Swami Paatra Shankara
Lidar com pessoas sempre vai requerer exercício de tolerância; devemos começar seguindo a linha de pensamento de que não temos controle algum sobre os outros. Esse seria um bom começo de conversa.
No senso comum, a palavra karma está sempre associada a um castigo imutável, a uma situação ruim e invencível. Na realidade, o karma nada mais é do que uma lei eterna de causa e efeito que cada um de nós pode modificar todo dia através do dharma (atitudes). Não somos seres impotentes diante da vida e nem há sinas inelutáveis. Dessarte, aceitar esse ou aquele revés como um karma e se conformar com ele seria apenas um ato de preguiça. Pior que isso é achar que tudo que não funciona na nossa vida é karma. Acredito mais numa "síndrome de falta de espelho" associada a uma sonolenta vontade de fazer alguma coisa que ajude a si mesmo.
Não existem verdades soberanas. Sempre nem tanto para o lado do abismo e nem tanto para o jardim florido que circunda o castelo. É como uma corda de violão. Se ela ficar muito solta, não produzirá som algum. Mas se você esticá-la demais, ela arrebentará. Pela ótica desse conceito, antagonismos aparentemente insuperáveis poderiam ser resolvidos se ambas as partes cedessem um pouco. Uma boa base para o equilíbrio seria nunca se deixar perverter pelos extremos.
Nas viagens de avião, nos avisos sempre nos lembram que no caso de uma emergência que temos que colocar primeiro as máscaras de ar em nós mesmos e depois em quem estiver do nosso lado, que seja uma criança indefesa ou uma pessoa incapacitada. Parece egoísmo, mas não é: assim como dentro de um avião em dificuldades, na vida, no dia a dia, temos que tentar ficar lúcidos e fortes o suficiente para ajudar os mais fracos que nós ou aqueles que simplesmente precisam. Se pensar somente nos outros vai fenecer antes deles e não poderá ajudar em nada. No avião e na vida.
Mas, a vida é assim mesmo: nos ensina algumas coisas e nos fere em outras. O equilíbrio disso é o que importa. Ninguém tem a verdade e consciência sobre a vida tal como ela é e deve ser. Quem disser o contrário estará mentindo.
Cada um pensa o que quiser da vida e seus variados assuntos. Apenas não conte com minha aprovação pois eu tenho ideias sobre vida e variados assuntos. Podemos não combinar. Eu digo não, você diz sim, eu digo não, e continuaremos assim por muito tempo até que alguém perca a paciência e mande o outro pra aquele lugar. Sei que queremos ser aceitos em tudo, mas colocar como verdade algo que fere a verdade alheia, é pedir briga. Não tem vencedores e cada um sai com a mesma verdade que já conhecia e tinha crença. Antigamente saia até morte por uma discussão besta. Hoje em dia tem redes sociais pra cada um falar a sua verdade. Até aí nada demais. Problema é tentar trucidar a ideia alheia antes de colocar a sua.
A humanidade busca desesperada pelo preenchimento do vazio existencial. Quanto maior a diversidade de distrações, maior o vazio interior. Aprender a atravessar o deserto e dar as costas ao efêmero requer muita disciplina interna e vontade para superar a si mesmo. Quem tem olhos para ver que trate de sair deste ciclo vicioso e condicionante das ilusões tecnológicas. A máquina mais maravilhosa e complexa que existe é o homem e isso deveria bastar. Sem despertar a consciência não tem como deixar de ser escravo do sistema e das ilusões. A liberdade cada um precisa encontrar dentro de si mesmo.
Com o tempo aprendemos a nos importar mais, mas com menos gente. Verdadeiros amigos se contam nos dedos das mãos e pode sobrar dedo. Antes, a quantidade é que valia a pena, hoje, a qualidade. Conforme vamos crescendo criamos um grupo espelho. O que somos combina com poucas pessoas e com elas nos relacionamos, compartilhando pensamentos, sentimentos, interesses e várias brincadeiras. Descobrimos também que antes não tínhamos amigos e sim companheiros de viagem e folguedos e que a suposta amizade desvanecia tão logo houvesse um átimo de separação. Raros aqueles que vem de longe de nossa infância, esses são inesquecíveis, insubstituíveis, mas quem pode dizer que hoje ainda tem isso? Com o passar dos anos preferimos nos sentirmos queridos, compreendidos em interesses e pensamentos, preferimos estimular nossa mente ao conversar e lidar com nosso mundo de um jeito muito mais maduro. É nesse momento que verdadeiros amigos aparecem, pois tem os mesmos objetivos. Ou não, pois muitos ainda estão em antiga fase. Não cresceram, não amadureceram. Melhor ficar sem. Um só amigo, nem que seja à beira da morte, já valerá uma vida. Quem sabe.
Se você pensa que um dia possa se arrepender do que está fazendo agora, talvez não deva fazer. Caminhe o caminho que lhe entregue paz no fim da vida e você possa dizer: eu faria tudo de novo e exatamente igual
Amor pelo qual mendigamos não é amor, não passa de mera falta de dignidade e respeito de nós com nós mesmos. Quando amamos de verdade alguém, cuidamos dessa pessoa e evitamos ao máximo qualquer tipo de sofrimento ou dor. Se quem não cuida dos seus amores, se quem não evita suas dores, são apenas atores de amores falsos.
O injustiçado nem sempre é mais infeliz do que quem comete a injustiça contra ele. A felicidade não é conquistada pelo número de injustiças cometidas, e o ranger de dentes o espera, cedo ou tarde.
Enquanto estamos no nosso caminho, respeite a opinião alheia. Eles também estão no caminho e ninguém necessariamente precisa pensar igual. Claro que isso deve ser mútuo. O caminho é que interessa e cada um vai encontrar o seu.
Nem homem e nem mulher que fiquem pulando de cama em cama, vão encontrar algum sentimento no torpor dos desejos e sensações. Fica apenas nisso mesmo. Melhor não reclamar e se perguntar por que estão sós e "ainda não encontraram o amor de suas vidas". Quem sabe dar um tempo maior entre uma cama e outra, para se dar uma oportunidade de conhecer alguém que também já se cansou de fazer a mesma coisa. De cama para cama, de solidão em solidão. No amor real, não há solidão.
Uma vida espiritualizada pode significar diferentes coisas para pessoas diferentes, mas o que deve-se ter em mente que vida espiritual é simplesmente alguma coisa que nos ajude a compreender o nosso eu. Qualquer coisa em nossas ações cotidianas que nos leve na direção do "eu sou". Destarte, aquilo que intuímos no íntimo - que existe poesia e razão na nossa existência - adquire uma forma cada vez mais concreta. Uma vida espiritual aparece menos por interiorizações e mais por atitudes. Assim é a lei.
A História pode ser modificada a cada segundo, conforme cada um a conta. Não a viveu, não sabe dos detalhes reais, não a defenda. Apenas a aceite no seu ponto de mutação. Se não tem como acreditar, não tem como defender, faça a sua história, aquela em que acredita. Mesmo assim, não a defenda, pois somente é o que acredita. Acreditar em um ponto de mutação, deixa reservado a própria evolução. Cada um acredita no que quer acreditar por seus conceitos ou conveniências. A verdade tem múltiplos aspectos. Evolução não vem de princípios externos e sim internos. Apenas seja fiel ao que acredita, mas não defenda, os outros também são fieis ao que acreditam.
Tenho por mim nunca aceitar e sim apenas escutar a versão de apenas uma pessoa. A Verdade tem várias versões: a de alguém, a de seu "adversário" e a minha. A verdade de quem vê a questão de longe. A verdade de quem... Deve ter mais uma acima, pois todos podem estar errados. Por enquanto, a educação nos toma emprestados como penicos.
A diferença entre amar somente falando e não agindo conforme diz amar, beira à felicidade ou à infelicidade, depende a quem é dirigido. Palavra sem ação não vale sua expressão.
Aniversário poderia ser substituído por assim convidar pessoas - com bolo até - e contar a todos o que melhorou como pessoa em mais um ano de vida. Ou estagnou. Ou regrediu. Seria mais honesto que esperar congratulações pela vida que levou ou nunca levou. No que melhorou e no que nunca quis melhorar, isso também. No que as pessoas podem esperar ou não de você. Fora isso, receber parabéns sendo um cretino, não passa de ilusão e hipocrisia aceita por quem reconhece e dá e quem recebe.
Algumas pessoas simplesmente não pagam a pena de um segundo a mais da nossa atenção. Tal como coisas, situações ou lugares, se se não pagam a pena, não valem a pena.
Para lidar com o sofrimento é preciso perceber que ele faz parte da nossa vida e perder essa mania de colocar sempre a culpa no alheio. Se aceitamos um presente cabe a nós guardar ou jogar fora.
A "boa morte" seria mais uma tentativa de manter um saldo positivo na própria existência ou pelo menos zerar a contabilidade entre as atitudes boas e más de que inevitavelmente se compõe uma vida. Depois, tudo bem, o inevitável, mas o evitável deveria ser da vida e não da morte.
