Nicola Vital
Série Minicontos
CAFÉ SOCIOLÓGICO
Todo dia àquela hora no mesmo café. Pedia pizza, saia e não comia...
FELIZ DIA DAS MÃES
Minha mãe era vaidosa, gostava de estar arrumadinha.
Toda trabalhada no ouro...
Mas, eu sempre via nela um ar de tristeza mesmo quando sorria.
O tempo passou, eu fiquei crescido e nunca perdi esse olhar.
E o tempo trouxe consigo o mal que não queria ver
Mesmo o enxergando...
Às vezes em que eu ia lá era agraciado com aquele mesmo sorriso que transitava em seu olhar tristonho.
Hoje, voltando aqui, a saudade me corrói a alma.
Não, agora eu não quero mais nada.
Apenas cinco minutinhos!
Tempo suficiente para eu poder te abraçar melhor.
Te pedir perdão pelo rosto carrancudo.
Sentir teu cheiro e agasalhar teu sorriso triste.
FELICIDADE
Acordar cedinho e tomar o café na trempe da vovó.
Olhar para o terreiro e ver o netinho rolando no relvado.
Encontrar aquele velho livro perdido.
Um banho quentinho de gamela.
O rádio tocando a música de sua adolescência.
Calçar um sapato leve e macio.
O cão brincando com o bichano.
Quebrar o balanço no flamboyant
E o joelho ralado.
Viajar, versejar
Ser gentil.
LOUCURA
Sob a cúpula, um conglomerado de pecadores bebe o sangue do perdão. Só Allonso, que não peca à vida.
Com suas leis à mão decide quem deve ou não. E, ao final da leitura, o suprassumo venda a razão ante o triunfo dos loucos.
Zicoiolo
Se não fosse tão ridículo falar de amor.
Eu iria dizer que te amo em voz alta.
É porque você não presta bem a atenção
Às vezes, eu até expresso.
Só que é tão sutil que você tropeçou.
Ora, eu sou tão intenso, tão plausível que me parece outro.
Meu exterior é norte, alegria e paixão.
Dentro de mim incauto, solidão.
SOLIDÃO.
Meu coração se fez plumas.
Percorreu os caminhos da razão, solidão.
Eu nunca ansiei afastar-me dessa pantera austera.
Nunca tive medo de me sentir sozinho, porque sempre estive ao lado dos meus demônios e guardiões.
Antagônicamente, a solitude é dor que sara!
Condição sine qua non do ser humano.
Paradoxalmente carente de afetividade
À medida certa
CINESTESIA
Os amantes pensam toda forma de amor.
Os apaixonados encontram onde não estar.
Os inocentes afagam o abstrato...
Os brutos aportam à linha tênue entre a razão e a paixão.
Os racionais?
Ah, os racionais! Usurpam e maculam o belo
Meu coração, pobre sênio abrigado nas rusgas do tempo nauragou
ONTEM
Eu não tinha o palor no sorriso.
Esse rosto tísico e olhar opaco.
Às oiças tímidas.
Nem o amargor dos lábios.
Todo o sistema religioso do homem escraviza-o através de seus dogmas.
A evidência da existência de Deus está no interior de cada "Individuo".
você é o seu maior inimigo ou protetor!
Não existe totalidade para o bem ou para o mal.
TEUS FANTASMAS SÃO MEUS:
Eu não quero que você pense como eu.
Não é sobre isso!
Eu só quero que pense comigo!
Às vezes, não suporto a minha própria companhia
E invoco meus fantasmas para convencer os seus.
Toda essa estrada que hora percorri
Em sua geometria retilínea
Na sua curvatura me perdi.
Às vezes, sou tão fútil, ingênuo!
Na maioria dos dias me olho no espelho
Mesmo naquele em que vou pintar os cabelos.
Não me reconheço e torno-me insólito.
Chego a tal ponto que preciso refugiar-me no interior de meu interior
De certo, as letras podem sim!
Além de nos afagar a alma
E nos permitir sonhar
Consentir
Matar a fome
Suprimir a miséria
Assolar
A injustiça e desigualdade
EU
Quando me preocupei com a reputação
Quiz andar somente em linha reta.
Esqueci de minha consciência e tropecei.
A reputação é problema daquele que reputa.
A consciência?!
Essa, me mostra pelo avesso.
Aquele que anda somente em linha reta
Não sente as curvaturas da vida.
Esperança é terra sem alma.
Não existe vida noturna, incentivo à arte/cultura, nenhum lugar de entretenimento.
É faca que não corta.
Talvez seja a única de todo Estado que nem água existe.
A CAVERNA DO PATRÃO
Esperança é terra sem alma.
Faca que não corta .
O distanciar da arte/cultura
Torna seus entes coxos.
Seu pensar formal
Sucumbe a sede de justiça
E a sede d'água
Coloca-a no limiar da escuridão.
Vertendo seu esperançar.
No pensar incipiente
Aquilo que não faz sucesso não é bom.
Tolice dos tolos!
Eu escrevo aquilo que me locupleta
Me faz ver a alma
Embora você não compre.
Ora, não é sobre isso.
É sobre está bem consigo
Nada mais.
Não mostre sua arte aos tolos...
São secos, sem júbilo
Esse silêncio campesino que circula minhas artérias
Mergulha à insensatez de tua inquietação urbana.
Eu, assim.
Eunuco, nulo de vendavais.
Você, rio perene,
Àrvores em bulício
Eu, viela, corrimão.
Você, veredas
Passarão.
Eu passarinho
PÁTRIA SERRA:
Na subida da ladeira dos bosques babaçuais
Vão-se os sonhos franzinos nas quebradas dos mortais
O pequeno e o menor, o que vai e o que fica
Os que descem outros que sobem como se os imortais.
Homens comendo homens feito como canibais
No cume do monte serra a pátria serra encerra
Os filhos das findas viúvas na quebranta dos cocais
De que sorte assim se faz?
Se nem ao bronco machado
Poucos sonhos se refaz
Eu tive que mudar meu poema
Vocês só compram na doçura da letra.
Aquele ardente ou amargo por si só
Não lhes é palatável.
Meu verso se parece amargo, infesto.
Para ser grande
Completo...
Deves está pequeno
Seus atos
Seus marcos
Se farão íntegros
Se o coração
É terno.
SEM RÓTULO
A minha curiosidade e atrevimento ao escrever às vezes me custa responsabilidades.
Em um dia daqueles que a gente não espera, um jovem poeta me aborda pelo Instagram e para minha imensurável surpresa me faz um questionamento.
- Eu leio seus textos sempre!
Eu lhe respondi.
- Quem bom, fico feliz por isso.
E, surpreendentemente, ele me interpela.
- Eu tenho muita vontade de lhe mostrar meus escritos mas tenho medo que detecte algum erro.
Em êxtase lhe respondi
- Eu também morro de medo do seleto intelecto corretivo da literatura comercial.
No entanto, a escrita é minha, a leitura sou eu que faço.
De certo, no universo virtual eles também me lêem, embora não me comprem
O restante é só o restante caro poeta.
A literatura comercial sob a égide de sua crítica.
Possui fins seletivo
Todo aquele que não denotar obediência à sua sintaxe.
Logo serão versos pobre.
Podendo ser comparada à arca da aliança
Ou, quiçá, a área 51
Não mostre sua arte aos tolos...
São secos, sem júbilo.
Sobre a literatura comercial, permeiam-se dois tipos de poeta e escritor.
Há aquele que reverbera o discurso em voga, cujo a crítica precisa ouvir. Hoje, por exemplo, destaca-se o discurso identitário para abrir portas. É o atalho ao púlpito dos intelectuais.
Outro, ainda que não dê vasão ao que a crítica e burguesia intelectual convenciona, possui capital financeiro podendo bancar sua obra independente. Talvez não comercial, mas igualmente palatável.
A escrita não deve complacência às convenções da elite intelectual. Ela é, em si, fomento do grito encerrado dos marginais.
MANHÄ DE DOMINGO
Sobre a mesa redonda adornada com uma velha toalha de renda vermelha
Um prato de sobremesa com arroz branco e uma pequena poção de Strogonoff.
Um sachê de algodão estéril
Dois esmaltes de cores preta e laranja.
Algumas lixas de unha e outros acessórios para adornar as unhas do mais velho.
Missangas enfeitavam as bonecas passadas da netinha.
À minha frente um copo de cristal cica amealhado de cerveja me dava inspiração.
Uma garrafa plástica de refrigerante indaiá sabor limão discretamente desamparada.
O óculos de grau redondo fechado ao centro da mesa
Paralelamente o chaveiro com a chave do carro que mais tarde levaria todos deixando a saudade e o sonho de um novo reencontro.
Era assim o domingo da vovó
