Jeff Marconis
Chamam o sangue de sagrado como se DNA fosse diploma de caráter. Que tradição elegante: cobrir o egoísmo com a toalha da família, servir ignorância em porcelana e chamar obediência de amor. A mesa parece um altar, mas funciona como tribunal; todos falam de união enquanto escolhem, cuidadosamente, quem deverá carregar a culpa. Minha rebelião não grita — chega vestida de preto, ajusta os punhos e pergunta quem lucra com tanto silêncio. Pago pelos meus erros porque assumir o preço é mais digno do que falsificar inocência, embora até inocentes sejam condenados quando a família precisa preservar sua própria mentira. Ainda assim, nenhuma sentença doméstica supera a misericórdia de Deus. E nenhuma criança nasce culpada: venha do ventre ou de um laboratório, existir não é pecado. A ciência apenas transformou impossibilidade em nascimento — escândalo suficiente para quem confunde ignorância com fé. Quem vê profanação numa criança, mas não enxerga crueldade no próprio julgamento, não protege moral alguma; protege apenas o prazer de condenar. Eu não destruo verdades: retiro o medo que as mantinha de pé. Se desabarem, nunca foram verdades — eram somente tradições bem vestidas.
— Dr. Jeff Marconis | Marconismo
Disseram que o inferno ficava abaixo de nós. Que ironia filosófica: construímos o inferno sobre a Terra e continuamos caminhando sob o Sol, iluminados o bastante para enxergar a crueldade, mas covardes demais para interrompê-la. Chamamos isso de mundo porque “condenação coletiva” seria uma verdade excessivamente deselegante. Aqui, a luz não salva — apenas revela melhor as ruínas. O fogo não sobe do chão; nasce dos homens, atravessa suas instituições e recebe nomes respeitáveis como tradição, ordem e progresso. Talvez não estejamos no inferno; talvez o inferno seja exatamente a maneira como decidimos habitar o Sol. Então os homens vestidos de preto começaram a caminhar pelas ruas, avenidas e esquinas. Não como demônios, mas como testemunhas vestidas para o funeral da humanidade. O preto deixou de representar ausência de esperança e tornou-se o uniforme daqueles que se recusaram a pintar a realidade de branco. Eis a contradição mais verídica de todas: caminhamos em plena luz, mas foi preciso vestir a escuridão para finalmente enxergar. O inferno nunca precisou esconder-se — fomos nós que aprendemos a chamá-lo de vida.
— Dr. Jeff Marconis | Marconismo
