Northon Salomao

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Pensamos controlar nossas convicções, mas frequentemente são nossas paixões que lhes escrevem a sentença e contratam a razão para defendê-las.

O ceticismo não destrói o mundo; apenas retira dele algumas certezas que havíamos confundido com paredes.

Viver é agir sobre probabilidades enquanto a consciência sonha com certezas que a própria realidade não prometeu.

Adoro as mulheres; talvez por isso jamais tenha desejado submeter a liberdade do amor à arquitetura de um casamento.

O casamento é, por vezes, a tentativa de conferir eternidade jurídica a um sentimento cuja natureza é essencialmente transitória.

Há amores que atravessam os anos justamente porque jamais foram submetidos à arquitetura da permanência.

O amor nasce da liberdade do encontro; o casamento, quando mal compreendido, pode convertê-la na liturgia silenciosa da obrigação.

Prometer eternidade é uma das mais belas ficções humanas; exigir que ela sobreviva ao tempo é o primeiro confronto entre a poesia e a realidade.

O amor deseja a presença do outro; o casamento pode transformar esse desejo em uma gramática de pertencimento.

Casar é, algumas vezes, transformar a espontaneidade de uma escolha cotidiana na solenidade de um compromisso que pretende sobreviver à própria vontade.

O romantismo sonhou com a eternidade; o casamento tentou dar-lhe forma, testemunhas, assinatura e reconhecimento civil.

Há pessoas que poderiam amar-se durante toda a vida precisamente porque jamais confundiram intimidade com coexistência permanente.

O casamento não necessariamente extingue o amor; às vezes apenas substitui o mistério que o alimentava pela familiaridade que o administra.

Quando o amor necessita de garantias para permanecer, talvez já esteja procurando na lei aquilo que deixou de encontrar no desejo.

Nenhuma aliança é suficientemente sólida para vincular aquilo que pertence à região indomável da vontade humana.

A aliança no dedo pode simbolizar a permanência, mas nenhum metal possui jurisdição sobre a impermanência do coração.

O amor é uma experiência da liberdade; sua institucionalização é a tentativa humana de conferir estabilidade jurídica ao que nasceu sem contrato.

Casar é confiar ao futuro uma promessa formulada no presente, ignorando que nenhum dos amantes conhece inteiramente a pessoa que será amanhã.

Há algo de profundamente paradoxal em jurar eternidade quando ambos os amantes são criaturas submetidas à inexorável jurisdição do tempo.

O casamento tenta domesticar o acaso; o desejo, porém, conserva sempre uma parcela de sua antiga e indisciplinada natureza.

Existe uma melancolia particular na passagem do ‘quero permanecer contigo’ para o ‘devo permanecer contigo’: quando o desejo cede lugar ao dever, alguma coisa do amor se transforma.

O amor pode suportar a distância porque pertence à liberdade; o casamento, quando reduzido à posse, passa a temê-la como se toda ausência fosse uma sentença.

Talvez o casamento seja uma das mais sofisticadas invenções humanas: a tentativa de conceder permanência institucional a uma experiência cuja beleza reside precisamente em sua incerteza.

Adoro as mulheres; talvez por isso desconfie da instituição que pretende transformar o encontro entre duas liberdades em uma promessa de permanência, como se o amor pudesse ser preservado pela mesma linguagem que o direito utiliza para vincular vontades.

A razão humana é suficientemente poderosa para perguntar pelo infinito, mas suficientemente limitada para não poder habitá-lo.