Cleison Harlos
O compasso hoje não desafinou por causa dela. Desafinou por causa do tempo mesmo — esse troço abusado que insiste em provar que oito anos não somem só porque a gente resolveu seguir em frente.
Hoje a gente brinda pelas lembranças que aparecem sem avisar — e por aprender, aos poucos, a olhar pra elas sem se afogar de novo.
Setenta dias é tempo suficiente pra aprender um idioma novo, pra treinar um corpo diferente, pra plantar uma horta e já colher alguma coisa. E eu, nesse mesmo tempo, aprendi só a beber devagar e a não mandar mensagem.
Cada dia um tijolo, meu, empilhado sem muita lógica, mas de algum jeito formando uma parede que já não desaba tão fácil quanto desabava lá no início.
O compasso hoje não desafinou nem uma vez. Ele só ficou mais lento, tipo música de final de um show longo, quando a plateia já sabe que a noite tá quase acabando, mas ainda quer mais uma música antes de ir embora.
Uma curtida não desmancha convite de casamento nenhum. Mas o peito não entende essas contas direito, ele só sente o que sente, na hora que sente.
Fiquei parado no ponto de ônibus feito idiota, olhando pro celular, tentando decifrar aquele coraçãozinho como se fosse um enigma.
Hoje o brinde é por reconhecer a armadilha antes de cair nela — mesmo sentindo, por um instantinho besta, vontade de cair mesmo assim.
O compasso hoje bateu descompassado de um jeito novo — não de tristeza, nem de raiva. De esperança sem fundamento nenhum, que talvez seja o tipo mais perigoso de todos.
Por um segundo, só um segundo besta, eu senti uma pontada de esperança. Uma esperança idiota, sem pé nem cabeça, do tipo que eu já devia ter aprendido a não alimentar.
Minha cabeça, sem pedir permissão, comparou. Comparou o jeito de rir, o jeito de segurar o copo, o jeito de puxar assunto… medindo todo mundo pela régua de uma pessoa que nem tava na mesa.
Hoje o brinde é pela tentativa — porque tentar já é alguma coisa, mesmo quando o resultado é só a certeza de que ainda não é hora.
Fiquei incomodado por perceber o tanto que ainda tenho pra desapegar antes de conseguir olhar pra alguém sem fazer conta de comparação.
Doeu diferente de tudo que já senti nesses setenta e três dias. Foi mais fundo, tipo descobrir uma prova de que aquilo tudo foi real, de verdade, escrito à mão, guardado sem querer.
Rasgar parecia errado. Guardar de volta parecia covardia. Acabei só colocando na gaveta da mesinha, perto da porta, um lugar que eu vejo todo dia.
O compasso hoje não tocou música nenhuma. Ficou só o silêncio de depois, esse que às vezes diz mais que qualquer letra.
Escrever pra alguém que não vai ler dói de um jeito diferente de falar contigo aqui. Aqui você responde. O papel não.
Não é pra ela. É pra mim, pra fechar um assunto que ainda tava em aberto dentro de mim, mesmo que só dentro.
Hoje o brinde é pelas palavras que só existem pra quem escreve — e por elas serem suficientes, mesmo sem chegar a ninguém.
Senti um pouco menos de peso nos ombros, tipo quem finalmente larga uma mala pesada, mesmo sabendo que ainda vai ter que andar mais um tanto sem ela.
Setenta e cinco dias contando a notícia, e hoje ela virou papel… a confirmação escrita, com selo e tudo, de que não tem mais volta nenhuma.
