Northon Salomao
Uma Constituição é também um monumento à humildade do poder: ela nasce para lembrar ao governante que sua vontade não é a medida do justo.
O Direito iluminista não pergunta em que o cidadão deve acreditar; pergunta até onde o Estado pode obrigá-lo a obedecer.
A justiça começa onde termina o privilégio de transformar convicções particulares em deveres universais.
Nenhuma lei é verdade apenas porque foi escrita; sua legitimidade começa quando pode sobreviver ao tribunal da razão.
Se a razão pode interrogar o soberano, a cidadania nasceu; se pode interrogar a própria lei, a liberdade amadureceu.
O Iluminismo ensinou uma verdade jurídica revolucionária: o homem não existe para servir à lei; a lei existe para proteger a dignidade do homem.
Entre o altar, o palácio e o indivíduo, o Direito iluminista ergueu uma fronteira chamada liberdade de consciência.
Toda ordem jurídica verdadeiramente iluminista carrega uma suspeita dentro de si: até a lei pode estar errada quando ninguém pode questioná-la.
Quando uma sociedade proíbe a dúvida, ela não protege a verdade; protege o medo de descobri-la falsa.
A lei deve limitar o poder precisamente porque o poder sempre encontrará razões para não se limitar.
A neutralidade do Estado não é ausência de valores; é a recusa de transformar uma crença particular em obrigação universal.
O maior perigo para a liberdade talvez não seja o tirano que proíbe, mas a multidão que exige proibições em nome da própria virtude.
A lei torna-se injusta quando pretende resolver pela força aquilo que a razão ainda não conseguiu resolver pelo argumento.
Uma sociedade realmente esclarecida não teme que seus princípios sejam questionados; teme nunca mais questioná-los.
O poder político deve ser suficientemente forte para proteger a liberdade e suficientemente limitado para não se tornar seu proprietário.
A verdade não precisa de polícia; quem precisa de polícia para proteger uma verdade talvez possua apenas uma crença.
O Estado que pretende conhecer a verdade última sobre o homem corre o risco de esquecer que também é formado por homens.
