Cartografia do retorno O corpo reconhece... Evelyn Faheina

Cartografia do retorno


O corpo reconhece
o que a razão demora a admitir.


Há cenas que apenas mudam de pele:
outro rosto, outro endereço, outro cheiro,
e, ainda assim,
preservam intactas a mesma arquitetura silenciosa.


Há pessoas que retornam vestidas com outros nomes:
novas feições, significações
e maneiras distintas de habitar o mundo,
mas algo nelas permanece preso à antiga fissura da memória.


Tudo parece diferente
e tudo obedece a mesma órbita invisível.


A boca resseca diante de despedidas já conhecidas
e as mãos retornam a abrir portas já abertas.
Mas chega um instante em que o pássaro reaprende o seu voo,
atravessado pelo vento, pela perda, pela memória..


Suas asas já não batem do mesmo jeito
e a repetição cede, aos poucos,
lugar à experiência
à implicação na direção do seu voo.


Então o corpo aprende a não se ajoelhar no mesmo lugar de sempre
e o medo desaprende o endereço da antiga casa.
O amor — já não mais confundido como espelho — abandona a velha rima
e a lembrança perde, lentamente, o comando secreto dos repetidos gestos.