Eli Odara Theodoro
Mulher Elemental
Ela carrega a força sagrada do quinto elemento,
filha da natureza, identidade em movimento.
Nobreza de pertencimento,
essência que é fundamento,
legado de boniteza universal,
vida pautada em exemplos.
Abrigo que acolhe tudo o que gerou,
assemelha-se à mãe-terra,
raízes que o tempo não apagou.
Neste solo amoroso, onde a vida brotou,
é energia, vibração, pulsação,
mas jamais se resume ao que se vê ou se diz:
seu amor é ação.
Se provocada, ela se faz vento,
dança com o tempo,
peita os enfrentamentos,
não sabe recuar!
Mas quando quer se materializar,
seu canto é cura,
bálsamo para as dores ausentes,
abrigo das lembranças distantes,
conexão com o ar.
Mulher é chama!
Quando se alinha, acende alianças,
fogo que ninguém contraria.
Firmada no encantamento,
lança magia,
sedução em labaredas,
derrete de emoção!
Mas seu “não” é um escudo firme,
respeitem sua decisão!
Seu fogo aquece, mas jamais consome.
Mulher é mar.
Suas águas profundas
guardam mistérios,
oceano reverso,
espelho dos céus.
Sereia, canto de ninar,
bússola que orienta,
mergulha na superfície
e com cada movimento desenha a vida.
Ensina.
Resistir é sua doutrina.
Se há declínio, há fôlego.
Se há tormenta, há guiança.
Na resiliência, ela se refaz,
e no ápice da conquista,
ergue-se iluminada.
Você mente, colonizador!
Existem histórias que você não contou,
bonitezas identitárias de povos que subestimou!
A nobreza do povo preto, que você ocultou,
e em atos de violência raptou,
levou para as diásporas, escravizou!
Hoje dizem que esse povo não contribuiu,
que a cor preta não tem valor,
que não existem dívidas.
Mas o trabalho forçado, que você explorou,
é um silêncio perturbador!
Essa dívida, colonizador,
gerou juros, correções,
riquezas que você embolsou,
privilégios que seus descendentes acumularam.
Nem dividendos compartilhou!
O senhor mente, colonizador!
Escondeu nos escritos, nos livros,
que havia pretas e pretos cientistas, arquitetos, criadores!
Que havia conhecimento de doutor!
E a ciência natural, que você usou?
Desconsiderou!
E as ervas medicinais,
indicação dos ancestrais,
aquelas que te curaram?
Chamou de magia,
condenou como inflação, bruxaria!
Sentenciou e matou,
ainda mata nestes dias!
Queimou, ainda queima,
nossa religião,
negou, demonizou!
Nos deu rótulos de infratores,
mas foi você quem transformou em escravo
um ser humano,
livre como pássaro,
para depois abandonar, desempregado,
sem assistência, sem reparação.
Quem com ervas te salvou?
Intolerância é sua moeda de valor!
Mulheres pretas foram dizimadas,
as mesmas que seus filhos amamentaram,
lavaram suas roupas, passaram,
cuidaram da sua casa, cozinharam,
deram à sua boca sabores e iguarias!
Ah, como o branco gostou!
Tanto, tanto, que se apropriou.
Ainda assim, eram obrigadas
a satisfazê-lo nas madrugadas,
quando a senhora estava cansada.
Essas pretas, criadas,
apanhavam das mulheres brancas mal amadas,
tinham seus bicos de seio arrancados,
eram chicoteadas,
mas o pior destino era ver seus filhos arrancados!
Vocês rotularam de liberdade
quando expulsaram o povo preto da cidade,
enxotaram das mansões,
sem direito a indenização,
sem direito à educação,
sem direito ao trabalho,
sem remuneração,
sem direito, sem dignidade de cidadão!
Convidaram brancos de outras nações
para assumirem cargos,
com cotas e indenizações,
com renda e título de cidadão.
E disseram que o povo preto,
andando na rua sem emprego,
seria preso.
Aí, superlotação!
Matança!
Antes de chegar na prisão,
o extermínio é a solução!
E a contemporaneidade?
Quinhentos anos depois,
quase nada mudou!
O rio é de dor,
encontro de sangue derramado
com lágrimas de mães em luto, afogadas!
Tiro certeiro do preconceito,
não é bala perdida.
A direção é sempre a mesma:
pretos nas periferias!
Toda mãe teme o cruel destino
de seus filhos amados.
Mas quem está sentindo?
Se as balas já têm destino?
Corpos-crianças,
meninos estendidos,
perfurados de balas!
Quem matou os caras?
Os inimigos!
Nos veem apenas como bandidos,
os pretinhos.
Toma cuidado, filho!
As drogas abreviam os caminhos,
encurtam vidas de meninos!
Mas, qual seria mesmo o destino?
Não responde.
Mas silêncio não é racismo?
Silêncio.
OUVI TIROS!
Dor no peito.
Mais um extermínio do povo preto.
Sempre escolhido.
Estas terras,
que tantos povos abrigaram,
agora são regadas
com sangue de pretos,
Senhor Colonizador!
Mas o que cresce livre
é nossa consciência.
Ela brotou.
Nossa ancestralidade aflorou.
E agora, brotamos para sustentar justiça.
A justiça há de haver!
Neste caminho de identidade a florescer,
este é nosso oásis!
Onde saciaremos nossa sede temporal
com liberdade.
Tudo que se foi,
renascerá em tantos outros tempos,
quantos forem necessários,
para fazer-se presente
em todos os presentes modernos e borboletear.
Nós sabemos, nós podemos!
A raiz vingará!
Viveremos em outras, tantas naturezas.
Formaremos os nós,
resistindo por ideais,
com a força dos Orixás!
Nas águas do tempo, o tambor ressoa
No ventre da noite, o açoite rasgou,
mas a chama acesa nunca apagou.
Dos becos da dor, dos gritos calados,
nasceu o axé, forte e sagrado.
No giro da saia, no toque do chão,
ecoam os cânticos de consagração.
Dos terreiros erguidos com fé e suor,
a tradição resiste, dança e maior.
Dia de lembrar, dia de sentir,
a força que o vento não pode extinguir.
Do Ilê ao quilombo, do corpo ao cantar,
a herança africana segue a pulsar.
É dia de honrar quem nos antecedeu,
quem plantou a raiz e nunca cedeu.
Que o 21 de março seja sempre farol,
lumina o caminho, aquece o sol.
A História Não Contada
O vento soprava forte sobre as águas revoltas. No horizonte, o sol se punha, tingindo o céu de vermelho, como se sangrasse em despedida. Nos porões escuros do navio, o ar era denso, pesado, misturado ao cheiro da madeira úmida e dos corpos amontoados.
Ali, entre as sombras, estavam aqueles que tiveram suas vidas arrancadas à força. Eram reis, guerreiros, mães e filhos, agora reduzidos a mercadoria. As correntes marcavam seus tornozelos, mas não podiam acorrentar suas memórias.
Dentre eles, um jovem chamado Obafemi mantinha os olhos fixos na pequena fresta de luz que entrava entre as tábuas. Ele não conhecia aquele mar, mas sabia que, além dele, havia uma terra desconhecida — e um destino cruel à espera.
— Meu filho… — sussurrou uma mulher ao seu lado. Era Iyalá, uma anciã que carregava no olhar o peso de muitas luas. — Se não podemos mudar o caminho, que o caminho não nos mude.
Obafemi não respondeu, mas apertou os punhos. Seu coração queimava com a dor de sua gente.
Alguns, em silêncio, decidiram que não seguiriam viagem. Preferiram entregar-se ao mar, nas mãos de Iemanjá, do que viver sob o domínio do inimigo. Obafemi os viu partir, um a um, dissolvendo-se nas ondas, e por um instante, pensou em fazer o mesmo.
Mas não fez.
O navio atracou dias depois. Os que restaram foram levados à força, empurrados para um mundo onde seriam vistos apenas como mãos para o trabalho, como corpos para o lucro. Chicotes cortaram sua pele, línguas estranhas tentaram roubar sua identidade. Mas dentro deles, a chama não se apagava.
O tempo passou. Obafemi sobreviveu. Seu nome foi mudado, sua voz abafada, mas ele nunca esqueceu quem era. Aprendeu a resistir, a lutar sem armas, a falar sem palavras. Seus filhos herdaram sua força, seus netos contaram sua história, e mesmo quando tentaram apagá-lo da memória do mundo, ele permaneceu.
Pois um povo pode ser acorrentado, mas sua essência jamais será escravizada.
Raízes do Tempo
Na vastidão da natureza,
canta o vento em liberdade,
soprando histórias antigas,
tecendo fios de ancestralidade.
Sob a sombra das mangueiras,
dança a vida em movimento,
num abraço de diversidade,
nos batuques do tempo.
O rio ensina com paciência,
a maré flui sem vaidade,
refletindo no espelho d’água
o pulsar da humanidade.
Que haja terra para os passos,
que haja voz para o afeto,
que o amanhã floresça livre
no caminho do respeito.
“A fartura na Sexta-feira Santa”
Dizem que na Sexta-feira Santa é dia de silêncio, de dor,
de lembrar o sangue, a cruz, o peso do mundo inteiro.
Mas lá no fundo da casa, onde o cheiro do dendê dança no ar,
tem panela no fogo, peixe no ponto, e a mesa… cheia.
A fartura não é desrespeito.
É memória de um povo que aprendeu a fazer do pouco, muito.
É boca cheia de reza, mão cheia de afeto,
é o corpo que resiste, que partilha, que celebra.
Fartura é também fé — mas uma fé com gosto de terra e sal,
uma fé que não nega a dor, mas escolhe a vida.
Porque pra muita gente, a cruz foi mais que símbolo:
foi história viva, foi tronco, foi castigo.
E mesmo assim…
os nossos escolheram a mesa, não a mágoa.
O peixe, não o pranto.
O banquete, não a prisão.
A fartura na Sexta-feira Santa revela um segredo antigo:
que mesmo na dor, a vida insiste.
E a gente, quando come junto, resiste.
Feliz Páscoa!
"Existe aquele Lugar Que Insisto, Mas Que Não Me Guarda" por Eli Odara Theodoro (com as mãos da vida e a escuta do tempo) Eu quis ficar. De verdade. Plantei afeto, pendurei sonhos nas janelas, acendi luzes onde antes era sombra.Mas o chão ficou escorregadio, as portas rangiam sozinhas, e até o silêncio começou a me empurrar pra fora. O que antes era abrigo, virou desconforto. E o que antes me chamava de volta, hoje responde com ausência. Talvez não seja rejeição. Talvez seja proteção. Talvez seja o universo, com sua delicada firmeza, dizendo: "vai.
Você cresceu, e esse vaso ficou pequeno." E difícil aceitar que o querer da alma às vezes não cabe no querer da vida. Mas eu escuto. Com os olhos cheios e o peito aberto. Se for preciso ir, que eu vá inteira, mesmo partindo. Porque onde não me guardam com verdade, eu não posso me perder por insistência. "
Eu e os livros,
mares de encontros que me atravessam,
ventos que me levam a navegar saberes.
Cada página acende em mim
a chama esquecida,
essência adormecida que desperta
no entrelaçar de vidas,
na confluência dos caminhos
que me habitam.
