Cleison Harlos
Hoje a gente bebe por tudo aquilo que a gente guarda e que não serve para mais nada, a não ser para machucar.
Tu pega um papel de bala e o teu peito desaba porque lembra do dia exato, do cheiro do perfume dela e da temperatura do vento naquela tarde.
Para qualquer outra pessoa, é lixo; para mim, era a prova material de que o que eu vivi não foi um delírio da minha cabeça.
O telefone virou só um pedaço de vidro e metal que serve pra me lembrar, em alta definição, do tamanho da minha solidão.
Hoje a gente bebe pra ver se o álcool apaga essa mania besta de esperar por quem já esqueceu o meu número.
O soco no estômago é saber que, enquanto eu vou passar o dia evitando as redes sociais pra não ver foto de casal feliz, ela provavelmente vai estar ganhando flores...
Há um ano, a gente estava fazendo planos pro futuro; hoje, eu sou o cara que torce pra essa data passar logo, como quem espera uma tempestade forte passar debaixo de um telhado velho.
Para quem está acompanhado, é só mais uma data no calendário; para quem ficou sozinho na calçada, é um campo minado.
A gente limpa o histórico, deleta as mensagens do celular, mas esses registros fantasmas sempre acham um jeito de aparecer pra lembrar o vivente do tamanho do naufrágio.
Aquele e-mail ainda tá ali, com a mesma formatação, o mesmo remetente, as mesmas palavras apaixonadas. Mas a pessoa que enviou aquilo já não existe mais pra mim.
É assustador ver como o mundo digital guarda a nossa felicidade em alta definição, intacta, enquanto na vida real tudo já virou poeira.
Hoje a gente bebe por essa liberdade que eu nunca pedi pra ter, mas que agora sou obrigado a carregar nas costas.
Ter o controle total do meu destino perde o sentido quando o destino que eu realmente queria construir foi cancelado sem o meu voto.
A liberdade só é bonita quando é uma escolha tua; quando ela é o resultado de um abandono, ela tem muito mais cara de solidão.
