carlos
"... Então, já não me ia sem ti.
Não te ficava de mim, sem levar-me.
No desterrar partilhado,
No descobrir crivado de anseio e afago,
Nos revestimos como se renascidos,
Fossemos feito candura emanada.
E nesse luzir de entremeada morada,
Acolhemo-nos de lucidez efervescida.
Porque, em fim, amar,
É instruir-se no desvelar,
Do outro revelado...
“As vezes vejo-te emudecida.
Desterro-me em teu silêncio,
Como quem aguarda e habita,
A raiz renascida em tua voz”
Ventre do Sentir
Não fiquei a colher a flor,
desnuda entrega de tua voz.
Adentrei-me, avesso ao passageiro.
Desejei-me morada em tua raiz.
Quis ser lamparina,
respiro brotado por entre tuas mãos
no pulsar candente de tuas veias:
- Eis-me: Habitado pelo ventre do teu sentir
Quando por frágeis pés me soerguia,
Desejava memoriar nuas andanças.
Quando vinha-me o vozerio do entrelaçar,
Eram as palavras que me queriam recontar.
Quando se anunciou o andar do falar,
Comecei a sonhar-me com o sentir.
Toda guerra, mesmo as que aparentemente se justificam, trazem em si uma certeza: Aniquilam virtudes e humanidades.
"...Era assim que refundava-me em teu tempo.
Eu me acontecia de querer-te.
Eu me morria de não estar em ti.
Eu me vivia quando não me tocava tua ausência..."
TUA VOZ
A tua voz acostumei-me,
Quando ela em meu peito era anuncio.
Feito presságio da noite desperta,
Por sobre o tempo reverberado.
Não aprendi pouco em teu olhar.
Fitei a luz e murmurei a sombra,
Para fazer-me, num só instante,
Andante aprendiz em tua estada.
".. E assim é que me percebo em vivência.
Registro vozes em afetos tangidos.
Ora as trago como uma junção do peito,
Ora as desejo andarilhas para se enlaçar nos dias..."
"... Se o amanhecer despertar desnudo,
Vou banhar-me de aroma,
Insuflado de existência,
Vestir-me do inusitado,
A cantarolar as cantigas,
Daquele reviver em mim avistado".
"...Tenho alguns saberes, que me fazem apreendedor.
Uma arquitetura de razões pronunciadas.
Das mais súbitas, como aquelas a se moldar na quietude,
Como as derradeiras, que se pungem na pele na alma..."
In Do Aprender
"...Distanciei-me por vezes para observar as perguntas.
Tantas outras respondi sem aderir ao absoluto.
Fui vário, múltiplo, único. Só assim fiz-me existir.
E ao ser, precisei reler a estrada e desvendar a travessia..."
"... Da primeira vez que te vislumbrei,
Lembro-me de uma idade sem tempo,
Foi no dia em que deixaste teus olhos
Semeados na raiz de um beijo..."
"... Eu ficarei orgulhoso de receber a explicação,
já que me vivo a Quintanar de amar,
o amor em sua extensão.
Até resgatei um modesto conceito,
desses que se declara numa ciranda de amigos,
- O amor, é tão somente, o infindo sopro, se fazendo vida..."
Extrato Carta a Mia Couto
Eu sei que você sempre teve uma imagem de mim que não combinava exatamente com quem eu sou por dentro.
Às vezes, a gente cria uma armadura para se proteger do mundo, mas com você, eu sinto que não preciso mais dela. Quero que você conheça esse meu lado que guardei por tanto tempo só para nós.
A cultura elaborada é um elemento que obriga a uma ruptura com a situação cultural anterior do indivíduo, possibilitando-lhe 'ser outro'.
Com certeza não seria muito normal, já pensou que triste uma roda de capoeira sem a presença de um berimbau? Sem a cintura desprezada, sem a ginga o aú e também o mortal?
-Jean C. de Andrade-
