Northon Salomao

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A memória é o lume secreto pelo qual o passado resiste à soberania do esquecimento.

Há ausências cuja presença é mais vasta que a de muitos corpos.

O que o amor não consegue conservar na matéria, a memória restitui como réstia.

A saudade é o eco temporal de uma presença que o tempo não conseguiu abolir.

Recordar é convocar ao presente aquilo que a cronologia condenou à distância.

Uma despedida somente se torna definitiva quando o nome deixa de encontrar morada em alguém.

A infância não desaparece: transmuta-se em paisagem interior.

Há gestos tão antigos na memória que um simples cafuné imaginado ainda restitui à alma uma espécie de eternidade.

Amar é conceder ao outro o raro privilégio de testemunhar aquilo que escondemos de nós mesmos.

A ternura é uma força sem aparato, porque sua grandeza prescinde do exercício do poder.

O afeto autêntico não calcula equivalências: reconhece no cuidado uma finalidade em si.

Há beijos que suspendem a linguagem e abraços nos quais a existência finalmente encontra abrigo.

O amor maduro não promete vencer o tempo; oferece presença enquanto o tempo durar.

Amar alguém é aprender a escutar aquilo que a linguagem ainda não conseguiu dizer.

O desvelo é talvez a forma mais silenciosa pela qual uma vida se responsabiliza por outra.

O amor começa como encantamento, mas sua verdade revela-se quando o encanto sobrevive ao cotidiano.

Toda intimidade exige a coragem de permitir que outro ser contemple nossas imperfeições sem a máscara da autossuficiência.

A paixão pode incendiar a existência; é a gentileza reiterada que consegue iluminá-la por muito tempo.

A esperança é a metafísica da aurora: afirma o possível antes que o dia possa demonstrá-lo.

Toda semente contém, em silêncio, uma hipótese sobre o futuro.

Esperar não é negar a noite, mas recusar-lhe o monopólio do horizonte.

Há quimeras que, cultivadas com lucidez, deixam de ser fuga e tornam-se direção.

O futuro é a região do tempo onde a liberdade ainda conserva alguma matéria para escrever.

Algumas madrugadas não anunciam simplesmente outro dia: inauguram outra interpretação da existência.

Recomeçar é reconhecer que nenhuma derrota possui autoridade ontológica para definir inteiramente um ser humano.