RECALCULANDO ROTA Cá estou eu... Gabriela Denke

RECALCULANDO ROTA


Cá estou eu novamente, sentada em minha cama, olhando para o infinito, em uma sexta-feira à noite. Você deve estar se perguntando: o que uma jovem de 17 anos está fazendo em casa em um dia desses? Deveria estar, no mínimo, em uma "baladinha" qualquer. A minha resposta será um tanto avassaladora, talvez assuste muita gente por aí, mas é como me sinto de fato: diferente.


Já fui de sair muito, ter diversos amigos, paqueras, risadas, momentos bons, mas tudo mudou quando meu GPS interno recalculou a rota da minha vida. Comecei a ler, praticar muitos esportes, estudar, espiritualizar-me, focar muito mais em mim mesma. E meus amigos? Eu ainda os tinha, claro, mas de forma cada vez mais distante. Os interesses não se encaixavam mais; enquanto as conversas giravam em torno de quem ficou com quem, eu queria estar falando de livros, futuro, oportunidades e desejos puros. Para mim, não faziam sentido todas aquelas falas e, no fim, acabei sendo rejeitada por ser muito diferente. Não os julgo. Talvez eu sempre tenha sido dessa forma, mas me escondia atrás de uma pessoa que não tinha nada a ver comigo para ser aceita como uma adolescente normal em uma sociedade rasa. De fato, uma hora ou outra eu mesma iria me distanciar.


Tive de aprender a lidar com a solidão na marra, mas, com o tempo, isso virou solitude, o que é deveras diferente. Aprendi muito nesse meio-tempo. Entendi que nossa própria companhia é a que mais importa. Mas agora cheguei a uma fase da minha vida em que eu gostaria tanto de ter um grupo de amigos. E, afinal, onde vou encontrá-los? Não me encaixo em lugar nenhum. Um exemplo são os amigos que tento fazer no esporte. Descobri algo muito estranho aos meus olhos: só é seu parceiro enquanto você apresenta um desempenho inferior ao dele. Sim, eu sei, é triste.


Às vezes, tenho a impressão de que a vida virou uma disputa para ver quem é mais orgulhoso, quem tem o ego mais inflado, quem menos dá o braço a torcer. Esse é o valioso, dizem os idiotas. Aí é que eu quebro a cara. Para mim, amizade, relacionamento ou qualquer coisa que envolva o outro envolve empatia. E, quanto mais eu me importo com o sentimento dos outros, mais eu me machuco, mais pedradas levo e mais distante eu me torno.


E, se entrar no campo dos relacionamentos amorosos, aí desaba tudo. Sempre, em minha vida, eu fui um quase e nunca uma certeza. Não que eu tenha tido muitas oportunidades, mas, quando acontecia, era assim. Quando, de certa forma, me isolei do mundo, como diz meu pai, "foi o boi com a corda" de vez. Se me perguntar se sou seletiva, a resposta é óbvia: muito. Mas sei que ninguém é perfeito. Tem uns que chegam e, só de olhar, eu penso: "Não têm nada a ver comigo". Querem só rolo, "passar na cara", não pensam em construir algo maior. E há outros que, ao meu ver, seriam perfeitos, coisa rara de acontecer. E, quando acontece, na minha cabeça daria super certo, mas, aos olhos do outro, é impossível. Talvez o problema seja eu, uma pessoa que pensa demais, planeja demais, sente demais, ou talvez eu esteja em um mundo raso demais. Já nem sei mais o que pensar, realmente.


Pergunto-me todos os dias quando voltarei a ser um pouco mais normal, a ser aceita novamente, a socializar com facilidade, quando finalmente terei um namorado. Penso que possa estar destinada à solitude eterna. Apesar de tudo, no fundo eu a prefiro, mesmo doendo demais. Só quem passa por isso sabe.
Penso que boa parte da minha geração vive em torno somente de festas, bebidas, baladas, drogas e redes sociais. Nem falarei das indumentárias; complica demais. Como posso me encaixar nisso? Será possível não existir ninguém parecido comigo? Óbvio que existe, mas minhas esperanças, no momento, estão desvairadas. E, enquanto não encontro as pessoas certas para caminhar ao meu lado, continuo olhando para o infinito, ou melhor, escrevendo crônicas em uma sexta-feira à noite qualquer.