"O Ouro Sem Ódio: A Sabedoria da... Claudia Vitalino
"O Ouro Sem Ódio: A Sabedoria da Serpente nas Águas de Oxum"
Nas margens onde o rio encontra a terra, a presença de Oxum manifesta-se no fluxo contínuo e sereno das águas doces. Reverenciada no panteão iorubá como a senhora da fertilidade, da beleza e da riqueza material e espiritual, a divindade carrega em sua simbologia um mistério de profundidade política, filosófica e existencial: o encontro entre a doçura e a soberania do saber.
Diferente do senso comum que reduz a doçura à passividade, a sabedoria das águas doces é uma força estratégica. Conta a tradição dos *Itãs* que, ao se ver ignorada pelos orixás masculinos na ordenação do mundo, Oxum não usou a força bruta nem a contenda direta; recolheu o seu axé — a energia vital —, fazendo com que toda a criação secasse, perdesse a fertilidade e paralisasse. O mundo só pôde renascer quando sua presença, sua soberania e seu poder foram plenamente reconhecidos. Nenhuma vida se sustenta sem o líquido amniótico da terra.
Associada ao leque e ao espelho — o *Abebé* —, a deusa ensina que olhar para si não é vaidade superficial, mas o ato primordial de tomar posse da própria história e dignidade. O ouro de Oxum não é a riqueza do ouro extraído pela ganância e pela violência colonial, mas o ouro da autoestimativa, do valor inegociável da existência e do axé que reside na comunidade.
Em suas águas habita também a serenidade das serpentes dos rios, que conhecem os atalhos, contornam os obstáculos de pedra e chegam ao oceano sem perder a essência. Essa dimensão revela uma diplomacia altiva: a arte de governar com estratégia, afeto e sabedoria, lembrando que preservar a vida, o cuidado e as nascentes do mundo é a forma mais radical e duradoura de insurgência.
