Coleção pessoal de danzcastro
Se dizes que o meu ser é fátuo e vão,
E que a máscara cai, rota e partida,
Deixando a minha essência reduzida
À mais triste e vulgar contradição;
Se a dita lucidez é presunção,
E a minha companhia, aborrecida,
Desperta o nojo e o fel da despedida,
Aceito a tua fria conclusão.
Concedo-te a razão, sem ter vaidade:
Sou mesmo a imperfeição e o desvario,
O exemplo da fatal mediocridade.
E já que te desperto horror e frio,
Acato o teu rigor com dignidade,
E afasto-me, abraçado ao meu vazio
A Água Morta
O barco rompe a corda desgastada,
Deixando o cais de espelho raso e frio,
Onde a maré mascara o seu vazio,
E a superfície brilha, imaculada.
Que importa a onda plácida e dourada,
Se não há poço, abismo ou desafio?
O mastro forte exige o mar bravio,
E foge à poça rasa e disfarçada.
É triste, sim, romper a corda gasta,
E ver o cais sumir no nevoeiro,
Sentindo o golpe seco que recorta;
Mas muito mais cruel, e que devasta,
É definhar no fútil estaleiro,
Ancoradouro raso de água morta.
A expectativa, enquanto manifestação abstrata do desejo, excede invariavelmente a realização concreta, pois é na projeção ilimitada do querer que o sujeito se sustenta; já a satisfação, ao consumar o objeto almejado, dissolve a tensão da vontade e revela o vazio que sempreamovia.
Nada mais importará quando enfim conquistarmos tudo o que desejávamos, pois a vida, em sua essência, é uma busca constante por uma felicidade que nunca se deixa alcançar.
A força de vontade se assemelha a uma guerra: empunhar a arma e partir para o combate é simples; o verdadeiro desafio está em conquistar a vitória.
Perceberás o bem que foi outrora,
Tesouro que, ao partir, findou teu cais.
E, se o buscaste em vão por onde vais,
Teu peito exaure, o tempo se evapora.
Em cada sombra, a dor se vai e aflora,
Nos dias frios, nos gestos sem sinais,
A vida ecoa gritos sempre iguais
De quem não volta mais, e a alma chora.
E tudo continua, mas sem fé,
Sem cor, sem rumo, em pranto silencioso,
O ser desfeito em luto nebuloso.
A vida se despedaça aos seus pés
Num laço de aflição, que, soberano,
Perdura eterno empânicotirano.
