Joni Baltar

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Afixo as Minhas Âncoras

Atolado na indecisão
navego na deriva
de um mar indigesto.
Repleto de sais e dúvidas
esta ondulada hesitação
move o êmbolo da minha nau.
No alambique da minha pele
escorre o poema que perdi.

Grita o vento no íntimo da noite,
desflora o silêncio.
O desembarque das tempestades
arrefecem as estrelas
- saboreio os astros que iluminam
as débeis praias;
afixo as minhas âncoras
nos areais onde severamente
se acomodam as civilizações
nesta esfera pintada em tons de azul.

Inserida por JoniBaltar

Acrostico Conceição

Confluência tectónica dos verbos
Oriundos dos parágrafos da estratosfera
Nessas artérias latejante e saciadas
Cada pulsação grita o vermelho cereja
Entorna-se a polpa do poente
Intempérie de beijos feéricos
Conspiram as árvores no conjugal vento
Análogo à escravidão oceanica dos desertos
Onde o amor derrama a sua essência

Inserida por JoniBaltar

Acróstico Susana

Sorvo o fundo dum enxuto poente
Uma claridade remendada por dentro
Saborosa e cosmicamente luarenta
Abastece o palato do meu poema
Nas horas inclinadas do horizonte
Arrastado pela surdez púrpura dos verbos.

Inserida por JoniBaltar

Calafetado Poema

Os cílios cerrados do agudo penhasco
derramam lágrimas de vento e granizo
no terreno arborizado dos cinco sentidos
antes do combate entre a fecunda existência
e a íntima e persistente irrealidade.

O declive inalterável das horas abana os dias
onde os vagos versos caídos no calafetado poema
não dizem uma sílaba: escorrem as dores mudas do Amor.
No leito fundo do meu coração de carne
Navega, à bolina, a intrépida canção da sereia.

Inserida por JoniBaltar

Caminho do Amor

No sabor salgado da pele
molhada de coral e algas
transparece a colorida emoção
salpicada de búzios que abraçam o vento.

Nos areais e enseadas luarentas
deposito a minha alma no teu colo
refresco-me na tua boca
bebo o teu sentir de mim.

Mãos percorrem gemidos arfantes
navios naufragados adormecem
nos teus olhos em ecos de sal
o ar respira as entranhas do sossego.

Abismo opaco pula segredos
escondidos no vazio causticante do medo
onde os mais humanos não sucumbem
e fielmente seguem o caminho do Amor.

Inserida por JoniBaltar

Comportamento Disruptivo

Pássaros descalços
deslizam na parede
de papel semi-viva.
Réstias e modéstias
sobre o excessivo
equilíbrio das palavras
revelam a indumentária
da sustida pontuação.
A dissimetria dos meus sentidos
a despolarizar o quotidiano
neste comportamento disruptivo.
Ouço as folhas convolutas
dos irredutíveis plátanos
e entrego a minha sépia solidão
à superfície do Outono.

Inserida por JoniBaltar

Corroído Sonho

As colinas descansam
nos braços estéreis da madrugada.
No sono das mágoas perdidas
das memórias estranguladas
pela escuridão desgastada
rompe-se a voz do crepúsculo matinal.
Desço os degraus das rememorações
defronto-me com a miragem incandescente
e gravitada de um sonho inacabado.
Agarro-me aos densos fios da alucinação
que a demência expulsou na sentença da mente.

Nos confins do aguçado silêncio
respiro a luz viva do teu olhar.
No beco das horas esmagadas
dissolvem-se os anseios das quimeras.
Na enorme e robusta vontade de tocar-te
dispo os meus versos no teu corpo.
Num acto inconsciente de paixão e desejo
as nossas bocas envolvem-se enfeitando o nosso abraço
- sigo este sentimento-
desnudo a felicidade: escondida neste corroído sonho.

Inserida por JoniBaltar

Despi o Teu Sentimento

Na alameda da tua tela
estavam árvores a murmurar.
Entregues ao lampejo das tuas mãos,
deslizando nas tonalidades das estações
da imprescindível paixão.
Despi o teu sentimento: e desnudo fiquei.

Inserida por JoniBaltar

Infinita Filosofia

Somos uma colectividade humana
que vive na descoberta da realidade
numa individualidade solidão despercebida.
Este desafio errante de realizar o sonho
sem utilizar o coração nem a alma
sustentando apenas o corpo na utópica
esperança de uma congregação de anjos
sob a deturpada harmonização de sentimentos.

A felicidade não se carrega aos ombros do coração
porque é uma pluma de intensa luz, desconhecida
aos olhos do imenso mundo que embala a humanidade.
Misturam-se as impulsivas lágrimas à senilidade
contagiando o que resta da invisibilidade dos longos anos
despertando o arrependimento que esfarrapa a consciência
como um cão abandonado que procura o jardim do paraíso.

A incrédula infinita filosofia que descarna a profunda
força: produzida pelo silêncio das palavras ocultas.
Talvez o acto de pensar seja a cura para a camuflada loucura.
Não tenho asas, mas consigo voar entre os céus estrelados.

Inserida por JoniBaltar

Fiel Solidão

Sinto as retinas repletas
de ilustrações vivas,
que pulam na minha carne.
Deslocam-se subitamente
nas minhas veias
ao sabor das visões da memória.

Fiz-me refém
neste ponto de tempo.
Sequestrado pela sombra do silêncio
abandonado por mim,
desvalido e requisitado
pela irreversível circunstância.

Agradeço-te fiel solidão.
Quando todos partiram,
tu nunca me abandonaste.

Inserida por JoniBaltar

Fomos Todas as Partes do Amor.


A manhã fugiu da minha boca
para a tua boca.
A tarde pulou das minhas pupilas
para as tuas pupilas.
A noite voluptuou-se do meu corpo
para o teu corpo.
Nesta constante dupla infusão
fomos todas as partes do Amor.
E no peito das nossas almas
existe uma certeza: em todas as vidas.

Inserida por JoniBaltar

A Boca

Da boca saem múltiplas palavras
discursos vãos: vão-se e já não voltam.
Na boca refreiam-se palavrões
contidos no palato
e livres, aos pulos, no pensamento.
De boca em boca tentam os beijos
empoleirarem-se,
apertados ou indecisos,
a querer nidificar o silêncio
ou o gemido que desfolha a pele.
Antes que a noite comece a salivar
vamos amarrar as nossas bocas
até que os nossos corpos se calem.

Inserida por JoniBaltar

Guitarra à Luz de Velas

O amor é uma nua canção
dividida em curtos fados
pela súmula pulsante do coração
que se ouve nos mares cansados.

No estreito silêncio das flores
murmura o pólen das pétalas
desfolhadas pelos acordes indolores
no rosto duma guitarra à luz de velas.

As arcadas cegam os claustros
que sustêm as paredes calcinadas
das celestes melodias dos astros
cantadas no sangue da madrugada .

Move-se pelo esquecido poema
a voz calada do poeta
propaga a luz verbal do fonema
na elíptica cauda do cometa.

Inserida por JoniBaltar

Na Têmpora do Fado

Dentro da voz
desata-se o fado
desamparado,
distópico, tão-só:
enxuga as feridas
abertas dos versos.


Ao colo da guitarra
rasteja a parafina madrugada.
Nos dolentes candelabros
escorre o atávico poema
na têmpora do fado
dos facultativos paradoxos.

O inábil silêncio ocultou-se
atrás dos poros do fado,
ouve-se a cor da noite
a cantar a idónea
leveza da existência
e a caridade da morte.

Inserida por JoniBaltar

Mar Ferido de Amor

O refluxo de correntes e marés
em vagas esbatidas pelos ventos.
Nas amplitudes frágeis dos horizontes
cega-se o corpo em espuma de sal
na entrega absoluta do mar ao luar
onde naufragam as almas aos céus.

Remos que remam a distância
em louvor às entranhas do silêncio.
Navegam as sentinelas dos astros
no nevoeiro insípido e rouco:
chora este mar ferido de amor.
Depositando o seu pranto nos areais
e regressa ao mergulho profundo
das suas lágrimas.

Inserida por JoniBaltar

Motim Plumitivo

A imortalidade é uma infinita solidão.
É necessário morrermos muitas vezes
para inferirmos que o íntimo da Vida
é um ápice cintilante, e renasce a cada instante.
As quatro subdivisões do ano morrem profundamente
no colo do mundo. Ressuscitam os seus padrões
climáticos pelas formas do sentimento:
perfumes melódicos que revelam o mundo interior
das almas. À superfície de um lúcido minério
todas as existências são instintivamente sublimes.
As pétalas da consciência coabitam os pensamentos
torturados pelas noites geladas dum solitário poema.
E assim permanece o motim plumitivo:
que escorre da minha pena.

Inserida por JoniBaltar

Molécula do Amor

Este sintoma que atormenta
o sono e o apetite: insónias e mariposas.
Provocam arrepios de porcelana
e sobressaltos nas artérias
preenchem todos os orgasmos
com metáforas de voluptuosidade.
Fragmenta a dor nos labirintos da carne
desperta o arrebol escancarado
iluminando a escuridão incolor do vazio
fermenta a cadência do infinito sonho
alucina a concentração das pupilas.
Rodopia a sístole e a diástole
organizam um bailado de pensamentos no estômago.
Neste estado de imperfeita salubridade
e de perfeita insanidade
movimenta-se a molécula do Amor
na anatomia do poema.

Na Estratosfera do Meu Pensamento

Na estratosfera do meu pensamento
existe a temperatura sensível de um rosto
uma mulher espargindo melodias de prata
desloca-se na diligência do tempo sob ritmos cósmicos.
As luzes suaves da memória aclamam os braços
dos cânticos do passado. Por esta porta imutável
ardem os festejos da inocência que se apagam
ao som da voz distorcida da existência.

Dentro do peso do silêncio mendigam os segredos
mergulhados no abrigo de um grito perfumado
no íntimo demente duma neblina transparente.
No resgate da ofegante eternidade que
os meus olhos já não distinguem: flutuam os caminhos
entre a realidade que não existo e a inverdade em que morri.

Inserida por JoniBaltar

O Mar Traz-me o Teu Beijo

Não vou à terra estranha de mim
vou vazio de espera e condenado
de esperança
o horizonte puxa a minha estrada.

Todas as estrelas apagaram o sonho
envolto no teu cheiro a atestar
o meu pensamento
o meu coração enuncia as lágrimas.

Não me deixam ficar
sem pão e sal
rebento o momento
escorrem lembranças
que alagam as horas
neste exprimido suspiro
queima o silêncio
escuto os meus passos
cingidos pelo vento
perto da distância
longe da tua boca
os dias não amanhecem
as noites não adormecem
suavemente abre-se a janela
e o Mar traz-me o teu Beijo.

Inserida por JoniBaltar

Oscilam os Poros

Fascina-me esse teu sabor,
inebriante paladar
tingido por ardentes aromas.
Mergulhas na minha alma
compondo as sinfonias do meu corpo.

Infusões vegetam o luar
e escorrem a seiva do delírio.
Oscilam os poros
eflúvios odorantes.
Sustentam ofegantes gemidos,
ricocheteiam nas paredes do palato
e adentram nos uivantes lençóis.
Afundamo-nos no clamoroso clímax,
propaga-se no júbilo do sangue
uma fervorosa e orgástica melodia.
Implodindo, sem horário, sem rede,
perco-me numa crepitante enseada,
a relembrar: a noite calma do teu mar.

Inserida por JoniBaltar

Pai

Pai consola-me no teu abraço infinito
cede-me uma pequena quantidade de esperança
quero iluminar este escuro cravado pela espada
do desespero dos meus sentimentos.
Pai ensina-me a tua força blindada de vida,
resgata a minha paz perdida na infância.
Todas as tuas lições vão sorvendo os meus trilhos
Pai tenho impregnado nos meus sentidos
as recordações: felicidade que depositaste no meu peito.
Pai, daqui a pouco, dar-te-ei aquele abraço
que faz sorrir as tuas retinas cansadas pelo tempo.
Hoje, sentindo os efeitos do vento, consigo desvendar
que solidão não é estar sozinho. – Amo-te querido Pai.
– Pai ajuda-me a amanhecer!

Inserida por JoniBaltar

Mãe

Pelo exercício da vida
o mais assertivo foi
o teu caloroso colo.
Mãe é uma obra infinita
é um coração que absorve
toda a dor que surja aos filhos
mastiga-a e guarda-a na alma.
Esse ventre que me amparou
lançou-me à incessante vontade
de viver e à constelação do sonho.
Minha querida Mãe és a recompensa
em todas as minhas horas incertas.
Recolhes as minhas lágrimas
nas janelas do teu olhar
e sequestras o meu choro.
As tuas mãos afagam a face
do filamento paralelo aos dias.
Mãe, guardo no meu peito
o punhado de paz e sorrisos
que sorvi umbilicalmente.
Encerras as minhas feridas
com as tuas sábias palavras.
- Amo-te em todas as contrações
que desaguam: no mundo que me fizeste.

Inserida por JoniBaltar

Pelos Subúrbios da Poesia

Numa perpendicular
às minhas artérias
corre o teu beijo
a pestanejar no meu peito.

Pelos subúrbios da poesia
as minhas mãos
escrevem às escondidas de mim
o estômago vazio duma cama.

No vácuo de uma vaga tempestade
sob o céu-da-boca da suspensa chuva
desperdiço-me numa nuvem monocórdia
como se fosse um alfabeto estilhaçado.

Inserida por JoniBaltar

Tenho sede: quero um gole da tua presença.

Inserida por JoniBaltar

Somente Tu e Eu

Somente tu consegues
ver as minhas tempestades.
Somente tu consegues
ouvir o meu silêncio.
Somente tu consegues
decifrar o Amor.
Somente tu e eu.

Inserida por JoniBaltar