Joni Baltar
Porosidade
Fervilham as artérias da nossa cama
desvendam, morosamente, os nossos beijos,
inesperadamente, surge o hálito da manhã
e ouve-se o dia a salivar.
Por vezes, é importante escrever o que se sente, não adianta descrever, não se consegue. As palavras estão inertes.
Três coisas que
quero fazer contigo:
escrever no teu nu corpo,
ouvir os gritos dos teus poros,
e silenciá-los com a minha boca.
Sinto este apocalíptico amor
cerzido em carne viva
no tecido transparente do osso
submetido a formas anatómicas
irremediavelmente inviolável.
É assim que
eu quero estar contigo
a contemplar o nada
e atordoados pelo amor,
do nada, construímos
o nosso interno mundo.
Anda Comigo
Anda comigo
ouvir o luar a despertar
sentir a brisa nocturna das flores.
Anda comigo
escrever na terra quente
a linguagem das árvores.
Anda comigo
dormir na minha pele
sonhar no meu corpo.
Anda comigo: quero viver em ti.
Depois Esperar
Quero aparecer no teu coração
sem que me vejas chegar.
Depois esperar que tu,
intensamente, sintas
que os dias e as noites
não são lugares tristes.
A Envergadura das Sílabas
Essa oscilação lúcida
entre o avesso insano
de um sonho cobalto
e um mar abandonado
pelo oceano, naufragado
no pousio de uma enseada.
Quão denso é o tempo
que estremece a existência
numa mutável cronologia
de sedução a porvir a cor
pendente na frágil Vida.
A envergadura das sílabas
mede-se pela infância
dos imodestos horizontes
que se contraem nos poentes.
A noite em carne viva
queima o vértice dos amantes.
A Matéria das Palavras
Na rua do teu peito
caminha a minha
enfurecida paixão
permitida e condenada
por uma mácula de sal
no exílio de uma lágrima
caída e despida por ti.
Nessa deriva em riste
como uma ilha crua
vertida no hino de pedra
que carrega no rosto
a velhice corrosiva
nos endereços da memória.
No caderno aberto do passado
à distância de um destino
no lado desfiado da carne
na rescisão do pacto com o tempo
desce a matéria das palavras
e na rua do meu peito
movem-se por sílabas
as artérias do teu nome.
A Expansão da Minha Alma
A Vida é uma estadia
tão breve e passageira.
É uma rajada de momentos
opostos à dormente ilusão.
Nas forjas dos elementos
inexplicavelmente: adentro
na consciência do sonho.
Carrego no meu peito
a expansão da minha alma
percorro todos os lugares
somente para te encontrar
e quando vejo o que procuro
— permaneço indecifrável —
a namorar com os teus olhos.
A Sobrevivente e Espessa Lágrima.
A dor é uma ilusão de carne.
É uma abstinência à insensibilidade,
como um consumo que circula na alma.
O álgido olhar que consome a vida
alimenta-se da estrábica melancolia,
descerra o escudo da existência.
Golpes suspensos nas pupilas,
marcham exaustos e condenados
num acrómico álbum de sal.
Revolta-se um pedaço de esperança,
cospe o grito pungente na valsa do chão
e ergue-se a sobrevivente e espessa lágrima.
Abraço Desarrumado
Aperto a luz da manhã
e encurto as mangas ao silêncio.
Onde estão os meus cadernos
de puída pedra calcária?
Perdi-os num coração estrangulado.
Caminho em compassos arados
aonde vai desmesuradamente
o abraço desarrumado que ficou
nas articulações de um novo dia.
