Miguel Espinoso
Perguntaram-me o que é arte. Ouviu-se de mim silêncio; não um, mas o silêncio, do tipo que tanto tememos, mas que, por vezes, é a única resposta que temos.
O mesmo silêncio que preenche o universo em que vivemos, que se esconde nas palavras que não dissemos, que, como um véu, cobre a pureza das estrelas. Sim, foi este o meu silêncio.
O mesmo silêncio de uma árvore que tomba no deserto, sem ninguém para escutá-la; o silêncio que faz da arte, arte para nossas almas.
A arte não pode ser definida, deve-se ser contemplada. Por isso, ouviu-se de mim o silêncio, pois...
Como hei de explicar a arte?
Era eu o sol da minha própria existência.
Era minha dor tão profunda quanto o oceano,
e minha insegurança tão vasta quanto o céu.
Mas tornaste tudo isso pequeno.
Chamam de corajoso o poeta que despiu
sua alma e conseguiu expor algo formoso.
Eu o chamo de louco!
Se sou uma carta, prefiro
que minhas linhas permaneçam em anonimato;
afinal, conheço meus pecados.
Fui, no entanto, até em entrelinhas, lido pelo Senhor;
versos que nem mesmo em um ímpeto de coragem
haveria escrito, em seu coração
se fizeram conhecidos.
Nem de tudo que leste te agradaste.
Encontraste falsidade, mentira, preguiça e ironia;
ainda assim, destes garranchos que sou,
fez poesia.
