Cleison Harlos

51 - 75 do total de 102 pensamentos de Cleison Harlos

O meu compasso hoje foi desacelerando conforme a noite chegava, mas sem pânico.

O domingo à tarde é o dia mais perigoso da semana para quem está tentando juntar os pedaços.

Veio só aquele aperto seco no peito, tipo quem reconhece uma cicatriz antiga, aquela que já não sangra mas ainda dói quando aperta no lugar certo.

Não tô pronto pra dividir o mesmo aleatório com um fantasma no meio da semana.

Hoje a gente bebe por essas emboscadas que a vida arma sem avisar, e por quem consegue continuar dirigindo mesmo com o farol fechado por dentro.

Talvez uma parte de mim quisesse só sentir o soco de propósito, pra depois poder dizer ‘pronto, já dói, já passou’

Hoje a gente brinda pelas mensagens que a gente tem a decência de não mandar — porque às vezes o maior gesto de amor que resta é o silêncio que a gente escolhe segurar.”

Apaguei letra por letra. Devagar, quase com respeito, tipo quem desliga um som que já não devia ter ligado.

Aquele gosto de ‘quase’ entalado, que dói até mais que um ‘não’ de verdade, porque o ‘quase’ fica ali, mofando, esperando uma próxima brecha de fraqueza.

Talvez a gente só se sente do mesmo lado do balcão porque, de um jeito ou de outro, os dois sabemos guardar silêncio quando dói.

Hoje o brinde é diferente: é por quem segura os outros de pé e nunca pede pra ser segurado de volta.

O compasso hoje não foi só meu. Foi teu também — só que o teu ninguém escreve.

Duas contagens regressivas correndo ao mesmo tempo, uma tentando cicatrizar, outra tentando comemorar, e as duas com o mesmo nome dela no meio.

Aquele silêncio esquisito, tipo quando param de tocar uma música no meio e o ouvido continua esperando a nota que não vem.

O compasso hoje desafinou de um jeito mais quieto, tipo quem finalmente entende que o relógio de verdade não é o meu.

Talvez seja assim mesmo que a coisa funciona. Não é uma porta que fecha de um dia pro outro, é mais um instante aqui, um minuto ali, se somando devagar, sem pedir licença…

Fiquei com vergonha de ter ficado bem por um tempo. Como se esquecer, nem que por meia hora, fosse uma espécie de traição — traição à dor, que já virou quase uma companhia velha.

Hoje o brinde é esquisito, eu sei, mas é sincero: por esses minutos roubados de alívio, mesmo que a gente ainda não saiba se merece ficar bem.

O compasso hoje quase acertou o tom sozinho. Por uns minutos, ele nem lembrou que tava tocando uma música triste.

Não é uma sensação boa, mas confesso que também não é totalmente ruim. Depois de tanto tempo só sentindo falta, dói de um jeito diferente sentir raiva. Quase parece um sinal de vida.

Hoje o brinde é cru: por essa raiva chegando atrasada, mas chegando — porque talvez seja o primeiro passo pra eu parar de só sentir saudade e começar, enfim, a sentir tudo o resto também.

O compasso hoje não desafinou. Ele mudou de ritmo. Ficou mais seco, mais duro, tipo bateria sem melodia por cima ainda.

Raiva de ter escolhido o outro. Raiva de continuar linda, continuar tocando a vida pra frente, como se oito anos da gente coubessem numa gaveta fechada.

O celular não sabe que dói. Ele só sabe contar os anos e mostrar de volta, feliz da vida, achando que tá me fazendo um favor.

Uma vida inteira cabendo numa telinha de cinco polegadas, aparecendo do nada, sem hora marcada, sem pedir licença.