Cleison Harlos

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Eu vivo o dia inteiro como um ator cansado que já decorou o texto, mas que não sente mais a peça.

Todo dia eu visto uma armadura que pesa mais que o meu próprio corpo.

Eu tô cansado de pagar o preço de manter essa farsa de ‘estou bem’.

O pior não é sentir a dor. O pior é ter que fingir que ela não existe pra não incomodar ninguém.

Eu sou um especialista em sorrir enquanto sangro por dentro.

Hoje a gente bebe por tudo aquilo que a gente guarda e que não serve para mais nada, a não ser para machucar.

Tu pega um papel de bala e o teu peito desaba porque lembra do dia exato, do cheiro do perfume dela e da temperatura do vento naquela tarde.

Para qualquer outra pessoa, é lixo; para mim, era a prova material de que o que eu vivi não foi um delírio da minha cabeça.

O que mata o vivente são esses pequenos detalhes invisíveis que ficam encravados na rotina.

O silêncio dela não é falta de tempo, é escolha.

O telefone virou só um pedaço de vidro e metal que serve pra me lembrar, em alta definição, do tamanho da minha solidão.

Hoje a gente bebe pra ver se o álcool apaga essa mania besta de esperar por quem já esqueceu o meu número.

Essa transição do automático pro vazio é o que mais gasta o vivente por dentro.

Hoje a gente bebe pra ver se o corpo esquece os caminhos que os pés não podem mais trilhar.

O soco no estômago é saber que, enquanto eu vou passar o dia evitando as redes sociais pra não ver foto de casal feliz, ela provavelmente vai estar ganhando flores...

Há um ano, a gente estava fazendo planos pro futuro; hoje, eu sou o cara que torce pra essa data passar logo, como quem espera uma tempestade forte passar debaixo de um telhado velho.

Para quem está acompanhado, é só mais uma data no calendário; para quem ficou sozinho na calçada, é um campo minado.

A gente limpa o histórico, deleta as mensagens do celular, mas esses registros fantasmas sempre acham um jeito de aparecer pra lembrar o vivente do tamanho do naufrágio.

Aquele e-mail ainda tá ali, com a mesma formatação, o mesmo remetente, as mesmas palavras apaixonadas. Mas a pessoa que enviou aquilo já não existe mais pra mim.

É assustador ver como o mundo digital guarda a nossa felicidade em alta definição, intacta, enquanto na vida real tudo já virou poeira.

Hoje a gente bebe por essa liberdade que eu nunca pedi pra ter, mas que agora sou obrigado a carregar nas costas.

Ter o controle total do meu destino perde o sentido quando o destino que eu realmente queria construir foi cancelado sem o meu voto.

A liberdade só é bonita quando é uma escolha tua; quando ela é o resultado de um abandono, ela tem muito mais cara de solidão.