Shandy Crispim
Eu quero conhecer
o que você não posta,
saber com o que você
realmente se importa.
Eu quero conhecer
as selfies que
você não mostra,
os detalhes que você nota.
Não me importaria
de passar pelo caminho
onde teu caos incomoda,
se isso me fizesse conhecer
onde é que tua paz mora.
e enquanto
eu era errante
pelas incertezas da vida,
lá eu te encontrei.
de ternura demasiada,
e de uma presença
que trazia paz.
ela não tinha pressa,
preferia beijos lentos
olhares estacionados.
com ela, aprendi
a namorar o silêncio.
Deixamos de romantizar o romance
para romantizar o trabalho,
o desinteresse,
a pressa,
a falta de tempo e de atenção.
Tempo
Nós temos tempo para várias coisas: para o celular, para o trabalho, para os prazeres rápidos, prazeres longos. Até mesmo quando o dia está corrido, encontramos tempo para aquele dia que foi exaustivo.
— Dia produtivo! —
Mas o que foi realmente produzido, além de todas as tarefas que um ser humano funcional precisa cumprir, e de todas as obrigações necessárias para manter um serviço — seja ele autônomo ou não?
Somos constantemente (e cada vez mais) treinados para nos acostumar com a correria, com a ocupação. Deixamos de romantizar o romance para romantizar o trabalho, o desinteresse, a pressa, a falta de tempo e de atenção.
Damos tempo para várias coisas, até mesmo ao próprio tempo, mas... e o nosso tempo? Quantas vezes no dia temos um tempo para ouvir a nossa parte mais frágil ou aquela que mais nos causa orgulho? Quantas vezes paramos para ouvir o que o nosso silêncio tem a dizer — insegurança — medo — solidão — solitude?
É tão comum buscar alguma distração e ocupar a psique, tentando enganar as memórias, as saudades, as frustrações espalhadas por todos as partes.
E, nessa correria... quanto tempo tem o nosso tempo?
você não precisa,
que alguém escorra
pelas rachaduras
da sua autoestima,
para que você finalmente,
descubra o seu real valor.
você amou,
o outro te quebrou,
você
chorou
transbordou.
o tempo passou
a ferida fechou
você se cuidou,
mas não se culpe,
pelo amor que
ainda não chegou.
Até na próxima vida.
eu vi o tempo passar,
sobrevivi á perto de você
eu não ficar.
eu namorei suas fotos
pensando o que eu diria
nos meus votos.
e nossa despedida
poderia ter sido
mais dolorida.
mas você me disse:
— até a próxima vida —
Enquanto a Vida Passava
imagina,
a vida passando na tv da sala.
sem pausa,
sem voltar.
um ao vivo sutil —
onde você pode sentir,
dizer,
ou apenas estar.
mas se olhar pro celular,
perde.
perde um olhar,
um gesto,
um silêncio.
perde o agora.
o celular aqui é só um nome
pra tudo o que te afasta de ti,
uma metafora.
as comparações,
as vozes que não são suas,
as urgências inventadas.
basta um segundo,
e você já não está mais ali.
está em outra vida,
ou desejando estar.
e sua história,
que é só sua,
segue passando...
sem reprise.
sem legenda.
sem aplausos.
por quanto tempo mais
você vai deixar
que a distração
se sente no seu lugar?
— palhaço —
e foi assim, entre seus risos,
que eu traduzi a maneira
dela dizer que me amava,
sem dizer que me amava.
Quando foi que
parou de ensaiar pensamentos no banho,
e apenas deixou a água banhar
suas dores e levar embora
suas preocupações?
Quando foi?
Quando foi que você olhou para seus pés
enquanto caminhava,
e viu exatamente por onde pisava?
Que enxergou uma planta
que sempre esteve na porta da sua casa
mas nunca teve sua atenção?
Quando foi a última vez que
tocou por algumas coisas
enquanto caminhava,
assim como fazia quando era criança?
Que olhou para o céu,
não para saber se estava nublado,
mas, só quis ver o que se passa acima de você?
Que puxou ar prolongado,
não porque estava ofegante,
não porque queria ter mais paciência,
não porque precisava controlar
o que diria em seguida,
mas porque queria sentir a sensação da vida
preencher seus pulmões?
Quando foi que parou
de ensaiar pensamentos no banho,
e apenas deixou a água banhar
suas dores e levar embora suas preocupações?
Saudade, de ter saudade
Esqueci como é
ter aquela ansia
em ver outro alguém,
da empolgação,
da preocupação,
sentir a pulsação
do coração.
De lembrar de detalhes
que serão só meus,
de querer que o resto
dos meus dias,
também façam parte
dos planos teus.
Saudade,
de poder sentir saudade.
O quarto era pouco revelado
pela penumbra,
minha mão que escrevia
poesias em sua cintura,
nem se importava
pela roupa jogada nessa altura.
Ela que estava de olhos serrados,
prestes a entrar no teu sétimo sono.
Ainda falava comigo,
de voz abafada pelo peso do sono,
mas carregada de carinho.
Me pedia cafuné,
no meio de todo
aquele cabelo de pé.
Eu chegava,
transito intenso,
carros e pessoas cruzavam,
olhei para o relógio,
era quase quatro horas da tarde,
meu coração assaltava algumas batidas.
Eu a vi pela janela,
e foi como uma fotografia,
nunca mais esqueci
dos detalhes do dia
em que eu a conheci.
Talvez eu precise me ouvir mais,
em voz alta, ou em silêncio.
Saber o que realmente se passa
em minhas angústias e em meu tédio.
Fazer uma lista do que eu amo,
fazer uma lista do que eu gosto,
uma lista do que eu quero,
ou talvez, até listar menos.
Talvez eu precise ouvir aquela música
mais algumas vezes.
Talvez eu só precise conversar com calma,
com a criança ressentida
em minha psique, e finalmente,
explicá-la que crescemos.
Talvez, eu só precise sorrir mais,
lembrar que, em uma realidade
em que eu não tenha nada,
eu trocaria tudo,
pelo que tenho.
Talvez, eu só precise
lembrar que hoje,
é tudo que eu preciso.
E sem aviso,
chegará um fim de domingo,
que a saudade
não vai mais passar,
e você não vai querer
existir em um outro lar.
Te observo,
trocamos alguns olhares,
nosso protagonismo
rasga sutilmente
os ruídos da sala,
nossos olhares disfançam,
mas ainda tropeçam.
Eu finjo que não vi,
e você finge que não quer,
o sol beija o horizonte outra vez,
fim do expediente,
ninguem soube da gente.
Já fui ventania
que trazia coisa boa,
já fiz vítmas
de minhas boas intenções.
Hoje sou errante na filosofia
do aprendizado.
Já dizia René Descartes: "Penso, logo existo."
Mas só existir não basta,
a vida acontece,
mesmo que você
não testemunhe.
