Olavo de Carvalho
O jovem, é verdade, rebela-se muitas vezes contra pais e professores, mas é
porque sabe que no fundo estão do seu lado e jamais revidarão suas agressões
com força total. A luta contra os pais é um teatrinho, um jogo de cartas
marcadas no qual um dos contendores luta para vencer e o outro para ajudá-lo a
vencer.
No Brasil, cultura e inteligência são coisas para depois da aposentadoria,
quando todas as decisões estiverem tomadas, quando a massa de seus efeitos
tiver se consumado. Aí, o cidadão pensará em adquirir conhecimento, que a essa altura, só servirá para lhe informar o que deveria ter feito e não fez.
O erro em que incorre quem toma literalmente a sério expressões como “democracia econômica” ou “democracia social” vai muito mais fundo do que um mero deslize semântico. Pois a transposição da idéia democrática para outros campos além do político-jurídico, em vez de estender a esses domínios os benefícios que a democracia assegura no seu domínio próprio, resulta apenas em ampliar o domínio político-jurídico: tudo se torna objeto de lei, tudo fica ao alcance da mão da autoridade.
"Todo livro que você lê foi um dia uma vaga idéia na cabeça do autor, depois um longo trabalho de construção, destruição e reconstrução até consolidar-se em obra pronta, depois uma carreira editorial seguida de longos debates entre leitores, críticos e escritores em geral, até formar uma certa imagem relativamente estável na constelação dos fenômenos culturais e multiplicar-se em reedições e traduções."
Todo conhecimento começa com a percepção de alguma analogia. Analogia é uma mistura de semelhanças e diferenças vistas confusamente, como se formassem a unidade de uma coisa, de um fenômeno, de um processo, de uma qualidade. A analogia, uma vez verbalizada, corresponde àquilo que em lógica se chama 'síntese inicial confusa'; dito de outro modo, um símbolo não analisado. A análise descasca as várias camadas de significado embutidas no símbolo, separa alhos de bugalhos, e reconstrói a articulação dos elementos numa 'síntese final distinta'. É só então que se possui um conceito cientificamente viável daquele ser, fato ou processo.
A linguagem da propaganda e da demagogia foge da análise, como o diabo da cruz, e se contenta com a síntese inicial confusa, com o símbolo não analisado, precisamente porque não quer chegar à compreensão de coisa nenhuma, mas apenas produzir, por efeito da confusão mesma, alguma emoção tosca na mente da platéia.
"Que é remorso? Um sentimento de culpa desesperador.
O arrependimento é um sentimento de culpa acompanhado de alívio, de esperança de poder resgatar de algum modo o que foi perdido."
"Se tudo o que existe no universo é uma combinação fortuita de elementos materiais sem consciência, as palavras de quem o diz também são."
Volta e meia encontramos patifes que, por terem colocado suas vidas a serviço de uma facção política – seja por genuína convicção ou por interesses menores, pouco importa –, não são capazes de conceber motivações superiores às suas, e explicam os nossos atos como se fossem os seus próprios com sinal partidário invertido.
Vocês têm de ser a favor de uma só coisa: a favor da filosofia; entendida neste sentido: como [a busca da] unidade do conhecimento na unidade da consciência. Ou seja, a filosofia como consciência responsável – o conhecimento, a aquisição de conhecimento, a transformação desse conhecimento em consciência e dessa consciência em responsabilidade. É só a favor disso que você tem de ser.
"Conhecer o sentido da vida pressupõe conhecer o sentido das coisas que vão acontecendo enquanto ela se passa. Mas a apreensão desse sentido às vezes implica o conhecimento de forças terríveis, forças de escala histórica, social, planetária ou supra-planetária."
"A natureza é visível e cognoscível, está diante de nós, mas nós não a entendemos, porque não parece ter intencionalidade. Às vezes parece que [tem], outras vezes parece que não, então você não sabe. Como é que vamos saber? Bom, precisamos interrogar o que está além da natureza, aquilo que está acima dela e que a determina. Em suma, precisamos conversar com o Autor da história."
"Você tem o fato em baixo e o sentido em cima. Você desejaria subir para este sentido. Mas onde está o elo? Em você, porque você também existe materialmente, ou seja, você é objeto de conhecimento seu, você conhece o seu próprio corpo, a sua própria vida, exatamente como você conhece a natureza."
Você conhece a realidade da sua existência, mas não o sentido dela. O sentido, é claro, faz sentido, mas você não o conhece. E a vida você conhece, mas não sabe se faz sentido. Então, você é esse elo, porque a cada instante você pode ligar a esfera dos fatos com a esfera do sentido. Como é que você faz isso? Compreendendo o sentido que os fatos impõem, não abstratamente e em si mesmos, mas com relação à sua vida histórica.
O homem que desistiu de saber pelo quê são determinadas sua vida, sua biografia, desistiu dessa vida e dessa biografia. Ele já não lhe dá mais valor, jogou-a no lixo. Agora, no máximo, ele está reduzido a uma criança que, ignorando tudo em volta, pede milagres ou amaldiçoa o destino, a sociedade, o próprio Deus; Deste ponto em diante, só um milagre, mesmo.
"Para você saber o sentido de uma coisa, primeiro precisa saber que coisa é esta. 'Que é que eu sou?', 'Onde é que eu estou?', 'Que é que eu estou fazendo aqui?' [...] Por exemplo: Você deseja realmente saber todos os impulsos hereditários malignos que herdou de seus antepassados? [...] A isto Dante chama descida aos infernos: reconhecer as possibilidades inferiores que ainda estão em você. [...] Então, se não quer, não adianta ir rezar, porque a função do Espírito Santo é revelar precisamente isso para você."
"Quando acontece uma grande desgraça, o indivíduo se pergunta 'por que isso aconteceu a mim?'. Boa pergunta, mas antes de perguntar pela desgraça, já devia ter perguntado uma série de outras coisas. [...] Na verdade, se o indivíduo passar a vida toda ignorando solenemente tudo o que se passa, quando ocorrer a desgraça ele também não vai entender, vai ficar ainda mais burro do que estava antes."
"No mundo cristão, o que não quis ver tem culpa. Sempre há uma margem de manobra: as coisas poderiam ser de outra maneira. Pode haver um desenlace horrível, mas não trágico, porque não fatal. Foi uma escolha errada. De maneira aparentemente paradoxal, a culpa restaura a liberdade, porque ao assumir a culpa o sujeito vence, de certo modo, o destino fatal."
"As pessoas que hoje falam levianamente contra o senso cristão da culpa não entendem ou fingem não entender que a única alternativa a isso é o retorno à fatalidade trágica grega onde o inocente é sempre condenado. Os inimigos do sentimento de culpa são inimigos da liberdade."
"Estudar lógica não torna ninguém mais inteligente, nem mais lógico. O que funciona é treinar o 'instinto lógico' no uso da linguagem diária. Instinto lógico é o senso da coerência entre linguagem e realidade. Nenhum manual de lógica ensina isso, mas todas as grandes obras de literatura ensinam."
"Nas situações difíceis da vida, tanto faz você estar calmo ou nervoso. O que importa é enxergar a situação corretamente e fazer o que é preciso fazer. Uns fazem isso melhor quando estão calmos, outros quando estão nervosos. Esqueça a porra do seu estado de espírito e concentre-se nos fatos."
"Quando alguém diz 'Não tenho medo', prova que está mais empenhado em tentar controlar suas emoções do que em avaliar a situação objetiva. Um guerreiro não se preocupa em medir se está com medo ou não, porque sabe que geralmente está. Ele se preocupa é em fazer o que tem de fazer igualmente bem, com medo ou sem medo."
"Se há um Deus onipotente, onisciente e onipresente, é óbvio que não podemos conhecê-Lo como objeto, ou mesmo como sujeito externo, mas apenas como fundamento ativo da nossa própria autoconsciência, maximamente presente como tal no instante mesmo em que esta, tomando posse de si, se pergunta por Ele."
