Dádiva Vilares
Um bom poeta é desorganizado em alguma parte da vida, mas precisa de saber organizar o caos quando o transforma em poesia.
Os olhos🎭
Há olhos que parecem guardar chuva,
mesmo quando o céu está limpo.
Não dizem muito.
Mas também nunca passam despercebidos.
Alguns carregam silêncio.
Outros, perguntas.
E existem aqueles
que olham como se soubessem coisas
que nunca foram ditas.
É estranho.
Porque ninguém consegue explicar ao certo
o que certos olhos transmitem.
Ainda assim, quase todos sentem.
E então eu pergunto-te:
O que meus olhos transmitem à ti?
A arte deles
No silêncio,
eles criam mundos,
onde lágrimas caem sem ruído profundo,
mas transformam dor em algo fecundo,
e fazem do invisível o seu segundo.
São vozes que nascem na sombra,
ecos de quem nunca se dobra,
palavras que queimam e não se escondem,
memórias que sangram e não se afogam,
e verdades que na alma respondem.
Cada verso é um espelho partido,
reflexo do caos vivido e sentido,
do grito calado, mas não esquecido,
do sonho ferido, mas renascido,
do ser humano em busca de sentido.
Bob Marley foi voz e não silêncio,
foi luta, foi fé, foi renascimento,
foi reggae a quebrar o sofrimento,
foi amor em constante movimento,
foi história além do momento.
Clarice Lispector foi pensamento,
foi existir dentro do próprio tormento,
foi silêncio que grita sentimento,
foi alma em constante desalinhamento,
foi verbo que rompe o entendimento.
Fernando Pessoa foi fragmento e inteiro,
vários em si, num só passageiro,
Alberto, Ricardo, um mundo inteiro,
um ser que se fez verdadeiro
no jogo complexo do seu roteiro.
Frida Kahlo pintou a própria dor,
fez do sofrimento a sua cor,
do corpo ferido, um grande valor,
e da fragilidade… força e vigor,
do caos interno, expressão e amor.
Van Gogh mergulhou no sentir profundo,
transformou tormento em um novo mundo,
cada pincelada, um grito fecundo,
cada traço, um abismo imundo,
mas também luz em segundo.
Lupita Nyong’o trouxe presença e voz,
Chimamanda fez pensar por nós,
Malala lutou contra o algoz,
e Martin Luther King sonhou por nós,
mostrando que a coragem vive em nós.
Porque a arte deles não é só criação,
é identidade, é libertação,
é cicatriz que vira canção,
é dor que encontra redenção,
é eternidade em formação.
Eles não foram apenas passagem,
foram essência, foram linguagem,
foram ruptura, foram viagem,
foram mais do que simples imagem,
foram alma em transformação.
E nós…
somos o reflexo dessa herança,
somos a voz que ainda avança,
somos a dor que se lança
e encontra na arte a esperança,
num mundo que insiste em cobrança.
Porque no fim,
não somos apenas o que vivemos,
nem só o que aparentamos,
mas tudo aquilo que sentimos
e tudo o que deixamos.
E quando o corpo se apagar,
e o nome deixar de ecoar…
Será a arte a continuar.
O Amor Pelo Sol
O sol está lá fora, não está?
E eu fico aqui, a olhar pela janela,
Sabendo que, onde tu estás, ele brilha pra ti,
Mas é uma luz que nunca chega até mim.
Porque o sol, assim como o teu amor,
É algo que se sente, mas não se pode tocar.
E mesmo sabendo disso, sigo a esperar
Que um dia as nossas sombras se encontrem no mesmo lugar.
Eu sei, tu também olhas o céu,
E, de certa forma, estamos juntos no brilho dourado.
Mas essa distância, ah, essa distância,
Faz o amor parecer tão complicado.
Eu te envio os raios do meu pensamento,
Como um abraço quente, mas invisível.
E tu, do outro lado, sentes o meu amor,
Mesmo que o sol e eu sejamos quase inacessíveis.
Eu te amo, como o sol ama o horizonte,
Sabendo que nunca pode tocá-lo.
Fica distante, mas ainda assim ilumina.
E eu fico aqui, olhando para o alto,
A esperar o dia em que a distância se desfaz,
Quando finalmente seremos sol e sol,
Sem fronteiras, sem separação, sem mais.
A Felicidade e o Agora
Sentei-me num banco ao pôr do sol,
Com a brisa a contar-me segredos do tempo.
Perguntei ao vento, perguntei à coruja:
"Por que a felicidade é só um momento?"
Com olhos profundos de noite estrelada,
Ela sorriu na sua quietude sã.
"Tu buscas no longe, esperas no tempo,
Mas a felicidade está onde estás amanhã."
Suspirei com o peso dos dias passados,
Dos sonhos guardados num frágil baú.
Sempre esperando o dia perfeito,
Enquanto o presente se esvaiu.
"Olha à tua volta," a coruja insistiu,
"O céu se incendeia, a terra respira.
A vida acontece no agora que pisas,
E a felicidade não é mentira."
Então compreendi, com alma serena,
Que a felicidade não é um destino final.
Ela mora no instante, no riso, no afeto,
No voo da coruja e no mundo real.
