P. H. Amâncio.
Ser sábio não é escolher o certo.
Ser sábio não é acertar.
A sabedoria se encontra na ação,
A tolice habita no "parar".
Quem ditou a regra?
Quem criou o escolher?
Se a sabedoria é a ação,
De movimento precisou ter.
Pensando no pouco
Agiu como louco,
Mas logo se tornou sábio,
Pois agiu intencionado.
Se o não agir te torna nulo,
Sábio até poderia ser,
Apenas com um pequeno pulo.
O fundo do poço não é o pior lugar para se estar, na verdade, é o local propício para renovação. Na vida, a dor que sentimos é provocada pelos arranhões que sofremos durante a queda no poço. Esbarramos nas paredes úmidas e informes, e isso nos causa arranhões e dores bem profundas, mas é só a queda. Ao chegar no fundo do poço, é possível sentir o nada, e isso é confortante. E quando isso acontece, é o momento ideal de renovação. Olhar para cima causa o desejo de subir, e sair da zona de conforto, mas há também a opção de cavar mais, e ao fazer isso, é possível extrair da terra minérios e pedras precisas, o autoconhecimento. O diamante, o ouro, e até mesmo o minério de ferro que se encontra ao cavar, nada mais é do que o amor próprio, reconhecimento, e a autoconfiança. Se estiver no topo, cuide para que não perca o equilíbrio e sofra com a queda. Se chegar ao fundo, suba ou se conheça.
Com palavras corriqueiras me eternizo no teu agora. Não farei sentido se não estiver escrito. Me leia, me releia. Lembre de mim quando pegares no papel. Sou tua folha e a tua tinta.
Não somos quem somos por ter concluído nosso objetivo, somos isso porque o processo, pela conclusão do tal, nos levou a ser o que somos.
O médico não é inteligente por ser o que é, ele é inteligente porque a vontade de chegar ao seu objetivo o fez ser assim.
Eu já falava deles sem mesmo os tocar
Tú já sabia que no fundo eu queria te namorar
Eu me entreguei na forma que olhava tua boca
Lábios molhados provocam sensações tão loucas
A dor não mata, o medo sim. Temer se curar, é o principal caminho para se acabar.
Aquele que teme à mudança, vive infeliz e distante da verdade. Quem quer ser a melhor versão, deve lançar fora o temor à coisa nova.
Carta crítica filosófica
À Natureza
É um prazer lhe escrever esta carta,
ainda mais pelo privilégio de usar um papel
extraído de uma antiquíssima árvore da Alemanha.
Escrevo-lhe com meu mais novo lápis do Líbano.
Veja como você é importante para mim.
Querida,
quanto tempo faz desde que não nos falamos, não é mesmo?
Pensei em você enquanto meus funcionários
erguiam meu novo prédio — um edifício grandioso.
Lembra-se daquele jardim onde costumávamos passar?
Comprei-o em um leilão.
Agora, ali, nasce um prédio comercial.
Esperei por você no lançamento da pedra fundamental.
Olhei entre homens e mulheres,
mas não a encontrei.
Terá eu lhe magoado, querida Natureza?
Achei que tivesse liberdade para tratá-la
com mais intimidade.
Parece que você não aprovou minhas ações.
Não se preocupe.
Assim que eu terminar de limpar o terreno
dessas árvores velhas
e concluir a construção,
erguerei uma estátua de concreto
em sua homenagem.
Talvez assim eu consiga reconquistá-la.
Quando puder, responda-me.
Atenciosamente, o insensato.
“Tempo, Meu Algoz Afetuoso”
No teu pulsar vou me balançar
Contigo caminhar por toda a vida
Se me soltar, já não serei
Perco o nome, perco a razão — tenha compaixão
Sou o som do teu instrumento
Um instante quase esquecido
Sou o sim e também o não
Nasci por ti já condenado
Amigo íntimo do fim
Carrego esse legado
Tempo, maestro da vida
Senhor do agora e do jamais
És o bem, também o mal
Menino velho, caduco
Para o fim, és só um pulo fatal
Deixa-me sentir o prazer de viver
Sem vigiar o meu fim
Nem cheguei a amar direito
Nem sei se alguém gosta de mim
Tempo, meu caro
Dá-me abrigo, dá-me um amparo
Ando cambaleando, desfalecendo
Ontem eu ainda era moço
Hoje já não corro — vou cedendo
Ah, Tempo… há tempos
Tempos que não voltam
Tempos que me roubaram
Tempos que acusam
Tempos que exortam
Tempos que acabaram
Desisto de Entender
Grito na letra e choro na voz
A tristeza e eu
Uma casa que cabe só nós
Peito pequeno que sente muito
Garganta forte que engole o mundo
Meu estômago nem sabe o que é sabor
Mastigo a realidade e engulo o horror
Ah, mundo triste, mundo estranho
Quanto mais eu corro de ti
Em ti, mais e mais eu me entranho
E é real o sentir e o ver
E é o que me dá medo o saber
Quando sei que sei, entendo o nada
Quando o nada me toma, eu sei de tudo
Vivendo sem entender o motivo do passar
Passando sem entender a razão do viver
Vivo e passando sem ter o que entender
Cheio de vazio, lotado de espaço
Cuidando fielmente do meu próprio descaso
