Castelhano
Peça quebrada
Não se encaixa
Não funciona
Não é quadrada
Nem redonda
Não possui forma
Não é pequena
Nem grande
Não tem tamanho
Não tem utilidade
É apenas extra
É a peça
Que ninguém se lembra
Aquela deixada jogada
Guardada em alguma caixa
Que em algum lugar foi descartada
É a peça quebrada
Que todos não ligam
Que está em desuso
Que parece ruim e sujo
E não era para ser fabricada
Mas surgiu
E se fez
A peça quebrada
Mais perguntas sem respostas
Abrem de novo a porta
Que traz aquele clima
Frio e turbulento
Que mais uma vez complica
Aquilo que costumo chamar de vida
É só mais uma vez
Daqueles tempos que já passei
De duração indeterminada
De conclusões inestimadas
Porque sempre se vão
Como a corrente água
Nada concreto pode ser feito
Pois não há pensamento perfeito
Há falhas no raciocínio e planejamento
E o que resta são momentos
Tentando fazer algo
Para ver se dá certo
Sabe o problema das pessoas incríveis?
É que elas são boas demais
Para nós meros mortais
Como fazem as coisas, como conseguem o que querem
O brilho de suas histórias
Tudo que são e poderiam ser
Acabam afetando
Aqueles que em suas vidas
Estão apenas passando
E a indignação com sua própria realidade surge
Mas a mesma talvez seja
O melhor que conseguiríamos ter
E a personalidade que temos, tudo que nos faz únicos é rejeitado
É como se não houvesse mais valor
Para nós mesmos
Pois quem somos comparados a eles?
Nada?
...
Só sei que passei a pensar assim
Talvez por mais um tempo eu viva morto por dentro
Mas depois acho que dá tempo
De ressurgir
De aniquilar esses pensamentos
E levantar do frio chão
Abandonar a melancolia
E começar outro dia
Aceitando a minha vida
Que afinal, é só minha
Não escrevo como antes
E permaneço distante da caneta
E de mim mesmo
Um tanto longe
Não penso como antes
Os pensamentos deixaram
De ser constantes
E vagam no horizonte
E é difícil fazer o que se quer
Quando todos dizem o seu querer
E eu só queria ser
Aquele cara introvertido
É chato ter que se preocupar
Com isso e aquilo
E lamento por não ser
O que gostariam que eu fosse
E também não sou
O que gostaria de ser
Pois o que vejo aqui dentro
E na frente do espelho
É o meu pior reflexo
Me desculpe
Todas as versões
Do passado e futuro
Pois o seu presente
Comigo está inseguro
Cometi erros que disse
Não vou cometer
Deixei de fazer
O que minha mão anotou
E agora o tempo cobrou
Sei que não tenho motivos
Mas retrocedi
Me perdi e não me acho
E não sei como desfaço
Essa série de tentativas e fracassos
Só saiba que
Em um momento caí
E não houve nada
Que pudesse me levantar
E ressalto o seguinte
Não foi falta de tentar
"A igualdade se faz um sonho distante, pois cada um é ímpar. E há diferenças entre todos, então como poderia haver o igual entre os diferentes? O que resta são leis impondo vontades e campanhas expondo verdades que todos já sabem, mas não admitem''.
A limitação foi feita
A partir de preceitos
Escritos na cabeça
A ideia inconsiderada
Por uma mente foi acatada
A forma de ver e sentir
Foi moldada
A criança em um quarto foi trancada
Foi dito poucas palavras
E as lacunas deviam ser completadas
As escolhas foram únicas
E não houve testemunha
Ele cresceu e se viu
E concluiu que não gostou
De quem se tornou
Um limitado por si
Sem poder abrir a porta
Sem poder sair
Sentenciado a permanecer ali
Dentro de mim
Eu vi um pássaro voar
Tentei perto chegar
Mas as correntes me prendiam
Quebrei a minha sentença
Mas restava a cela
E precisava quebrar ela
Vi o alto voo
Desejei o mesmo de novo
Mas não pude faze-lo
Vi a distância gritante
E senti as palavras falantes
É necessário seguir adiante
Nada pode ser
Como antes
Em um sonho
Pude lhe ver
Num piscar de olhos
Pude lhe perder
No imaginário do inconsciente
Pude lhe encontrar
Rir e conversar
Mas vim a acordar
Pude ficar em silêncio
E gritar por dentro
Que já se faz muito tempo
Mas ainda me lembro
Tenho saudade
Sentimentos confusos
Em um infinito
Sem eternidade
A História reflete
Escolhas passadas afetam o presente
A História diz isso para gente
Juntamente a uma série
De erros que ainda se repetem
O ontem é o hoje
O amanhã é o dia de ontem
Porque o universo recorre ao passado
Enquanto a gente corre
A escravidão do negro
Se reflete no racismo
E ainda a quem diz
No Brasil não se tem isso
O preconceito com o diferente
Ainda é encarnado na gente
Pelas doutrinas que nos cercam
E nossos olhos cegam
A mente é alienada
Ao ouvir apenas um meio, uma única palavra
O cancelamento do pensar
O não questionar
Entretanto há
Aqueles que estão a tentar
Um pouco, lento e devagar
A realidade mudar
É um trabalho de formiga
Que leva tempo
Marca a História
E traz em algum dia
A nossa realidade nova
A grande contradição
Europeus em alto mar
Auto lá
Em seus países deveriam ficar
Mas vieram em nome da religião
Para civilizar
Pingentes em suas correntes
A cruz de prata
A luz reflete
A boca diz sou bom
E a mão bate e fere
Em missão
De conceder nova visão
Ao pobre indígena
Que "não sabe"
O sentido da vida
Ouro e prata
São as primeiras palavras
Pensadas por quem chegou
Na nova terra
É a grande América
Venha ser um de nós
Ore, leia e siga -me
E por trás há a adaga
Que é penetrada
Através da baixa guarda
Matar, roubar e destruir
Disseram isso do inimigo
Mas foi o que os europeus
Fizeram aqui
E tiveram a audácia
De dizer
É em nome da palavra sagrada
Minha vizinha
A melancolia é uma vizinha
Que de vez enquanto vem
E me faz companhia
Não que eu a queira
É que ela não gosta de ficar sozinha
Ela entra em minha casa
E se apoia em mim
Derramando suas lágrimas
Me compadeço de seu sofrimento
E fico triste por vê-la nesse triste momento
A abraço fortemente
Digo que não ficará só
Terá a mim
No seu momento pior
Então ela fica, e minha vida se complica
A melancolia me traí
Rouba meu maior tesouro
Esconde meu ouro
E me tranca no escuro
Sem luz e sem barulho
Grito por socorro
Mas ninguém ouve
E na hora soube
É porque estou longe
E ninguém está ao meu alcance
Fecho meus olhos
De memórias me recordo
Os tempos de liberdade
De risos de verdade
Desejo retroceder
O tempo passa
O escuro continua
A vida para
E o coração se arrasa
E a boca não fala
Discuto com o consciente
O que minha mente sente
Ele diz que estou assim
Porque a melancolia
Entrou na minha vida
Tento quebrar paredes
Mas a força é fraca
E o corpo padece
Porque a mente carece
E por tudo me fere
Reconheço a melancolia
Converso com a senhorita
E digo que ela é linda e feia
Ruim e boa
Possessiva e egoísta
O tempo passa
Ela diz que nunca é um adeus
Volto em outro dia
Foi bom ter sua companhia
E essa passagem fez você ter
Outra vida
Valor
O valor está
Em quem escreve
E não no que foi escrito
O valor está
Em quem diz
E não no que foi dito
O valor está
Em quem age
E não no que foi feito
O valor está
Em que criou
E não no que foi criado
O valor está
Em quem fez
E não no que se fez?
O valor está em um
E não no outro
Tem que ser um, ou ambos?
"Pedir ajuda não nos torna fracos, mas dar o seu fardo para alguém, quando tem conhecimento que pode carrega-lo, nos torna menos fortes."
Problemas técnicos
A transmissão foi iniciada
Ao vivo esteve
As atitudes e palavras
Somadas a imagem pixelada
Os espectadores viam
A qualidade era baixa
Mas ali ela estava
E com o tempo melhorava
No entanto a tempestade veio
O apagão aconteceu
E parte das peças
Que transmitia morreu
Nenhum reparo foi feito
E de problemas técnicos
O estúdio estava cheio
E o apresentador sentia receio
Ele se isolou
De longe ficou
Fora de holofotes
Sozinho, em seus montes
Olhava para o céu
E dizia que era um réu
Cumprindo a maior sentença
Que ainda lhe resta
Viver um dia após o outro
Até que não haja
O próximo dia
Mas é só esse
Que ele queria
O ar entra pelos pulmões
Eu sinto ainda
Aquelas antigas emoções
O sangue percorre as veias
Eu lembro ainda
Aquelas antigas brincadeiras
A água escorre pelos olhos
Eu me recordo ainda
Aqueles antigos propósitos
O sangue escorre pelos braços
Eu me recordo ainda
Aqueles antigos passos
A vida escorre pelas mãos
Eu me recordo ainda
Aquela antiga dor no coração
Rótulos
Palavras sobre mim
Sobre ele e ela
Sobre nós
Colocados em papéis e em telas
Descrições breves
Entre poucas linhas
Uma personalidade
Está sendo definida
Os rótulos são postos
Sobre a mente e corpo
Sobre seus gostos
Abreviando quem é, para o pouco
Isso tem um nome pequeno
São os rótulos
E eles delimitam quem somos
Aos olhos dos outros
Roubando quem somos
E quem poderíamos ser
Simplesmente por causa do hábito
Enfim, de descrever
Só e visto parte do todo
E não o todo em sua completa parte
E deixa-se de ver a sua arte
Para ver o pouco que faz parte
Quantas pessoas são mais
Do que os olhos podem ver?
Quantas pessoas são mais
Do que rótulos podem descrever?
