Marcelo Caetano Monteiro
" Tudo caminha para o pó. Mas há dignidade em caminhar. Há beleza em aceitar que a luz pode ser baixa, que a voz pode ser suave, que a esperança pode ser sussurro. "
" Sou manuscrito do invisível, rascunho do eterno, página onde o indizível insiste em tornar-se palavra. "
"O calor que emana da beleza não é físico, é ontológico, nasce do encontro entre o olhar e o eterno."
" É na estesia do adeus
quando a voz se ergue como quem sabe
que cada palavra é um sopro cortado que
o silêncio ajoelha-se. "
" A caridade, se adiada, converte-se em omissão. "
Frase da personagem Cladissa , livro 59 - De: Marcelo Caetano Monteiro.
" O sofrimento não é acidente periférico da existência, é a sua tessitura mais constante, porque desejar é carecer e carecer é padecer. "
" A vida não se nos oferece como promessa de júbilo, mas como exercício contínuo de resistência ao querer que nos impele e, ao mesmo tempo, nos exaure. "
" Toda alegria que julgamos possuir não é o intervalo entre duas necessidades, o homem lúcido que aprende a não absolutizar o outro num instante que o consola. "
" O caráter humano revela-se menos nas horas de euforia e mais nos momentos em que o mundo lhe frustra as expectativas. "
" Quem busca no mundo a plenitude encontrará apenas reflexos imperfeitos de um anseio que jamais se aquieta."
" A maturidade espiritual começa quando o indivíduo reconhece que o contentamento é breve e que a serenidade nasce da contenção do próprio ímpeto. "
ANJO SEM ASAS DORMIU EM MINHA CASA.
Um anjo sem asas dormiu em minha casa.
Não trouxe claridade. Trouxe consciência.
Entrou como entra a ideia amarga que não pede licença.
Sentou-se no chão frio da sala antiga e ali permaneceu, como se o próprio existir fosse um fardo demasiado grave para qualquer criatura alada.
Não possuía asas porque compreendera o peso da Vontade que governa os seres.
Essa força obscura que impele ao desejo incessante.
Que promete satisfação e entrega apenas breves suspensões do sofrer.
Ele sabia.
E por saber, tornara-se grave.
Dormiu encostado à parede onde a tinta descasca como a esperança quando se descobre ilusória.
Seu rosto tinha a palidez das madrugadas em que o pensamento não encontra repouso.
Era belo como um lamento.
A casa inteira silenciou-se.
O relógio pareceu envergonhar-se de contar o tempo.
As sombras alongaram-se como espectros convocados por uma consciência demasiado lúcida.
Aproximei-me dele.
Seu sono não era descanso. Era desistência temporária do combate interior.
Respirava como quem tolera a própria existência.
Compreendi então que toda alegria é negativa.
Não é presença de algo. É apenas ausência momentânea da dor.
Um intervalo microscópico entre duas inquietações.
O anjo, ainda que adormecido, ensinava-me sem palavras.
Mostrava que o querer é a raiz da inquietude.
Que desejar é cavar abismos sob os próprios pés.
E que o mundo não foi feito para satisfazer, mas para reiterar a falta.
No entanto havia ternura em sua decadência.
Uma ternura trágica e quase litúrgica.
Como se dissesse que, apesar do absurdo, resta a compaixão.
Não a compaixão sentimental.
Mas a que nasce do reconhecimento de que todos somos arrastados pela mesma força cega.
Sofremos não por exceção, mas por estrutura.
Na madrugada mais densa, toquei-lhe os cabelos.
E senti que o verdadeiro voo não é subir aos céus.
É calar o querer.
É diminuir a tirania dos impulsos.
Quando o dia insinuou-se pelas frestas da janela, ele já não estava.
Não deixou perfume nem luz.
Deixou lucidez.
Desde então minha casa tornou-se uma espécie de cripta interior.
E toda vez que a solidão pesa como chumbo na alma, recordo que um anjo sem asas dormiu aqui.
Ele não veio salvar-me.
Veio ensinar-me que a consciência é o mais lúgubre dos dons.
E que amar, neste mundo, é aceitar o outro como companheiro de um sofrimento que não escolhemos, mas que nos constitui.
Se desejares, posso aprofundar ainda mais a atmosfera fúnebre ou conduzi-la a um desfecho metafísico de resignação.
"A manhã não inaugura a felicidade, inaugura a luta. Ainda assim, há nobreza em decidir que o próprio sofrimento não se converterá em acrimônia, mas em discreta benevolência."
