Disseram que o inferno ficava abaixo de... Jeff Marconis

Disseram que o inferno ficava abaixo de nós. Que ironia filosófica: construímos o inferno sobre a Terra e continuamos caminhando sob o Sol, iluminados o bastante para enxergar a crueldade, mas covardes demais para interrompê-la. Chamamos isso de mundo porque “condenação coletiva” seria uma verdade excessivamente deselegante. Aqui, a luz não salva — apenas revela melhor as ruínas. O fogo não sobe do chão; nasce dos homens, atravessa suas instituições e recebe nomes respeitáveis como tradição, ordem e progresso. Talvez não estejamos no inferno; talvez o inferno seja exatamente a maneira como decidimos habitar o Sol. Então os homens vestidos de preto começaram a caminhar pelas ruas, avenidas e esquinas. Não como demônios, mas como testemunhas vestidas para o funeral da humanidade. O preto deixou de representar ausência de esperança e tornou-se o uniforme daqueles que se recusaram a pintar a realidade de branco. Eis a contradição mais verídica de todas: caminhamos em plena luz, mas foi preciso vestir a escuridão para finalmente enxergar. O inferno nunca precisou esconder-se — fomos nós que aprendemos a chamá-lo de vida.


— Dr. Jeff Marconis | Marconismo