Demétrio Sena - Magé-RJ.
CO-SENTIMENTOS
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Alegria é o estado
instintivo; emocional...
felicidade, a capital.
PARA NOVAS SAUDADES
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Outra peça de amor será bem vinda
numa vida que agora está vazia;
uma farsa bem doce, aconchegante,
fantasia de todos os desvelos...
Outro alguém pra fingir que bem me quer,
ser capaz de qualquer desdobramento
pra sarar minhas mágoas com carícias;
bons momentos de falsa eternidade...
Já me cansam sinceros bons humores,
os amores azedos de franqueza
de quem faz o dueto ser duelo...
Quero a luz da ribalta passional;
emoções, alegrias de festim,
mais um fim de saudosas ilusões...
EFEITO SOLIDÃO
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Sempre
quis
um
pra
sempre
com
alguém.
nunca
mais
direi
um
nunca
mais
pra
mais
ninguém.
FORMAS E FÔRMAS DE APRENDER
Demétrio Sena, Magé – RJ.
As crianças amadurecem brincando; sendo alegres; fazendo aquilo que lhes apraz. Admirando a leveza de seres e coisas. Apreciando os desempenhos fáceis; as soluções simples. Quando crescem um pouco, passam a ser assediadas pelos discursos de que só o sofrimento amadurece. Tão só a dor ensina. Só os percalços as tornarão fortes e as providências burocráticas resolverão a contento suas futuras pendências.
É bem verdade que o sofrimento, as dores e os percalços podem amadurecer, ensinar e fortalecer as pessoas, mas isso não é obrigatório. Muita gente sofre os diabos e continua imatura. Tem dores inimagináveis e não aprende nada. Enfrenta os mais duros percalços e continua fraca; em todos os sentidos. Ao mesmo tempo muita gente vive bem, com poucos problemas, quase não convive com dores, tem poucos percalços e mesmo assim amadurece, aprende, se torna forte. São pessoas que sabem aprender. Que observam a vida, o mundo e o sofrimento alheio. Foram ensinadas, quando crianças e adolescentes, a não ser egoístas; pensar no próximo; amar e fazer o bem; respeitar diferenças, escolhas e orientações pessoais... simplificar o que pode, para o mundo ficar mais leve.
Há formas e fôrmas de aprender. De fazer o melhor e o pior das vivências; dos ensinamentos que se recebe da vida e dos mais experientes. Ninguém há de sofrer por escolha própria, chamar para si as dores e as intempéries, para tão somente aprender e se tornar um bom ser humano. Tornar as coisas complexas, burocráticas e difíceis para só aí valorizá-las é estupidez. Já existe muito sofrimento em derredor. Muita gente que precisa de ajuda e de conselhos; de compreensão e solidariedade. De facilidades possíveis às relações interpessoais e resoluções de problemas. Podemos aprender muito, e crescer infinitamente, fazendo algo pelo próximo. Isso é bom para ele, para nós, porque soma na construção de um mundo melhor. Uma sociedade mais justa; igualitária; mais próxima do ideal.
Chavões não podem mudar o mundo. Atitudes podem. Os discursos valem bem pouco. Inclusive o discurso que os seus olhos percorrem neste momento, se não existir ação. Se nenhuma intenção real de seguir as próprias admoestações acompanhar o discurso e, se tudo for transformado em equações complexas propositais. A sociedade já está (in)devidamente cheia de arrogância, hipocrisia e má vontade.
CURTO E GROSSO
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Para não me ligar,
nem me plugue.
Se não vai me prender,
não me cace;
não me julgue.
Ou não vai me pastar,
sequer cheire;
sequer sugue.
Se não for me gastar,
nem me use;
não enrugue.
Você nem me molhou,
não espume;
não enxágue;
não enxugue.
Se não vai me comprar...
não me alugue.
DEUS
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Para mim Deus é algo
insondável; misterioso; além...
Algo; não alguém.
IDENTIDADE
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Mostre a cara, seu rosto não me basta,
porque rosto é fachada; fantasia;
é a pasta que oculta o seu arquivo
de verdades que o mundo quer saber...
Lá no fundo está sua identidade,
torne-a viva no espelho de seus atos,
no caminho escolhido pelos sonhos
e nos tratos diários com a vida...
Deixe os olhos falarem de su´alma,
seu avesso é que veste seu caráter,
é a palma da mão para se ler...
Sua história está dentro dessa capa;
não há napa que possa disfarçar
um estofo que os ratos corroeram...
AFETO OCULTO
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Gosto mais de você do que é certo,
mas guardei o gostar só para mim,
no deserto insondável do meu eu
lá no fim do sentido que não faz...
Fecho a dor, é preciso me trancar
pra manter o placebo da presença;
ter o ar que você também respira
e jamais lhe perder pra seus temores...
Não me deixo legível pra você,
quando alguma oração me denuncia
numa linha facial descuidada...
Gosto mais de saber que não lhe tenho,
mas manter meu engenho de quimera,
do que nem lhe sentir ao meu redor...
PECADO SACROSSANTO
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Foste minha versão de afeto extremo
sem extremos dos quais me arrepender,
nau e remo num mar de calmarias
anti-ouvidos, olhares e suspeitas...
Minha cega esperança em colo amigo,
confiança irrestrita e desarmada,
meu antigo segredo sempre novo;
emoção que o silêncio manteria...
Um ingênuo pecado sacrossanto
entre gestos contidos, conscientes
das correntes e cercas abstratas...
Eras minha saudade do futuro
em um porto seguro que não tive,
mesmo assim ancorei minha ilusão...
REFLEXÕES INTERPESSOAIS
Demétrio Sena, Magé - RJ.
A resposta convincente é sim ou não. Silêncios, talvezes e tangentes não servem como afirmações adjuntas para quem espera definições seguras. Utilizar esses recursos intermediários é covardia de quem quer dizer não, mas de uma forma que lhe permita dizer que não o fez, quando já for desnecessário dizer sim.
...
Eu queria um país laico; livre. Sem chibatas religiosas ou troncos denominacionais. Nem senhores, capitães do mato, feitores e traficantes da fé.
...
Birra não é sinônimo de personalidade forte nem frieza significa equilíbrio.
...
Tenho cara de bobo... mas quem acha que sou mesmo bobo, está completamente certo.
...
Não dê ao mau pagador que lhe deve pouco, a chance de além de não lhe pagar, dar explicações que aliviem a própria consciência e façam pesar a sua. Dê a si mesmo a chance de puni-lo com seu silêncio acusador e indefensável. Sobretudo, presenteie-se com a certeza de que esse, nunca mais o incomodará.
RIBALTA SOCIAL
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Todo mundo está certo neste meio;
fartam egos, razões, donos de si;
faltam freio, bom senso, raciocínio
e verdades expostas de verdade...
Todos têm sua pedra sempre à mão,
sua causa mais justa que a do outro,
seu sermão inflamado e sua ira
sobre todas as iras ao redor...
Não se ouve pedidos de perdão,
há perdões espinhosos, vingativos
à espera da mão de quem se renda...
Só existem juízes, nenhum réu
neste céu infernal de santos sonsos;
somos todos heróis nesta comédia...
INCLUSÕES INESPERADAS
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Enjoei de ser tratado como o bom e famoso "também". Aquele que "também" pode ir... "também" será bem-vindo ou está convidado. "Também" é muito especial e por aí afora. Não me digam mais que "também" sou importante ou talentoso, "também" fiz falta e "também" consigo, porque "também" tenho meu valor.
Nunca mais me mostrem o que não mostrariam se eu não chegasse justo quando estão mostrando a outro. Nem me contem o que jamais contariam, se eu não estivesse ali, colado inadvertidamente no protagonista da conversa. Muito menos me convidem para o que não convidariam, se eu não flagrasse o convite na hora H. Nem me elogiem sem graça, porque ouvi o elogio que foi feito ao outro.
Também; né? Quem me mandou ser a própria expressão do "também" estou aqui, do "também" quero e "também" sou? Tenho, definitivamente, que deixar de surgir na hora errada ou estar no lugar também errado, quando alguém visto como mais viável recebe louros, convites e apupos de um conhecido, quiçá de um afeto em comum. Aí a pessoa se desconserta, se recompõe, disfarça e diz, por uma gentileza torta: Olha; você "também"; tá?
Ninguém se sinta mais flagrado pela minha chegada... ou estada. Nem se obrigue a dizer que eu "também". Sequer abra as aspas, para não ter que fechá-las de forma tão constrangedora para mim. Dispenso a simpatia dessa expressão inequívoca da exclusão aveludada; carinhosa, mesmo, para ser bem justo e não ingrato.
Ser excluído pura e simplesmente, sem nenhum contorno e com todas as franquezas e perniciosidades da exclusão, acreditem: soa bem melhor do que ser "também" incluído, no contexto piedoso, forçado e desconsertante dessa inclusão inesperada e de última hora.
DEPOIS DE TI
Demétrio Sena, Magé – RJ.
O que sobra de mim depois de ti
são meus olhos perdidos no infinito;
é um grito afogado no silêncio
da saudade nutrida por lembranças...
Sobram dias eternos; noites gastas,
uma treva no rumo pro futuro,
há um muro que nunca transporei
pra saber o que ainda nos cabia...
Foste o sonho de nada me faltar,
meu altar de certezas afetivas,
um ebó de alegria e gratidão...
Falta chão, sobram vagas e desertos
sem oásis de sonhos e quimeras;
não existe depois, depois de ti...
AMOR INCONFESSÁVEL
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Subfalo do amor inconfessável
num silêncio de voz subliminar,
tenho medo e por isto subcalo
tudo em mim que flutua sobre nós...
Relutando em meu ser te subquero
com a força incontida que contenho,
subespero a resposta que não há
e me fecho na minha subvida...
Meu amor se acomoda em subter
teu olhar de viés e sub afeto,
veto exposto num tom de permissão...
Subfujo em usar subterfúgios
nas paixões onde penso achar exílios
ou refúgios nos quais me sub oculto...
ABRAÇADO À SOLIDÃO
Demétrio Sena, Magé – RJ.
É assim que te amo; sem ação;
deixo minhas palavras ancoradas,
pois o meu coração é cais distante
onde guardo incertezas e temores...
Eu te quero com tanto não querer,
sonho tanto e com tanto não dormir,
que nem sinto sentir essa mordaça
em meus lábios; na língua dos meus olhos...
Estou sempre abraçado à solidão
deste amor cujo eco não existe;
só a triste mudez correspondida...
Sendo assim que te amo sou segredo
que a coragem do medo perpetua
sob a lua de nossa improbidade...
FORMATURA
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Hoje sei que te amar foi um processo;
formação afetiva e formatura;
linha dura de muitas provações
ou de provas reais; testes de fogo...
Pra te amar situei o meu orgulho,
fui a todos meus pontos cardeais,
dei aquele mergulho que temia
e medi a extensão dos sete mares...
Ao teu lado encontrei meu lado bom,
o meu dom de querer felicidade,
de sonhar e viver intensamente...
Aprendi a te amar como se aprende
tabuada, xadrez e concordância;
elegância, bons modos e tricô...
ANTIPOESIA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Se me flagras humano te frustras comigo;
só me queres alheio ao que choca e magoa;
meu olhar de lagoa não pode ser mar
que se torne revolto aos efeitos da lua...
Queres ter minha voz eternamente branda,
não importa o que adentra os portais dos ouvidos;
uma paz de lavanda espargida nos traços
de quem nunca se fere do mundo ao redor...
Quando sabes que sofro de raivas comuns,
tenho minhas verdades ferinas e duras,
também ajo às escuras e pulo no abismo...
Quase perdes a fé se me notas injusto,
se meu surto e meu susto são antipoesia
e me flagras tão gente quanto qualquer bicho...
O A DOIS E O ADEUS
Demétrio Sena, Magé – RJ.
O desenlace matrimonial significa a imediata ou gradual divisão de bens, afetos e opiniões. Raras vezes, nem há divisão de bens, mas de afetos e opiniões é tão certo quanto o nascer e o pôr do sol. A cada um, cabe uma parcela de amigos; um pedaço do filho – ou de cada filho –; alguns parentes de lá e de cá e determinadas opiniões contrárias e favoráveis.
Pagamos pelo enlace, um preço que se apresenta em formas de problemas inéditos, contas, aborrecimentos, surpresas em relação ao caráter do outro e desgastes que só o amor justifica em seus desempenhos e na própria existência, pela qual tudo vale a pena. Quando vem a separação, o preço é muito maior. Não há como escapar dessa espécie de multa por quebra contratual, devolução ou não cumprimento daquelas juras de amor eterno.
De ferida em ferida vamos nos curando em novos ‘negócios afetivos’, de natureza romântica/matrimonial ou não. Algumas vezes retomamos os afetos rompidos, com novas juras e perspectivas mais realistas a nosso ver. Há que se ter muita coragem para começar, interromper, tomar novos rumos, retomar os rumos interrompidos ou assumir definitivamente a solidão. Sabemos de antemão que a promissória virá, seja qual for o caso.
Tudo é vida e viver acumula consequências. Temos que arcar com todas elas e não adianta nem pensarmos em fugir. Também não adianta nos fazermos de mortos, pois pagaremos os preços, mesmo dos atos não praticados e daquelas escolhas não feitas. Pecaremos eternamente por comissão, omissão, até por suposta inocência ou neutralidade.
DE UM GRANDE AFETO IMPROVÁVEL
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Quase nunca, mas ocorre uma pessoa ter tanto carinho, amizade – e respeito – por outra, quase sempre de outro gênero, que acabe se permitindo certos desprendimentos e confidências, e com real pureza de propósitos ou intenções. Isso pode ser um problema, se toda essa carga de sentimento e confiança não for correspondida com exatidão pela outra parte. Aí surge aquele pé atrás e vem o distanciamento sem prévio aviso, de quem não está preparado para tanta entrega e tamanha falta de noção resultante da certeza de uma recíproca irrestrita, o que justificaria essa cumplicidade.
Temos que ter freios e filtros, para não sermos tão seguros da igualdade afetiva do outro, pelo menos até que o outro dê sinais relevantes da mesma intensidade; a mesma entrega; os mesmos tons. A coincidência do exato afeto raro na extremidade oposta é ainda mais rara do que o próprio afeto. Poucos indivíduos têm estrutura para viver algo tão delicado, belo e ao mesmo tempo tão fácil de ser confundido na linha tênue que o separa do abuso. É compreensivelmente normal que tanta gente se arme contra sentimentos tão improváveis – e suas manifestações tão peculiares –, pela natureza misteriosa dessa raridade. De fato, muitas pessoas fingem essa pureza de alma e coração, para cometerem dissimuladamente certas improbidades pseudo-afetivas.
Finalmente aprendi que o encontro de duas almas tão similares e alheias a desejos comuns é um grande acontecimento. Mas temos que ter bom senso, muito critério e profunda observação do outro, para termos certeza de que o encontro é incontestável. Não sendo o caso, as nossas demonstrações intensas de amizade extrema podem gerar temor, conflito, aversão e, às vezes, alguma medida radical. Tenhamos inteira consciência da sociedade na qual vivemos, e sendo assim, respeitemos completamente o direito alheio à não recíproca ou à relutância em relação ao caráter de nossa entrega.
Sobretudo, saibamos reconhecer o equívoco de nossas expectativas e identificar a hora de retirar os excessos... tornar comum o que é especial... tirar do plano superior o que nutrimos sozinhos e assumir uma relação como qualquer outra. É inconcebível que o ser humano desperdice comida, tempo e afeto.
PRESENÇA REMOTA
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Sempre foste a caverna que retém meus gritos
e jamais me devolve o mais ínfimo eco,
minha pura verdade secreta e medrosa
por qual peco a viver uma grande mentira....
Eu te quero com todas as não pretensões;
quero apenas, não quero num tom terminal,
só desejo atenções e momentos de trocas
abstratas, remotas – de perto à distância...
É no aço do espelho que busco teu rosto,
é no gosto que arranco desta solidão,
que te arrasto comigo e no fim jamais vens...
És ausência presente no campo dos olhos,
minha mão sempre soube que não te acharia,
mas meu dia só conta se minto pra mim...
MINHA HORA
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Quero murchar
feito planta,
com os meus tumores,
humores e amores,
meus nós na garganta...
Fluir em silêncio
e desaguar
como um rio,
levando meus medos,
coragens, segredos,
meu por um fio...
Não serei retalhado
nem remendado,
cheio de nó,
pois quero secar
naturalmente
até virar pó...
Sorrirei de completo,
de ter vivido
a minha hora,
feliz de saber
que fui por dentro
e serei por fora...
SOLIDÃO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Sempre achei que o silêncio dos anos a fio
calaria este grito que já calo em mim;
este frio na espinha, esta chama na pele
que não sei abafar quando encontro teus olhos...
Presumi que teria os favores do tempo,
dos empenhos do mundo ao abrir horizontes,
ao expor tantas pontes pra todas as margens
de verdades mais fortes do que meu segredo...
Tantos anos e o sonho de ao menos um dia
reservar um instante para ser só nosso
e fazer a magia tomar corpo em nós...
O que sonho é bem pouco, somente o rascunho
do cenário e da cena que desenho a esmo
com o punho cansado desta solidão...
PERDÃO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Raivoso e no auge de uma discussão, chamei o indivíduo de cão sarnento. Gritei, mesmo, em alto e inequívoco som: “Seu cão sarnento! Seu cão sarnento!”. Ele se assustou com a minha ira e se foi. Achou melhor não continuar ali, destilando aquela ironia que me deixara transfigurado. Adivinhou meu próximo passo, que seria fazer com ele o que meninos malvados fazem com os cães sarnentos que proliferam nos subúrbios.
Mas devo confessar que, passado aquele momento refleti. Comecei a sentir um remorso imenso do que fizera. Da ofensa impensada e descabida que tanta gente nem acreditou ouvir da boca de uma pessoa que sempre tenta ser tão serena, reflexiva, social e até ecologicamente correta. Cheguei à conclusão de que fora intempestivo, cruel, truculento e desumano em meu xingamento, especialmente pela comparação que fiz.
Não demorei a vencer o brio e fazer o que era certo. Fui pedir perdão. Não tinha ideia de como seria recebido, mas fui lá. Vesti a coragem de ser humilde, assumi o risco de ser humilhado, abri meu coração e parti para o desafio às cegas. Um desafio que terminaria espantosamente bem, porque fui recebido como se nada houvera. Como se eu nunca tivesse gritado aquelas ofensas que ainda ecoavam em minha mente.
Meu alívio foi total. Tirei das costas um peso que não podia levar por longo tempo. Minha consciência me condenava duramente. Eu mesmo já me punia. Não conseguia me perdoar pelo comportamento insano. Fui surpreendido com uma lição de humildade, ao ser acolhido com afeto. Não precisei me humilhar para ser perdoado. A comunidade canina, muito melhor do que o ser humano, já me perdoara no ato da ofensa.
BOBO ESTRATÉGICO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Terei sempre um silêncio expressivo e sonoro
para quando atirares palavras em vão,
calarei tudo em coro com minhas verdades
ante a tua ilusão de me faltar a voz...
Quero ser o teu bobo estratégico e pronto
a deixar que te fartes das próprias piadas,
de bravatas ao vento e dos falsos prodígios
em tiradas às quais não darei atenção...
Perderás o teu tempo entre sons e trejeitos,
ironias inférteis ou feitos banais,
ilusões perecíveis de ferir meu brio...
Tecerei teu castelo firmado em teu ego,
encherei dos teus eus até furar a bolha
em um prego escondido na vida real...
SONETO FORÇADO
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Hoje sinto a poesia engarrafada
entre as vias ou veias em conflito;
quanto mais a procuro, chamo e grito
mais a perco no abismo do meu nada...
Choro a seco, meu brado soa mudo;
sai dos olhos e some pela estrada;
gasto verbos na folha rabiscada,
mas não digo a que vim depois de tudo...
De repente a poesia vem à marra
feito bicho acuado que se solta;
filho dócil que um dia se desgarra...
Foi um feto inspirado, porém torto,
que rompeu as amarras da revolta
e nasceu apesar de quase morto...
