Na Quitanda da Vida Na quitanda da vida,... Eli Odara Theodoro

Na Quitanda da Vida

Na quitanda da vida,
o produto mais precioso é o viver.

E o quilombo sabe disso.

Aqui, cada experiência tem sabor,
cada memória tem raiz,
cada pessoa carrega consigo
um pedaço da história de quem veio antes.

Na banca da ancestralidade,
encontramos a sabedoria dos mais velhos,
a palavra que atravessa gerações,
o canto que guarda memórias,
o tambor que anuncia presença,
a dança que movimenta a história,
o alimento que reúne a comunidade
e a terra que sustenta nossos passos.

Aqui, nada é apenas mercadoria.

A cultura não está à venda.
A memória não está à venda.
O território não está à venda.
A identidade quilombola não está à venda.

São heranças.
São direitos.
São fundamentos de uma existência
que se recusa a desaparecer.

Na quitanda da vida,
cada geração recebe uma cesta
cheia de saberes ancestrais.

Recebe o dever de cuidar,
de preservar,
de ensinar
e também de transformar.

Porque ser quilombola
é reconhecer de onde viemos
sem perder de vista
para onde queremos caminhar.

É fazer do território
mais que um pedaço de chão:
é reconhecê-lo como casa,
memória, alimento, pertencimento
e futuro.

É olhar para nossas crianças
e dizer:

vocês são continuidade.
Vocês são presença.
Vocês são memória viva.
Vocês são o amanhã que já começa hoje.

Nossa resistência não vive somente nas grandes lutas.

Ela está na roça cultivada,
na comida compartilhada,
na roda de conversa,
na reza,
no canto,
no artesanato,
na festa,
na escola,
na juventude que permanece,
na mulher que sustenta saberes,
no mais velho que ensina
e em cada quilombola que afirma:

“Nós estamos aqui.”

Estamos aqui porque existimos.
Existimos porque resistimos.
Resistimos porque temos história.
E temos história porque nossos ancestrais
não permitiram que suas raízes fossem arrancadas.

Na quitanda da vida,
provamos as dores que herdamos,
mas também degustamos
a força que nos foi deixada.

E seguimos plantando.

Plantamos memória.
Plantamos dignidade.
Plantamos cultura.
Plantamos autonomia.
Plantamos pertencimento.

Para que aqueles que vierem depois
encontrem não apenas os frutos,
mas também a terra,
as sementes
e o direito de continuar plantando.

Porque, na quitanda da vida,
viver é o produto,
aprender é a degustação,
ancestralidade é a raiz,
território é o chão,
e a presença quilombola
é a afirmação de que nossa história
continua viva.