Nelson Rodrigues
Tudo passa, menos a adúltera. Nos botecos e nos velórios, na esquina e nas farmácias, há sempre alguém falando nas senhoras que traem. O amor bem-sucedido não interessa a ninguém.
Se o homem soubesse amar não elevaria a voz nunca, jamais discutiria, jamais faria sofrer. Mas ele ainda não aprendeu nada. Dir-se-ia que cada amor é o primeiro e que os amorosos dos nossos dias são tão ingênuos, inexperientes, ineptos, como Adão e Eva. Ninguém, absolutamente, sabe amar. D. Juan havia de ser tão cândido como um namoradinho de subúrbio. Amigos, o amor é um eterno recomeçar. Cada novo amor é como se fosse o primeiro e o último. E é por isso que o homem há de sofrer sempre até o fim do mundo - porque sempre há de amar errado.
Não há nada mais relapso do que a memória. Atrevo-me mesmo a dizer que a memória é uma vigarista, uma emérita falsificadora de fatos e de figuras.
Com sorte, você atravessa o mundo. Sem sorte não atravessa a rua.
Qualquer amor há de sofrer uma perseguição concreta e assassina. Somos impotentes do sentimento e não perdoamos o amor alheio. Por isso, não deixe ninguém saber que você ama.
Não reparem que eu misture os tratamentos de "tu" e "você".
Não acredito em brasileiro sem erro de concordância.
Toda unanimidade é burra. Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar.
O amoroso é sincero até quando mente.
Criou-se uma situação realmente trágica: – ou o sujeito se submete ao idiota ou o idiota o extermina.
Os defeitos existem dentro de nós, ativos e militantes, mas inconfessos.
O ser humano é cego para os próprios defeitos. Jamais um vilão do cinema mudo proclamou-se vilão. Nem o idiota se diz idiota.
Acho a velocidade um prazer de cretinos. Ainda conservo o deleite dos bondes que não chegam nunca.
A beleza interessa nos primeiros quinze dias; e morre, em seguida, num insuportável tédio visual.
Desconfio muito dos veementes. Via de regra, o sujeito que esbraveja está a um milímetro do erro e da obtusidade.
Em 1911, ninguém bebia um copo d'água sem paixão.
Cada brasileiro, vivo ou morto já foi Flamengo por um instante, por um dia.
Em nosso século, o “grande homem” pode ser, ao mesmo tempo, uma boa besta.
