Moisés Bentes

Encontrados 4 pensamentos de Moisés Bentes

Tic-Tac

Olha,
quebrando o relógio,
Picotando o crachá.
Apagando o episódio,
Indo pra cama deitar.
Quebrando o relógio,
Fugindo de lá pra cá.

E o que tiver de ser
– será?
E o que tiver de ter
– vai lá.
Não existe mais,
Não esqueça, amanhã é terça
E o tic-tac ficou para trás.

Colha
o quebrado relógio,
O picotado crachá.
O chato episódio,
Traz de volta pra cá.
É o bendito relógio
Que vai despertar.
Ou vão correr por aí;
Onde vão parar?
Quando saírem daqui,
Os que sabem cantar.
Todos de mãos dadas
Mas nada a declarar;
É um conto de fadas
Que inventaram contar.

Moisés Bentes
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Primavera de Viena


Já tive um punhado de sentimentos,
De tormentos, dividendos, mas que pena
Não soube combiná-los,
Desmembrá-los, apagá-los de cena
E perdi a amena primavera de Viena.

No olhar ficou, o cansaço brotou
E roubou a tristeza que valia a pena
Deixando na cabeça a gota serena
Um vadio coração vazio de luar.

E esperei até cansar...
Esperei tanto que já nem sei
O quanto era fácil ser um sujeito malácio,
Esquecer que apenas não passo
De um possível vicio devasso.

Moisés Bentes
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Saudade que Ficou


Se os seus olhos pudessem ver os meus olhos
Certamente choraria, certamente entenderia.
Nada passa dos dias em que viveu por perto
E ainda vive aqui, enraizado em mim.

Nunca me deixou para trás,
Mesmo quando a guerra já estava perdida.
Nunca se mostrou incapaz,
Mesmo quando minhas verdades[
eram uma grande mentira.]

Nunca deixou de semear girassóis,
Ainda que eu escolhesse andar por campos de sal.
Nunca ignorou a minha incompreensível voz
E sempre conseguiu me fazer pintar o bem[
da mais espessa sombra do mal.]

Se saudade é amor que fica,
Onde ficou a alegria?

Moisés Bentes
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Parte de Mim que Morreu


Há uma parte de mim,
um mistério, impropério em mim
que me flui como água,
onde o teu corpo nada
e acaba se misturando ao meu.

Há um bocado de mim,
multidão, uma confusão em mim
protestando pelas praças,
deixando um eco por onde passa;
por causa do teu adeus.

E não há sentido maior;
não há covardia maior.
do que se esconder em palavras,
mas quando os gestos viram farsas
não há nada mais vivo que o amor que morreu.

Moisés Bentes
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