Olavo de Carvalho
Ao contrário dos líderes políticos, que fazem muito barulho mas raramente modificam alguma coisa de substantivo, o escritor, se quiser, tem o privilégio de ser um dinamitador discreto, que derruba muitos prédios em torno sem que ninguém ouça a explosão.
Para escrever com naturalidade é preciso ter sentimentos naturais e um agudo senso do óbvio, sem jamais carregar as tintas no desejo de persuadir. É preciso abdicar de toda pose, o que pressupõe não ter nenhum complexo de inferioridade a compensar. É preciso falar ao público como você fala em casa. E é preciso agradecer diariamente a Deus por ter-lhe dado um eu autoconsciente.
A atenção é a substância da identidade humana. Dominá-la segundo uma ordem de prioridades é dominar o destino até o extremo limite das nossas forças. A principal função da mídia é impedir que isso aconteça.
Um homem maduro é aquele em cuja alma todos os sentimentos e emoções — ternura, ódio, esperança, pressa, indiferença, todos eles — são balizados pela consciência da morte.
O Brasil é isso: uma engenhoca construída pelo diabo, entre orgasmos de humorismo sádico, para frustrar todas as esperanças humanas e assegurar que nenhum problema grande ou pequeno, coletivo ou individual, terá jamais solução.
A autoridade de um pai deve ser diretamente proporcional à sua capacidade de alegrar os filhos — e à sua disposição de morrer por eles se preciso.
“Respeito humano”, na linguagem da Igreja, é desagradar a Deus para não pagar mico. É o vício endêmico do nosso tempo.
Só os analfabetos funcionais confundem a precisão dos conceitos com a rigidez mecânica de alguma linguagem fixa e estereotipada. Entre a expressão viva ou até paradoxal de uma impressão e o apelo a algum chavão de compreensão automática, o escritor preferirá sempre a primeira. Eis porque os Pirrôlas da vida não podem ler obras de escritores, só manuais escolares.
O analfabeto funcional lê todas as sentenças em sentido absoluto, material e chapado, como se fossem juízos atomísticos num manual de química. É insensível às nuances, imprecisões e ambigüidades que tornam possível a linguagem literária. Objeções levantadas por um analfabeto funcional são irrespondíveis, pois versam sobre objetos da sua própria invenção, alheios àquilo que ele imagina questionar.
A impotência gera o sonho de onipotência. Todo idealismo subjetivo — sobretudo os disfarçados, tão comuns na modernidade — reflete um desejo de fugir para um mundinho da nossa própria invenção. Não me curei disso estudando, mas ficando perdido no mato por quatro dias. NADA ali era o que eu pensava.
Muitos filmes eu vejo só para tentar entender que merda esse pessoal de Hollywood tem na cabeça. É um enigma fascinante.
Gosto que compreendam as minhas palavras, e faço o possível para torná-las claras e exatas. Mas que compreendam a minha pessoa — alma e personalidade –, é coisa que não espero nem necessito. Vivi tantas vidas numa só, que quem quer que se meta a me decifrar sem equivalente experiência ao menos imaginária (adquirida pela leitura de muitos romances e biografias) vai dar sempre com os burros n’água e fazer papel de trouxa.
O critério infalível para identificar um idiota é que ele fala da espécie humana com ares de superior desprezo olímpico.
É próprio da idiotice tomar posição pelo valor nominal das causas defendidas ou atacadas, sem saber sua origem histórica, as forças políticas e econômicas que as sustentam e os planos estratégicos de maior escala que as abrangem e utilizam.
Conhecer a realidade não é espremê-la no pensável: é integrar-se nela conscientemente e de todo o coração, como o nadador que conhece o mar jogando-se nele sem medo das ondas.
Ter um “eu” é a mais alta dignidade que Deus concedeu ao ser humano. Os animais têm uma identidade, mas não uma consciência moral autobiográfica. Eles não podem contar sua história, confessar seus pecados e responder pelas suas ações.
O comunismo não é um grande ideal que se perverteu. É uma perversão que se vendeu como um grande ideal.
Nosso próprio ideal de perfeição é o grande instrumento do diabo, que com ele nos acusa, nos humilha, nos castiga e faz de nós, a título de miserável compensação psíquica, acusadores do próximo, da humanidade, do universo inteiro — pequenos diabos intoxicados de angelismo. A única Perfeição real que existe, em contrapartida, é o perdão universal oferecido com sacrifício da própria vida — não uma vez, mas infinitas vezes até o Juízo Final.
Medito constantemente a minha experiência pessoal, separando nela o que é essencial, necessário e universalmente humano daquilo que é acidental e periférico.
O fato de alguma coisa ter acontecido a você, mesmo que só a você, já prova que ela é uma possibilidade universalmente humana. Este é um ponto de partida fundamental em qualquer investigação filosófica.
O primeiro dever do brasileiro é a imaturidade. O segundo é uma pose de bom moço. O terceiro é o tom de superioridade moral sublime.
Então você deve pedir auxílio do Espírito Santo, abrir-se a Ele, humildemente e calmamente. Se você não fizer isso e continuar estudando, você ficará doido e logo começarão aparecer sintomas neuróticos e distúrbios de conduta etc. Isso eu sempre deixei claro para vocês. Quer dizer, a idéia de que a aquisição de cultura seja um bem em si, incondicional, é uma idéia maluca! Porque se a aquisição de cultura por si mesma fosse uniformemente boa, então não haveria, entre as pessoas mais cultas, os mais admiráveis neuróticos do universo. E, quando eu digo fortalecer a alma, significa o seguinte: retornar ao estado de calma e paciência que você tinha antes, quando você não tinha perguntas. Daí você começa a lançar perguntas: ‘E isto? E aquilo? E aquilo outro?’. Calma! Espere aí! No devido tempo isto lhe vai ser dado. Não é a sua mente que encontrará a resposta. Não é nunca! Isso é o próprio Deus que o guia, devagarzinho, na medida da sua necessidade e dependendo de você manter a calma e a humildade. (Transcrição)
Quem vem a você com um problema pessoal não se contenta com generalidades ou com frases da Bíblia. O que ele quer é que você penetre junto com ele na sua confusão interior e encontre o fio da meada que ele não consegue encontrar. Isso é difícil, arriscado e exige mais que cultura, inteligência e sensibilidade: exige uma quantidade de amor ao próximo que a formação religiosa usual ou um diploma de psicologia não bastam para desenvolver. Ao longo de toda a minha vida, só vi UM sujeito capaz de fazer isso: o dr. Juan Alfredo César Müller. Ver como ele sabia se identificar profundamente com as pessoas e curá-las curando-se a si mesmo me ensinou mais sobre o amor ao próximo do que tudo o que ouvi em sermões nas igrejas.
