Coleção pessoal de EvelynFaheina
Enquanto miro no outro,
na reciprocidade alienada da identificação,
o real me atravessa — sem palavra, sem imagem, sem espelho,
escapando pelas frestas do sentido.
Olho o mundo com lentes que não são minhas,
e chamo de meu o que ecoa do outro,
como quem tece, no fio imaginário,
uma pele compartilhada.
Cartografia do retorno
O corpo reconhece
o que a razão demora a admitir.
Há cenas que apenas mudam de pele:
outro rosto, outro endereço, outro cheiro,
e, ainda assim,
preservam intactas a mesma arquitetura silenciosa.
Há pessoas que retornam vestidas com outros nomes:
novas feições, significações
e maneiras distintas de habitar o mundo,
mas algo nelas permanece preso à antiga fissura da memória.
Tudo parece diferente
e tudo obedece a mesma órbita invisível.
A boca resseca diante de despedidas já conhecidas
e as mãos retornam a abrir portas já abertas.
Mas chega um instante em que o pássaro reaprende o seu voo,
atravessado pelo vento, pela perda, pela memória..
Suas asas já não batem do mesmo jeito
e a repetição cede, aos poucos,
lugar à experiência
à implicação na direção do seu voo.
Então o corpo aprende a não se ajoelhar no mesmo lugar de sempre
e o medo desaprende o endereço da antiga casa.
O amor — já não mais confundido como espelho — abandona a velha rima
e a lembrança perde, lentamente, o comando secreto dos repetidos gestos.
Algumas pessoas entram em nossas vidas não para representar quem são, mas para encenar aquilo que ainda não conseguimos compreender em nós mesmos.
Aquilo que não pôde ser elaborado reaparece de outro modo. Aquilo que não encontrou palavras procura relações. E as relações, sem que percebamos, tornam-se palco de histórias muito mais antigas do que seus personagens.
Alguns conflitos não surgem porque o outro seja, necessariamente, uma pessoa difícil. Eles surgem porque certas dores não conseguem ser carregadas sozinhas. Precisam de companhia. Procuram um corpo, uma voz, um rosto onde possam continuar vivendo.
Outro dia me perguntaram o que era o bem-viver.
E eu pensei que talvez fosse isso:
um instante em que a alma desaperta,
o momento em que o mundo já não tem tanta força
e o amanhã já não grita tão alto.
À espera
O tempo passa devagar
na longa espera de quem lança o impossível sobre o amanhã.
Já não se vê a vida acontecer,
e os pássaros persistem no vento, indiferentes.
De tanto esperar, o presente começa a rarear.
O instante desfaz-se em promessas.
E o futuro, tantas vezes sonhado,
ocupa o lugar daquilo que ainda respira.
