Júlio Pattuzzo

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Nova Configuração

A vida chega sem chegar,
porque ninguém veio de fora.
Só a matéria mudou de lugar
e, de repente, conta as horas.

O carbono aprende um nome,
a água inventa uma memória,
o corpo sente frio e fome
e chama isso de história.

Que ironia tão precisa:
o universo, indiferente,
reorganiza a própria argila
e ela se julga diferente.

Diz “eu sou” com voz segura,
como se fosse substância,
mas é padrão, processo e trama,
equilíbrio em circunstância.

Ama como quem será eterno,
teme como quem pode perder,
sem notar que o fim do inferno
é apenas deixar de manter.

A morte não rouba uma essência,
não apaga um ser escondido;
rompe relações, desfaz cadências,
desmonta o arranjo produzido.

E a vida, solene e vaidosa,
ergue monumentos ao acaso:
uma configuração nervosa
tentando sobreviver ao prazo.

Ainda assim, há certa beleza
nessa ilusão sem impostura:
a matéria, por breve proeza,
contempla a própria estrutura.

Nada nasceu como entidade,
nada parte para outro lugar.
Só muda a forma da realidade
e uma forma aprende a chorar.