Luiz Roberto Bodstein
Não há nada mais lamentável e irritante do que a ignorância em todas as suas formas. E isso não deixa de fora nem mesmo a que trazemos conosco. Ao contrário: ela se mostra acrescida de um peso extra, pelo menos para qualquer pessoa que tenha desenvolvido um mínimo de auto-consciência!
Ingenuidade? Esse não é o refúgio da inteligência. Hermetismo? Menos ainda, pois que revela a limitação própria dos arrogantes. Entre a credulidade e o ceticismo é que as verdades do universo buscam abrigo, pois a lógica cobra análise antes de aceitação, e a rejeição ao improvável não se justifica por crenças instaladas ou pela ausência delas. Ninguém sabe o bastante para transformar seu pensamento unicelular no resumo do Cosmos.
Nada mais incoerente que supor uma inteligência onipotente e onisciente gerando outra tão limitada e arrogante a ponto de se ver criada à sua imagem e semelhança.
Ao constatar minha morte os médicos correram contra o tempo para doar meu coração. Mas ao abrir meu peito o que encontraram foi um pedaço do Rio iluminado pelo sol e onde ainda se ouvia, em lugar do pulsar, o bater de suas ondas!
Há mais o que temer nos que possuem o domínio da verdade do que nos que acreditam em qualquer mentira.
Qualquer modalidade de manipulação é desonesta e indigna, não importa se disfarçada ou feita às claras. Entenda-se por manipulação a indução de outrem a fazer o que não deseja mesmo em nome de um suposto benefício, como a aproximação de pessoas que só é vantajosa para um dos lados. Esse tipo de artifício – conhecido por “armadilha” – não está buscando levar um bem aos envolvidos, mas atender um interesse pessoal onde o manipulador é que se vê desconfortável se mantida a situação vigente, enxergando no resultado de sua ação um duplo ganho: resolver o próprio problema e ainda passar por “bonzinho”!
Revolta gera extremismo. que gera polaridade e esta resulta na idéia irracional de que, para se ver livre de algo ruim, se precisa abraçar outra igualmente péssima. Age-se como se o peso exagerado de um dos extremos só pudesse ser compensado com outro idêntico mas do lado oposto, repetindo a lei de Newton de que a toda ação corresponde uma reação igual e contrária. Só que essa regra se aplica a uma lei da física, e o cérebro dessas pessoas reage exatamente como uma matéria inerte ao invés de um órgão autônomo provido de inteligência.
Trata-se de uma lei natural: seja no âmbito da vida política ou na pessoal, a oposição exerce um papel primordial no equilíbrio de forças que se opõem. Na ausência desta a situação assume todas as prerrogativas da autocracia que a ausência de resistência lhe franqueia, cobrando a ingerência de forças externas para o resgate da sensatez e da ponderação. O problema é o desgaste levado à rotina de quem se propõe a cumprir o papel do interventor, levando-o a questionar se deve comprar uma briga a que não deu causa mesmo sabendo que, direta ou indiretamente, acabará afetado por ela.
Todo aquele que coloca a verdade à frente de seus passos terá o mundo inteiro contra ele, pois que não finge ser o que não é, nem finge acreditar no que os demais fingem ser. A humanidade se esmera no uso de suas máscaras, e declara guerra aberta a quem não se deixar enganar por elas, expondo a face que ela faz de tudo para esconder. Que não se diga então que apenas a verdade grosseia incomoda: por mais delicada que se faça, a simples rejeição à mentira já dá causa a sistemático combate pelos que têm nela sua maior aliada.
Para aquele que crê somente naquilo para onde sua razão o conduziu, é inquestionável o momento de se deparar com algo que seu ceticismo vai negar sem lhe dar argumento para contradizer, sua lógica irá rejeitar sem uma explicação para colocar no lugar, seu modelo do real buscará referência na lista do conhecido e ali não a poderá ver, e o mental buscará a resposta em seu sistema de crenças e nenhuma se encaixará. Restar-lhe-á então a reação da criança que, nada podendo fazer com o que tem à sua frente, tapa os olhos diante do inefável.
– Eu não estaria aqui agora não fosse alguém se ter posicionado contra os seus para livrar-me do abismo em que eu mergulhara.
– Alguém que se coloca contra a própria família para defender um estranho não me parece uma pessoa confiável!
– E você supõe confiável quem se apóia no sangue para fechar-se à constatação da ignomínia?
Surpreende sempre, aos demais e a ti próprio, colocando-te como um camaleão frente à vida! Se fazes de teus dias uma rotina que não se altera, te transformas em pesado compromisso para os que te cercam, e esvazias o sentido do existir para ti mesmo. O encanto só se instala quando te renovas continuamente. A única coisa que não requer mudares é o teu caráter.
Um país dá início ao seu processo de autodestruição quando troca o sentido de nação pelo de estado, com a massa crítica que brotava de dentro pra fora cedendo lugar ao estabelecido de fora pra dentro. Sabemo-lo quando seu povo abdica de sua visão analítica para integrar hordas de convertidos. O aniquilamento de sua unidade natural extirpa a visão sistêmica que o livra dos extremos, e é quando numa mesma família se vê membros da esquerda radical e da extrema direita se enfrentando sem se dar conta de que cumprem uma agenda onde autorizam seus lideres a fazer qualquer coisa. Nela o conceito de certo ou errado quebra o elo com ações do agente para ser automaticamente encaixado no do “nosso certo” e do “errado deles”.
Não espere que pessoas lúcidas e sensatas também não cometam falhas pelos motivos mais idiotas ou até ridículos. Mas se precisa de uma referência para usar como termômetro, as que o fazem por falta de caráter nunca ficam vermelhas.
Seu bem mais sagrado é sua Liberdade, e a única corrente a que ela deva permitir ser atrelada é sua consciência!
A resistência automática a grupos fechados e "ismos" é baseada no entendimento de que a única orientação de que se precisa é Consciência e Ética. Todas as demais se prestam a realizar algum tipo de lavagem cerebral. Não importa o que defendam ou disfarcem, o essencial é não ser influenciado por nenhuma que não fale de coisas que nos brotaram por si mesmas. Por mais quimérico que se mostre obter 100% de certeza em qualquer assunto, o melhor a fazer é partir da premissa de que ninguém faz sua cabeça com verdades prontas, e escolher construir a sua questionando tudo, de Deus ao Diabo, do tangível ao imponderável.
Quem se ocupa em mostrar "verdades" aos demais não está enganando a ninguém mais do que a si mesmo, pois que o sentido de “verdadeiro” é tão subjetivo quanto o de falso, e convicção plena não existe, sendo necessário que cada qual adquira a sua e ainda assim correndo o risco de descobri-la equivocada em algum momento.
O mais primário dos direitos é o da escolha, daí porque deve ser preservado a qualquer custo e duramente combatido nos que se apossam da prerrogativa de fazê-lo por você. Errado ou não, seu livre pensamento é o maior dentre todos os direitos do homem e do qual ninguém – literalmente NINGUÉM – deve permitir ser privado. Daí porque qualquer indivíduo que afirme respeitar a essência do ser vai entender o significado de “fazer cabeça” como a mais torpe das interferências – não importando se na posição de agente ou paciente – e das mais desprezíveis nas relações humanas, pois que afronta a dignidade individual das escolhas, e se constitui no maior insulto que se pode impor à inteligência humana.
Aprender com o que nos chega e permanecer aberto para transformar cada agente que o possibilite em instrutor natural é indispensável ao crescimento, mas separando-o bem de direcionamento, o que é inaceitável. Apenas incapazes precisam ser direcionados, e toda resistência absoluta a sê-lo não se confunde com hermetismo cognitivo ou arrogância de quem se acredita dono da verdade. A todos os que vêm na dádiva do pensamento seu bem maior e inalienável, tudo o que ameace sua autonomia deve ser visto como ingerência máxima dentre todos os tipos de controle, e a forma mais espúria de atentado à sua liberdade.
Duvidar do desconhecido que se mostra improvável é mais do que razoável. Mas duvidar do constatável por meio simples, sendo impedido apenas pelo ceticismo de quem se acredita no domínio do conhecimento, não difere em nada do ignorante absoluto. São apenas duas faces de uma mesma moeda onde uma exibe uma imagem e a outra apenas uma face vazia.
Qual o propósito da existência? Eu apostaria na lei da compensação que Buddha chamou de "caminho do meio", alguns de "lei do retorno", e outros de "princípio da ação e reação", mas onde tudo se resumiria à busca pelo ponto de equilíbrio levado ao físico, ao mental e ao espiritual. Se comeu em excesso num dia, faça jejum no outro; se foi tomado pela cólera numa determinada hora, concentre-se em meditar na próxima; se atingiu alguém com suas ações hoje, ao nascer do sol conscientiza-se e peça desculpas; se foi atingido em sua auto-estima em algum momento, no seguinte se imponha de forma a que não o repitam. Tal sentido de vida não se inspira em crença, mas na lógica de pontos equidistantes que não nos colocam acima ou abaixo, nem à direita ou à esquerda, mas no único lugar que nos mostrará o porto seguro situado entre os extremos. Essa é a posição onde apenas SE É, pura e simplesmente. Nas demais só se poderá ESTAR, e em nenhuma delas você se encontrará naquela à qual realmente pertença.
Bem mais importante que te dispores a conhecer o mundo à tua volta, essencial é explorares o universo que existe dentro de ti mesmo!
Se você continua figurando entre os contatos com livre acesso ao que publico saiba que não é por acaso. Eles jamais são escolhidos por critério de quantidade, mas de qualidade: ou integram o grupo dos que possuem um espírito tão libertário e combativo quanto o que trago em mim, ou o tem tomado por uma natureza tão íntegra que lhe permitirá um dia transformar-se em alguém que o possua, ou então compõe o grupo dos que não despertaram e até mesmo nunca o farão, e daí precisa saber que existem muitos opondo incansável resistência ao tipo de idéia que você defende!
O que muitos não conseguem entender é o parâmetro que diferencia o libertário dos que nunca chegarão a sê-lo. Por definição, ele não é uma dessas pessoas que aceitará o mundo como o encontrou, principalmente quando agride princípios e valores norteados pelo bem comum, dos quais deve ser parte indissociável. Assim, enquanto seguir buscando pelo lhe dê alguma vantagem sobre seus iguais, não será um deles, pois que a liberdade nunca será privada, e só se faz legítima quando estendida a todos. E não lhe será exigido abrir mão de sua humanidade para sentir-se “a caminho da iluminação”, podendo conviver com seus múltiplos defeitos desde que entre eles não se inclua o de tentar prejudicar outro ser vivente, nem o espaço ocupado por eles para usá-lo em conformidade com o que seja melhor para ele próprio.
Algumas pessoas já nascem sensíveis, ou conseguem desenvolver sua sensibilidade à medida em que se descobrem apaixonadas pela vida. Outras nunca o serão, ainda que gastem suas vidas tentando projetar essa imagem aos outros, ao confundir sensibilidade com a natureza meramente biológica da inteligência. Estas quase sempre verão nas primeiras apenas figuras “esquisitas”, o que não altera nada em suas essências pois que – como já sabia Giordano Bruno em sua época – a verdade não muda porque se acredita ou não se acredita nela.
Passei décadas de minha vida tentando levar meu melhor a todos à minha volta até constatar que só viam meu lado pior para poder criticá-lo como se aquilo fosse o que eu realmente era. Até que parei de tentar convencê-los do contrário ao descobrir que esse contrário ao que eles queriam sempre havia sido como eu deveria ser.
Passei muito tempo me culpando por não conseguir devolver o gostar de alguém que demonstrava me colocar acima de qualquer outra pessoa, até me perceber preferindo aquelas que estendiam seu amor a todas as outras, pois quando o direcionam apenas a mim não é porque sejam realmente boas, mas por querer exercer egoisticamente o seu direito de preferência.
Toda tecnologia à frente de seu tempo é retratada como milagre e, com muita frequência, até fantasias e mitos do folclore popular recebem mais credibilidade que fatos reais apenas por se mostrarem mais conhecidos ou comuns. Não raro escolhe-se aceitar a existência de fantasmas e negar o que é possível provar por simples aplicação da lógica.
