Daniel Castro
A Água Morta
O barco rompe a corda desgastada,
Deixando o cais de espelho raso e frio,
Onde a maré mascara o seu vazio,
E a superfície brilha, imaculada.
Que importa a onda plácida e dourada,
Se não há poço, abismo ou desafio?
O mastro forte exige o mar bravio,
E foge à poça rasa e disfarçada.
É triste, sim, romper a corda gasta,
E ver o cais sumir no nevoeiro,
Sentindo o golpe seco que recorta;
Mas muito mais cruel, e que devasta,
É definhar no fútil estaleiro,
Ancoradouro raso de água morta.
Se dizes que o meu ser é fátuo e vão,
E que a máscara cai, rota e partida,
Deixando a minha essência reduzida
À mais triste e vulgar contradição;
Se a dita lucidez é presunção,
E a minha companhia, aborrecida,
Desperta o nojo e o fel da despedida,
Aceito a tua fria conclusão.
Concedo-te a razão, sem ter vaidade:
Sou mesmo a imperfeição e o desvario,
O exemplo da fatal mediocridade.
E já que te desperto horror e frio,
Acato o teu rigor com dignidade,
E afasto-me, abraçado ao meu vazio
O rosto que eu amei não era o teu,
Foi sombra que a minh'alma projetou;
Um sonho que o meu próprio ser criou
E que no mundo frio se perdeu.
Não sinto raiva alguma do passado,
Mas uma triste e lúcida quietude,
Ao ver que te vesti de uma virtude
Que estava só no meu olhar nublado.
Aos poucos se dissolve em meu cansaço,
A falsa eternidade que sonhei,
Deixando apenas um vazio espaço.
A culpa não é tua, bem o sei.
Criei um oceano num abraço,
E afoguei-me nas águas que inventei.
