Dê

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— Juro! Deixe ver os olhos, Capitu.

Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles, "olhos de cigana oblíqua e dissimulada." Eu não sabia o que era obliqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira; eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas.

Machado de Assis
Dom Casmurro

De repente
De repente você abre os olhos e vê um novo mundo, você percebe melhor as pessoas e suas intenções, vê com mais clareza quem é admirável e quem é hipócrita, quem merece o seu prezar e quem deve ser ignorado.
De repente tudo fica mais simples, você reconhece aquilo que deve ficar longe de seu coração e aquilo que deve ficar junto dele, de repente você pede desculpas com mais facilidade e reconhece seus erros mesmo que ninguém valorize o seu aprendizado, porque a opinião alheia perdeu a importância para você.
De repente você acorda mais forte, mais convicto, sega as lágrimas e segue adiante, em busca do que deseja. De repente o inconveniente não lhe fere mais e você passa a supervalorizar o excelente, não o ruim.
Você, simplesmente, não se preocupa mais, vive, faz a sua parte e espera os resultados de seus atos sem expectativas ilusórias. Você passa a pensar mais antes de agir e não perde tempo pensando nos efeitos de suas ações, afinal você aprendeu que é o plantio que determina o futuro, não a colheita.
De repente as pessoas ao seu redor mudam, seus relacionamentos mudam, de repente nada lhe faz estagnar ou perder tempo, tudo se torna válido e interessante. Pois então, de repente você percebe que não foi a vida ou o mundo que mudaram, foi você mesmo e, apesar dos pesares, toda dor valeu a pena, porque você se tornou uma pessoa muito melhor do que a que foi outrora, quando achava que o mundo deveria mudar e não você mesmo.

⁠Neste belo mundo, todos pedem desculpas como se isso fosse algum tipo de tradição. Se cometermos um erro, pedimos desculpas e, mesmo que cometamos o mesmo erro outras vezes, continuamos pedindo desculpas. Isso é a humanidade.

Deslizo pelos dias, tantas comemorações, minha vida esse raio de sol que não cessa.
Já escrevi muita coisa triste, já perdi tanta coisa com resignação e até com destreza.
Agora nem me apavoro, toda dor é só um sopro em meio ao que vislumbro de possibilidades. Criatividade, eu aprendi, é inventar alternativas quando não se tinha. Onde não se via. Por enquanto, só o que tem me preocupado são as novas regras ortográficas, já que palavras compõem meus fatos, meus sonhos, minhas narrativas.
E se eram os hífens que me separavam do meu amor-próprio, tenho tudo que preciso agora: tanto autorrespeito.

Dê as pessoas uma segunda chance, você pode vir a precisar dela.

Aquele que imagina ser alguém perde a ocasião de converter-se em algo.

Eu tenho aquilo roxo!

Quando casualmente a adulação não consegue o seu fim, a culpa não é dela, é do adulador.

Aproveita muito subir aos maiores empregos do Estado, para nos desenganarmos da sua vanglória e inanidade.

É por vezes mais fácil formar um partido do que ascender, pouco a pouco, à chefia de um outro já formado.

Se fosses grande, não precisarias de andas.

O primeiro sulco aberto na terra pelo homem selvagem foi o primeiro ato de civilização.

Há enganos que nos deleitam, como desenganos que nos afligem.

O espírito de intriga inculca demérito nos intrigantes.

Os bens de que gozamos exercem sempre menos a nossa razão do que os males que sofremos.

Enganamo-nos ordinariamente sobre a intensidade dos bens que esperamos, como sobre a violência dos males que tememos.

Os grandes empregos desacreditam e ridicularizam os pequenos homens.

A ignorância tem os seus bens privativos, como a sabedoria os seus males peculiares.

O governo dos tolos é sempre mais infesto aos povos que o dos velhacos.

É mais fácil maldizer dos homens do que instruí-los e melhorá-los.

Desesperar na desgraça é desconhecer que os males confinam com os bens, e que se alternam ou se transformam.

A infelicidade só se consola com a infelicidade dos outros.

O saber é riqueza, mas de qualidade tal que a podemos dissipar e desbaratar sem nunca empobrecermos.

Os erros circulam entre os homens como as moedas de cobre, as verdades como os dobrões de ouro.

Há homens que afectam de muito ocupados, para que os creiam de muito préstimo.