Ela explicava. Explicava o que sentia,... Sou.Cah

Ela explicava.


Explicava o que sentia, explicava o que pensava, explicava o que doía, explicava por que doía, explicava por que explicava.


E ela explicava porque acreditava — com a fé de quem ainda não foi completamente ferida — que a incompreensão era apenas falta de palavras certas. Que bastava a palavra exata, a frase bonita, o silêncio bem colocado, e ele finalmente veria o que ela via: o abismo dentro dela.


Mas a incompreensão, a incompreensão não era falta de palavra. Era falta de coragem. E coragem, meu Deus, coragem não se explica. Coragem se sente. Ou não se sente.


Ela sentia tudo.


Ela sentia o peso da mão dele no ombro, mesmo quando a mão não tinha alma. Ela sentia a distância nos beijos que vinham no horário certo. Ela sentia o vazio na frase "você é maravilhosa", porque a frase era sempre a mesma, sempre vazia, sempre o conforto de quem não quer olhar para dentro.


Ela olhava.


Ela olhava para ele e via o homem que ele podia ser. E isso era a sua condenação. Porque ver o que o outro pode ser, sem que ele queira ser, é um exercício de solidão insuportável.


Ela escrevia à noite. Quando o mundo calava, ela escrevia. Não poemas, não. Ela escrevia a coisa bruta, a coisa que não tinha nome, a coisa que latejava entre o estômago e a garganta. Ela escrevia porque escrever era o único jeito de não explodir.


Mas ela queria explodir.


Queria que um dia, em vez de ele dizer "vou fazer diferente", ele dissesse: "estou sentado no chão com você e não sei o que dizer, mas estou aqui." Queria que ele não resolvesse, não acalmasse, não se apressasse.


Queria que ele entrasse no silêncio dela.


E não entrasse para sair, para dar um beijo e ir embora. Entrasse para ficar. Para se perder junto com ela.


Ela não era carente. Cuidado com essa palavra. Carente é quem quer qualquer coisa. Ela queria tudo. Ou queria nada. O meio-termo, para ela, era a morte. E o meio-termo era o que ele oferecia. Com todo o carinho do mundo, ele oferecia a morte lenta, a morte suave, a morte que vem de mãos dadas e diz: "está tudo bem."


Mas não estava tudo bem.


Ela estava partida ao meio. E ele, ele segurava as duas metades e dizia que estava inteira. E ela, para não magoá-lo, fingia que estava inteira.


Mas as metades dela se cansaram de fingir.


Um dia, ela parou de explicar.


E ele não percebeu. Porque o silêncio dela, para ele, era alívio. E esse foi o golpe mais fundo. Saber que a ausência da sua voz era a paz do outro.


Ela não é vazia. Ela é cheia de uma coisa que ele não tem coragem de nomear. E enquanto ele não nomear, ela continuará sendo o que ele chama de "intensa" e o que ela chama de "viva".


E viver, viver é isso: uma coisa que não cabe, que transborda, que pede mais do que a conta do banco e a chave do carro e o beijo na testa antes de dormir.


Ela quer a tempestade dentro do quarto. Ela quer o grito que não precisa de motivo. Ela quer que ele a veja não quando ela está bonita, arrumada, feliz. Mas quando ela está no fundo do poço, suja, despenteada, silenciosa.


Ela quer ser amada no escuro.


Não no escuro do quarto. No escuro da alma.


E enquanto ele não descer até lá, ela vai continuar explicando. Explicando para si mesma que o amor é isso: a eterna espera de ser alcançado. Mas se assim for, ela escolhe esperar só, mas não sozinha.


... coisas sobre Ela