
Eis o grande chamado: viver o dia que se levanta como oportunidade sagrada de crescimento, luz e amor. E então, mesmo quando a noite dos sentidos chegar, traremos em nós a certeza luminosa de que uma aurora mais pura nos espera, porque o espírito jamais deixa de amanhecer.
Da noite
A noite vem às vezes tão perdida,
um véu silencioso que abraça o peito,
onde sombras se insinuam com a alma ferida, dorida...
e o tempo se perde em seu leito meio desfeito.
Quase nada parece bater certo,
as horas escapam, fugazes, incertas,
há qualquer coisa em nós, um deserto,
inquieta, lesão, entre portas abertas.
O que era fundo torna-se tão perto,
segredos antigos ecoam no escuro,
o coração pulsa um ritmo aberto,
um sussurro calmo, leve e puro.
Na penumbra, a dor encontra abrigo,
e a esperança nasce na ferida aberta,
pois, mesmo a noite, no seu perigo,
traz a promessa de uma manhã certa.
Assim, na noite perdida e silente,
floresce a alma, livre e presente.
