Caio Fernando Abreu

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Tem gente que pensa que eu me acho. Mal sabem eles que eu só me perco.

Abraça o que te faz sorrir.

E vou dando muito de mim, e aceitando o pouquinho que os outros têm para me dar.

Ando com uma vontade tão grande de receber todos os afetos.

Inserida por vicarvalho

Finjo o tempo todo, rio, sou alegre, dispersivo, com aquele brilho superficial e ridículo. E em cada fim de noite me sinto um lixo.

Virava pra lá e pra cá na cama. Estava impaciente. Até me sentei no escuro. Pensei: Não era uma posição o que eu procurava. Era você.

Mas não te procuro mais, nem corro atrás. Deixo-te livre para sentir minha falta, se é que faço falta… Tens meu número, na verdade, meu coração, então se sentir vontade de falar comigo ou me ver, me procura você.

Natural é encontrar. Natural é perder.

De elo em elo, ligavam-se cada vez mais. A tal ponto que simplesmente não cabiam mais em si mesmo.

Mas gosto, gosto das pessoas. Não sei me comunicar com elas, mas gosto de vê-las, de estar a seu lado, saber suas tristezas, suas esperas, suas vidas...

Descobre, desvenda.
Há sempre mais por trás.
Que não te baste nunca uma aparência do real.

Eu não preciso me “entender”. Que vagamente eu me sinta, já me basta.

Quem nos faz falta acerta o coração como um vento súbito que entra pela janela aberta.

Não deixe nada atrasar. Não durma pra trás existindo. Faz o que for possível, e sempre é. Tenho repetido que, no que depender de mim, me recuso a ser infeliz.

Estou resolvendo umas coisas aqui viu, esses negócios de sentimentos demonstrados demais meio que estraga.

Ela é intensa e tem mania de sentir por completo, de amar por completo e de ser por completo. Dentro dela tem um coração bobo, que é sempre capaz de amar e de acreditar outra vez.

Chorei pela guerra cotidiana. Pelas tentativas de sobrevivência. Pelos apelos de paz não atendidos. Pelo amor derramado. Pelo amor ofendido e aprisionado. Pelo amor perdido.

Tudo aquilo que eu esquecia ou negava, soube vagamente em plena queda, era o que eu mais era.

Que seja doce.

Minha aparência é péssima, a mente e o corpo exaustos. Mas existe uma tranqüilidade estranha. Não tenho mais nada a perder. Não sabia que o mundo era assim duro, assim sujo. Agora sei. Tenho apenas essa consciência, que só a loucura ou uma lavagem cerebral poderiam turvar.

Porque aprendi, que a vida, apesar de bruta, é meio mágica. Dá sempre pra tirar um coelho da cartola.

Falávamos como se nos conhecêssemos há anos. Há vidas, quem sabe.

Se ao menos dessa revolta, dessa angústia, saísse alguma coisa que prestasse.

Caio Fernando Abreu
ABREU, C., Inventário do Irremediável

Eu realmente acho lindo essa coisa de duas pessoas não quererem nada que seja bom no mundo além de uma a outra. E eu queria você, muito. O querer mais bonito que pode existir era seu, só seu.

Resistimos, aos trancos, já nem sei se foi escolha ou solavanco. Difícil arrancar uma certa lucidez disso tudo.

Inserida por DjRiana