Isabel Morais Ribeiro Fonseca
O envelhecimento
Não é apenas o Outono
Ou o Inverno da vida
É a época da colheita
De voltar a ser criança
Desprezo todos aqueles
Que se julgam melhor que eu
Afinal só me dão forças
Para seguir em frente
E mais longe
Que alguma vez eles irão
COROAI-ME DE ROSAS
Coroai-me de rosas
Sejam vermelhas
Amarelas ou brancas
Coroai-me num jardim
No edam num céu de rosas
Coroai-me sem espinhos
Das mais belas rosas
Coroai-me de amor
Perfumado no coração
De perfumadas rosas na alma
Não deixes que te pisem
Que te espezinhem
Não deixes que te humilhem
Que te diminuam
Tu és um ser humano
Eu sei que todos precisamos de ganhar
O pão nosso de cada dia
Mas há um limite para tudo
Ama-te já que sentes
Que ninguém te ama
Nunca penses
Que não és ninguém
Porque tu tens força
E dignidade
Pensa nisso
ESCREVO QUE
Um dia vou enlouquecer o poema
Pelas espigas que o vento balança
Na dourada alegria do tempo
Em que se ceifava o trigo
Onde o corpo materno nos alimenta
Unindo-nos à terra fértil
De um qualquer inverno ou verão
Escrevo para que a lua cresça no meu peito
Escrevo para que a chuva nasça dentro de mim
Escrevo para que o amor floresça na minha alma
Escrevo que as palavras são virgens vindas de ti
Escrevo para ouvir as palavras que nunca ouvi
Escrevo que as letras formam a palavra amo-te
Escrevo com dor, com alegria em doce poesia
Pois de dia colho lirios, á tarde colho rosas
À noite colho o mel que a tua boca me dá
Num louco poema fértil escrito de mim em ti
Na minha nudez
Que eu seja um verso
Que o rio rasga
As fragas beijam
E o mar abraça
Num poema
Em poesia
Na chegada do Outono
Quando eu morrer
Sepulta-me no mar
Por entre as algas
E cobre o meu rosto
De palavras escritas
Num rasto de corais
ENCONTRA-ME
Encontra-me no silêncio
Na lareira que perfumam
Os telhados em fumo
Encontra-me no vento
Que bailam os pinheiros
No eco que sou
Dos pássaros fugazes da noite
Encontra-me nos olhos do outono
Entre as folhas da espera
Que perfumam os meus segredos
Nos braços de cores zumbindo de morte
Que enfeitam nos seios da lua
Floresta que encontra o corpo húmido
De fetos, musgo verde em sombra
Encontra-me pela geada que afaga os anjos
Sim, encontra-me em casa no teu sorriso.
Há dias que somos a presa
outras somos apenas o caçador implacável
A carne quem deu, foi Deus
O cozinheiro o diabo
Quando eu for velhinha
E me perguntarem se valeu a pena
Ter vivido tudo o que eu vivi
Vou responder que sim
Valeu cada segundo vivido
Se o tempo
Envelhecer-te o corpo
Guarda na alma a tua juventude
E no coração a tua infância
Só envelhece quem quer
Levante a cabeça
E siga por mais difícil que seja
O sol nasce todos os dias
E a vida vale sempre a pena ser vivida
