Miguel Espinoso
Perguntaram-me o que é arte. Ouviu-se de mim silêncio; não um, mas o silêncio, do tipo que tanto tememos, mas que, por vezes, é a única resposta que temos.
O mesmo silêncio que preenche o universo em que vivemos, que se esconde nas palavras que não dissemos, que, como um véu, cobre a pureza das estrelas. Sim, foi este o meu silêncio.
O mesmo silêncio de uma árvore que tomba no deserto, sem ninguém para escutá-la; o silêncio que faz da arte, arte para nossas almas.
A arte não pode ser definida, deve-se ser contemplada. Por isso, ouviu-se de mim o silêncio, pois...
Como hei de explicar a arte?
Quero espaço.
Espaço para mim.
Espaço onde há liberdade
para eu existir.
Quero escrever o que minha alma grita,
sem me preocupar com métrica
ou rima.
As estrelas se alinham
e formam constelações,
mas há um universo de distância entre elas, para que tenham espaço
e brilhem.
Quero espaço para brilhar.
Espaço para respirar.
Espaço para me amar.
Mas sou brinquedo
das suas carências.
Há um mundo fora do meu quarto,
mas não minto quando digo
que há outro dentro dele.
Me dê espaço.
Permita que eu escolha
o filme que vou assistir.
Deixe minha liberdade
existir.
Me dê espaço.
Era eu o sol da minha própria existência.
Era minha dor tão profunda quanto o oceano,
e minha insegurança tão vasta quanto o céu.
Mas tornaste tudo isso pequeno.
Chamam de corajoso o poeta que despiu
sua alma e conseguiu expor algo formoso.
Eu o chamo de louco!
Se sou uma carta, prefiro
que minhas linhas permaneçam em anonimato;
afinal, conheço meus pecados.
Fui, no entanto, até em entrelinhas, lido pelo Senhor; versos que nem mesmo em um ímpeto de coragem haveria escrito, em seu coração se fizeram conhecidos.
Nem de tudo que leste te agradaste.
Encontraste falsidade, mentira, preguiça e ironia; ainda assim, destes garranchos que sou,
fez poesia.
Brasil de quem?
Ora, de quem eu não sei, mas é meu também.
Meu Brasil, brasil do golpe, da ditadura, brasil de Vargas, mas também Brasil de Eunice, mãe amada
brasil com o solo manchado de vermelho, mas também regado pelas lágrimas do brasileiro. Sim, país de muitas desigualdades
mas pertencente a um Povo resplandecente, que em meio a tanta dor, encontra espaço para um sorriso
Dizíamos na segunda guerra que "A cobra vai fumar", sim, mesmo lá tinha espaço para nosso riso
Povo amado que tanto valorizo, Povo que torna do Brasil brasileiro.
Deus brasileiro, que não nasceu em palácios
ordenados a ouro, mas em um simples celeiro;
aquele que não se ausenta da alegria, mas que, enquanto seu povo canta, dança.
Sim, mente por detrás do universo, que, para si, ser grande não é mais do que um simples reflexo, mas que, mesmo assim, se fez pequeno e andou entre nós, os perversos.
Deus brasileiro, que sorri para um sorriso
banguela, que, para o tupi, é anga, que, do órfão, é lar.
Leão que não nos preza, porque somos filhos de sua reza. Sim, a este Deus brasileiro, que nasceu na simplicidade de um celeiro, me fiz poeta.
Memórias póstumas e sua beleza
"Tempo que foi, não volta. Tempo que vem, mas que nunca chega.
Tempo que tudo leva e nada deixa; nada além de memórias póstumas e sua beleza. Tarde demais nos ensinou a amar, tarde demais nos ensinou a aproveitar.
Segundos parecem tão pouco, mas daria algumas décadas para ter de volta um segundo do seu riso. Lembro do gosto do seu bolo de trigo. Fui a um excêntrico chef em Paris, mas ele não conseguiu replicar o gosto daquele bolo.
Talvez não se trate de gastronomia. Talvez sejam suas mãos, mágicas e cheias de amor. Seja o que for, nada me trará novamente aquele sabor. Tentei ir a um show de humor, mas nem mesmo a melhor piada já contada me faria rir como você me fez.
Talvez, um dia, eu ame, delire de amor e escreva versos apaixonados.
Mas nenhuma amante poderá me presentear com os seus cuidados. O seu colo era um lugar sagrado, onde, em questão de segundos, o homem virava outra vez menino. Sinto falta daquilo.
Ah, tantas palavras que gostaria de ter dito, mas que hoje são só versos escritos; doce delírio da eternidade, em que, mais uma vez, encontrarei seu riso, em que, de novo, teremos aquela tarde com café e bolos de trigo, onde serei, novamente, o teu menino.
Teu doce e distraído menino.
Amo-te. Sonho que saiba."
Miguel Espinoso
Busque-me, discípulo
acha-me naquela estação
entre inverno e verão
Ama-me como uma noiva
recém casada; aonde foi
o teu amor?
Enxerga-me outra vez, como
pôde se esquecer? Com os
teus olhos, jamais irá me ver.
Enxerga-me, pois, de olhos fechados.
Procura-me ver, com o teu coração
e me verás novamente, sentirás outra
vez.
Em sua nudez eu não aponto para a tua vergonha exposta, mas cubro-a com novas vestes, vestesde linho branco. Duvide de reis, questione governos, não acredite em tudo que se ouve
Mas como podes duvidar do meu perdão? Como podes questionar meu amor? Como pôde, se esquecer da cruz que tornou do órfão, mais uma vez, filho?
Permita-me cativar-te, não te escondas de mim.
Revele-se, confesse... pois sou o amor restaurador, e desde que encontrou meus pés, esse meu amor
Te encontrou.
