Adriana Carvalho Adam
A felicidade não é um estado garantido. É uma escolha. É um compromisso ético com a dureza da vida real. Essa Escolha é diária. Exige lucidez e força. Ela é tão efêmera e frágil quanto a própria vida. E ela precisa ser cultivada em pequenos momentos. Pequenos grandes momentos. E quando são perfeitos e lindos, esses momentos, queremos segurá-los e morar neles para sempre. Mas justamente por serem essa fração de segundos, minutos, em sua plenitude, é o que os tornam inesquecíveis e eternos. O meu para sempre mora na eternidade de um abraço nos melhores amigos, na troca de um olhar que te fala sem precisar de palavras, na sensação de um mergulho, de cabeça, por baixo de uma onda grande que, ainda não quebrou, sentir o solo do mar raspar no seu peito, e saber que quanto mais profundo você mergulha sob uma onda, mais seguro está. Olhar de relance para cima e ver aquele volume de água se movimentando, e você conseguindo atravessar com calma. E no respiro forte após essa travessia; nas voltas do sol e da lua, no vento antes da chuva, no pão comido em paz e silêncio, na brisa suave, na alegria nos olhos de quem você presenteou, no mimo sem data especial que você recebe, numa conversa divertida sem pé nem cabeça, numa grande gargalhada, no vapor que sai de um simples prato de comida, na casa limpa e organizada, na roupa de cama recém lavada, que perfuma o quarto, na sensação do dever cumprido, mãos dadas. Na descoberta de algo incrível como uma receita antiga, ou um filme que te faz imergir nele e sair diferente. Estas entre outras mil, as singelas felicidades, que se você não estiver atento e grato, pode nem avaliar, o quanto de cura, alma e leveza, há. Pois entre elas há para todos muita luta, alguma dor, injustiças, algumas lágrimas, decisões difíceis, abdicações e perdas. E sempre intercalando, até o fim. Ainda bem que as felicidades aparecem para quem tem coração e olhos que além de ver, percebem!
Se Viver é um rasgar-se e remendar-se, como descreveu lindamente Guimarães Rosa, penso que, pra se rasgar é imperativo ser flexível. Pedra não se rasga.
O que se rasga é seda, frágil, sem gesso, nem armadura. Sem orgulho. Se rasga, se expõe, se reconstrói. Atravez de infindáveis acertos e consertos. E nesse seu remendo, com agulha fina, e muitas lágrimas, escreve letra por letra as viagens de exploração da própria alma, sem julgar. Nunca intransigente, nunca dona da verdade, nunca cristalizada. Toda fluidez. Toda trama fina. Com Aberturas para a luz. Cicatrizes. Aquela rebeldia louca e inquisidora. Que desafia e desfia. Desfia tudo em mil fios, pra fazer do seu jeito, único. Anda por aí, nua e leve, vestida com seu olhar, vestida com suas histórias. E essa rebeldia, de nascença, encara tudo e escancara. Aponta o dedo, sim, mas só pra si. Escava a terra fertil de suas entranhas mais sagradas, e examina grão por grão. E joga pra cima. E se ri. De sua poeira. De seu nada. E se lança com as estrelas, se espalha. Se brilha.
Adriana L S C Adam
