Andrê Gazineu

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Epígrafe

Meu amor verte no mínimo espaço
Em mim, posso te sentir
é impossível não admitir
em cada olhar, em cada passo

Amor como o meu jamais verás
é possível notar - posso garantir!
na ainda vaga felicidade de existir
que a tua existência me traz

Amor,corroa, rasgue,lavre
provoca-me queimadura
queima-me! meu amor aceso

esta enfermidade que não cura
a este amor estou preso
e, ao mesmo tempo, livre

Andrê Gazineu
Inserida por marianagpena

Uma Elegia Branca

Se soubesses do meu ímpeto
A sede da flor em teu corpo
(e tuas pétalas cor de vida)
Dona do meu amor, tua beleza me fascina!
me matas e me salvas
{Traz-me em cada suspiro a ânsia
e a cada momento a falta}
Meu todo está em ti
e é no teu silêncio que meu sonho dorme
No entanto, sinto meu sonho morrer
Move-se de mim o espírito
e já não ecoa no vento meu apelo inútil
já não pulsa forte meu coração estúpido
já não me vertem mais puríssimas lágrimas
Mas ainda ouço na voz da ausência
todas tuas sílabas inexistentes

Andrê Gazineu
Inserida por marianagpena

As cravinas floresceram entre o joio

Vi as cores mais brilhantes que jamais vi

toquei a água gelada do córrego

toquei uma tal tristeza...


Sentei-me e descansei no riacho

muitos pássaros empoleirados em um galho seco

Choveu muito a manhã toda

chuva forte, densa, persistente

somada a um vento acre

que estremece as folhas largas, carregadas de umidade

Cheguei ao meu limite

Meus olhos... [ faz-se água


Meu amor é frágil;

Deixará passar o inverno à promessa de por toda uma vida...

é contrário a egenerescência da alma alcançando o espaço iluminado

abstrato em carne e fogo

Quando enlouqueci, pus-me no chão

[ para melhor sofrer

me acostumei com a lama

o céu se largueia em grande azul

Fria impassibilidade,

bebeu-me o sangue, devorou-me os ossos

matou-me abstratamente

Andrê Gazineu
Inserida por marianagpena

Olhando pela janela, vejo o sol incidindo
Derrama luz na estante, no relógio, na maçaneta
Na ampla sala vazia de cor
A mesa está posta
Toalha branca, límpida, ingênua
Pratos limpos, panos largos, pães, leite



Não há ninguém à mesa
Há o silêncio, o abandono, o não ser
Rastros invisíveis, sombras do vácuo
Tudo passa despercebido e nada é nunca lembrado
É a transmutação do tempo
A natureza sendo absorvida
para que minha sala nunca envelheça
Para que seja embriagada
no meu próprio passado



A pergunta involuntária sem resposta
Provei à cereja ácida
Provei a angústia do momento em que nasci
O início, o vazio, a quitina negra do ferrão
O ponto letárgico onde a alma encontra barreiras tão obscuras...
E não pude seguir adiante



Dissoluto no fundo da morte
encontrei teu viço jovem, infantil, puro


Entendi o que é a paz;
essa alegria distraída de viver
este sopro macio no campo
Um rubor na face macilenta
Um instante estúpido contigo



Eu esperarei por ti
na vida, na morte, na distância
No delírio da febre, na tristeza do pranto
nas noites frias, nas minhas pálpebras fechadas



Nas águas turvas do meu sono
Sufocado no escuro, enlaçado na calada
Sentei-me no chão ouvindo o ruído do nada
Do sangue ascórbico corroendo faminto
Do coração pulsando agudo por instinto



Nega-te o alimento, o sustento diário
[nega-te a vida
Acostuma teu nome ao sinistro obituário


Roga-te a praga, converte-te em semente
E da moléstia, forma-te o carpelo
de um mundo inconsolável e belo,
doses excessivas duma fome demente



E não há mais miséria na aguardente
Nem pudor nas faces coradas
Os braços rasgados de cercas farpadas
O grito à ânsia, o fruto à serpente

Andrê Gazineu
Inserida por marianagpena
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Arcano



O tronco tortuoso tinha casca lisa
que descamava em placas finíssimas
Folhas delicadamente discolores
formavam uma copa tímida, mas persistente
Que se ornará duma frutescência única
Vi flores tão solitárias florescendo em junho...



No nascer do sol
O cheiro da seiva vertendo no floema
A umidade no ar carregado
A calmaria predizendo o último dia de vida



O silêncio arrebentava-se na atmosfera
Irrompendo furioso no espaço conquistado
Perdendo-se no lado escuro da alma vazia



Demônios vestidos de sangue brincam na mata
Sorrindo por uma nova estação enlevada
Soprando injúrias no vento
Porque é preciso morrer
Porque é preciso descer ao mundo inferior
pelo terceiro caminho

pronunciando o nome do inominável

Andrê Gazineu
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Levado pela sede, com extraordinário pensamento,
meu amor permeou por todo o meu ser
Espargiu-se pelo contorno do eu
Tomou legítima forma; tomou sua própria visão

[de todas as coisas

Definiu sua própria natureza e tornou-se a evanescer
Formou hifas difusas por toda sua experiência
Não cabendo em si, decidiu se libertar



Desejei-te tanto...
Beijar teu ventre imaculado
À tua boca delicada de menina
Trazer ao teu corpo a pureza do espírito
Digo-vos que a amarei em meu improfícuo amor
Entre teu corpo e eu, e teu corpo

Andrê Gazineu
Inserida por marianagpena

O que seria de mim se não fosse o mau-gosto

Andrê Gazineu
Inserida por marianagpena

Amar é conhecer desconhecendo.

Andrê Gazineu
Inserida por marianagpena

O mar se agitou muitas vezes corroendo os destinos da nossa terra,
e por toda a parte, eflúvios e vendavais se desdobram
e nada mais haverá entre meus olhos e teus olhos

Percorri sociedades inteiras e o que vi?
O desespero em olhos vazios que me olhavam vazios e desesperados
atravessando os limites das fronteiras em morte, uivos em leitos
juntando forças em ansiolíticos e drama

Lobos afogavam-se em lágrima; banhados em sangue e febre
Meus olhos te olham e não há mais tempo para diluir minha dor em teu ventre

O lobo sente em pelo por experiência própria
se estamos em o hábito de caminhar regularmente na mesma estrada,
somos capazes de pensar em outras coisas enquanto caminhamos,
sem prestar atenção aos nossos passos
escritos em cerâmica no fundo do mar

Andrê Gazineu
Inserida por Gazineu

Céu límpido em julho
O que lavra a terra remove o entulho
conforme descrevo,
tudo o que vejo
o lugar mais formidável do mundo
hortado em solo profundo
que tinha um misto perfeito de argila, calcário e areia para o plantio de flores,
em setembro, verdadeiro paraíso de cores
flores desabrochavam em uma abundância incomparável
na beira das estradas, nas pedras lavradas, em parques e jardins,
em balcões, em rincões, em vasos, em lis
varandas ordinárias, em jardineiras matreiras
nas janelas, pelas águas ligeiras
Céu límpido em julho
O que lavra a terra remove o orgulho
sob a sombra das árvores
a permanente umidade no ar parecia pintar
O que derivava dos córregos só sabe trilhar
em todas as manhãs, tons mais frescos
Vemos os galhos de uma árvore, e seus arabescos
como escreveu um visitante deslumbrando com a vastidão da vida
em um momento incontrolável de crise vivida.

Andrê Gazineu
Inserida por Gazineu

Só há uma razão possível para atacar o lobo: ele nega domesticar a sociedade em forma de cão. Os lobos não nascem podres de corpo e alma. São puros como neve. Os cães suprimiram todo o ódio da humanidade. Suprimiram a necessidade do crime, a leve inclinação para à loucura insana, o desespero, o cretinismo congênito, os olhos amendoados derivando instintos.
Se o cão pratica uma virtude, virtude nenhuma será. A virtude como prática é de um tempo morto, tão morto como coisa que pouco importa. Virtude só é virtude quando é impensada, irrefletida, maquinal: instintiva. O lobo é virtuoso pela seu modo de ver as coisas. É espontâneo. É natural. É um espasmo súbito, involuntário. Lobos se sentem mal em formaturas e reuniões semanais nas quais as pessoas narram como a incapacidade de controlar sua raiva lhes causou problemas de sociabilidade.

Andrê Gazineu
Inserida por Gazineu

A consciência é sua.
A enganosa consciência moral é transmitida por astrólogos ruins, marxistas leitores do The New York Post, terapeutas alienados que insistem em reforçar o caráter perfeitamente não natural das manifestações de certos pacientes, na medida que sua a incapacidade de avaliá-los reforça a crença na legitimidade absoluta da sua concepção de realidade e renega todos os atos que dela possam decorrer. A deturpada enganosa consciência moral é uma imposição sobre a sua pura consciência. Cada ditadura moral impõe um tipo de delírio sobre você. Dez mil anos. Algumas pirâmides pesadas e todos continuam a impor alguma coisa.

Andrê Gazineu
Inserida por Gazineu

Mas a estrela honra juras pela presença deste século e ainda está fora de todo o caos da escuridão com sua luz azulada
ardósia clara,
areada, inesperada, celeste,
celeste brilhante,
furtiva, viva
azul cobalto,
por entre o asfalto,
a flor de milho;
hirta em brilho.

Andrê Gazineu
Inserida por Gazineu

Um homem não tem tempo para ter tempo
Ele não tem estações suficientes para ter um bom outono
e ouvir a queda das folhas
Sobrevivente da era do gelo,
um homem precisa amar e odiar ao mesmo tempo,
para rir e chorar com os mesmos olhos,
com as mesmas presas para desabar a caça e nutrir a prole
e odiar, perdoar e lembrar e esquecer,
para esclarecer e confundir, para rasgar a carne e digerir fibras
o que a história
leva anos e anos para fazer
o peso do caminho não deve esquecer.

Andrê Gazineu
Inserida por Gazineu

Quíchua me seguiu por quilômetros e quilômetros a leste da Baía de Bengala
para o mercado onde
homens foram comercializados como escravos.
Vacas como reis, cabras como cabras.
E no instante em que você se torna um pouco mais seco. Quando para de adicionar açúcar no café, sua alma torna-se desnutrida e inicia o processo de suspeitar de algo. Então você começa a se tornar mais sábio, porque toda a futilidade consiste em ser inconsciente dos seus atos.

Andrê Gazineu
Inserida por Gazineu

"Eu sinto o ponto central em falta em todos nós: o sentimento de compaixão. Ouvi uma vez uma frase que dizia que é possível ouvir com o coração."
"Por que ficou tão impressionado com aquela história dos vaga-lumes poderem desaparecer e surgir tantas e tantas vezes na escuridão?"
"O que isso implica em ouvir com o coração?"
Aqui, sabemos que há uma desconexão, não incoerência.
"O que eu disse foi que o pensamento é uma espécie de material em processo e qualquer pensamento construído seja por razões tecnológicas, crenças psicológicas, deuses vingativos, toda a estrutura do grande primata com base no pensamento, é um processo material. Pensei que, nesse sentido, é importante. O pensamento é experiência, conhecimento armazenado nas células e funcionando em um cruzo especial estabelecido pelo ser. Tudo o que me é um processo, está em processo, é fluxo material. O que importa é o que eu não sei. Eu não vou nem discutir isso, porque eu não sei."
"Não sabe?"
"Não. E nunca fui capaz de compreender o significado do tempo. Eu não acredito que ele exista de forma alguma. Eu senti isso de novo e de novo enquanto os vaga-lumes acendiam. Não parecem fagulhas de brasa nas trevas? Como pode o tempo existir enquanto há escuridão? Nem o futuro pode existir. Nem para nós, nem para eles."

Andrê Gazineu
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A pluralidade melódica não necessita ser justificada porque se justifica em si; em seu grande valor. A melodia é consequência de uma bela construção harmônica e involuntária. Na cadência, algumas melodias necessitam de resolução, outras não. Essas variações advém do motivo. Brahms sabia disto. Brahms sabia encher a cabeça do Schumann de galhos. Brahms explorava continuamente suas harmonizações e o significado de cada acorde no âmbito melódico e harmônico. Mesmo com sua mente avançada e barba de bode, Brahms sentia o medo de ser incoerente.

Andrê Gazineu
Inserida por Gazineu

Um filhotinho de pato gordo é chocado no ninho de uma pata anoréxica e bulímica. A notável diferença de peso entre o patinho e seus irmãos faz com que o animalzinho sofra bullying dos seus irmãos bulímicos, metonímicos, endotérmicos e malignos. O patinho é perseguido pelos maiores chefs da alta gastronomia do mundo e viciados em foie gras.
O patinho miserável de consistência amanteigada, se imaginando junto com trufas e outras iguarias da culinária francesa, é encontrado por caipiras reacionários que lutam pela reforma agrária e inclusão social e que lhe oferecem abrigo em uma das fazendas da Ana Amélia Lemos.
Na chegada da primavera, o patinho, agora sofrendo de compulsão alimentar, acende suas belas asas e é reconhecido por todos os animais como o mais magnifico cisne – mesmo sendo apenas um pato que desenvolveu uma personalidade extraordinária na infância por ter sido gordo e sofrido violência psicológica.

Andrê Gazineu
Inserida por Gazineu

Vi um cavalo muito triste. Olhando em tristeza o horizonte, toda a verdadeira linguagem de cavalo é incompreensível. Pensamentos de cavalo reivindicando uma ordem puramente baseada em força bruta e puxar carroças cumprindo sua injustiça animal de ser. O olhar do cavalo refletia o fundo do mar Adriático mergulhado em loucura crônica e coragem despudorada. O problema é maior. É de saúde coletiva. O cavalo não caiu em um estado ilegível no escuro. Acabou por tomar as carroças da humanidade. De um problema já antigo e sem nome. O cavalo buscou por toda sua vida de cavalo arrastar com determinação o peso de uma absoluta hipocrisia, um delírio sem começo. E esse crime organizado não para por aí: Cazaquistão, Mongólia, China, Bélgica, Espanha e, principalmente, Itália. Não basta extinguir o peso de um corpo que não se permite tomar as rédeas de sua vida, há países comercializando carne de cavalo como se fosse carne bovina. A tragédia continua mesmo fora de manchetes que tomaram o mundo em 2013. Cavalos longe dos pratos do Humane Society International.

Andrê Gazineu
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E então ele gritou como o maior vulcão em escudo da terra. E rabiscava. E internalizava. Não no sentido lógico. Ele não dormia em ânsia. Situações, percebeu, não são solúveis em álcool. A fraqueza de seu coração em sua disposição prévia em passear em jardins de inverno e contemplar cada manhã em Cristo, acender velas e de joelhos ardê-las em Leonard Cohen com suas mãos humanas. Reclamava que Deus é lento na velocidade da evolução. Seu sorriso como um cão por um osso, dias em dias. Movendo-se da dor aos cloretos ao invés da pura água doce, e ele riu. Sobre influência de marés, pele em pele. Ombro com ombro. O coração pensava. A mente pensava. A erupção muda o curso dos rios. Foi assim em 79. Foi assim no escuro que ninguém viu. Vê o silêncio de que algo acontecerá? Vê placas ameaçando dez mil habitantes? A idade de bronze desconversada em um dar de ombros. "No momento em que se queima o mal, não é o bem que sobra”, disse em voz de festa.

Andrê Gazineu
Inserida por Gazineu

Em dois mil anos, a humanidade nos entenderá. Não por reconhecimento, mas por ternura. Como filhotes afagados em um carinho distraído de nossa profunda fobia irracional.

Andrê Gazineu
Inserida por Gazineu

Para uma história realmente chamar a atenção do leitor, é necessário entreter e desperta sua curiosidade. O enredo deve possuir uma estrutura muito linear e cativante: exposição da situação inicial, apresentação do protagonista, construção da tensão, mais apelo na construção da tensão, um personagem contrapondo uma tensão absurdamente crescente, um antagonista que não seja uma alternativa barata à resolução da trama e o arremate.
Os personagens de contos de fadas não são ambivalentes; eles são ambos bons ou maus, como todos nós não somos na realidade. Cada personagem é completamente bom ou ruim. O homem quer um mundo onde o bem e o mal está claramente discernível como é seu desejo, inato e indomável.
Escolher animais como protagonistas atende uma gama de aspectos e invalida outros. Julgamentos antes da compreensão podem ser obtido com a utilização de animais. Lobos são maus, ovelhas obedecem, formigas são trabalhadoras e burros são petistas. Humanos são mais animais; o que força algo que chamamos – e quando digo, “chamamos”, acabo de chamar – de paradoxo-da-decisão-do-que-fazer.

Andrê Gazineu
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A energia da linguagem não se constrói na comunicação e sim na figura do incomunicável.

Andrê Gazineu
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O estrangeiro pensou em seu idioma estrangeiro, “o que até então me havia escapado fora a minha possibilidade de escapar?”.
O torturador era um cara velho, parecia ter um pouquinho mais de cem anos, aspecto nômade, cabelo desgrenhado, pele suja e olhos mortos. O resto da tribo estava de boa. Todos estáticos. Alvo silêncio. O torturador sendo o torturador. O torturador sacou sua faca suíça de cabo preto e firme em mãos; 40cm e bem afiada. O estrangeiro diz, “aaaaaaaaaaaai Jesus me salve! Aiiiiiiiii Senhor!”. Um homem baixo e com a cabeça em formato de martelo saca uma faca levemente mais cara e rara, diferenciada por se manter afiada por séculos. O cabo, de osso, um pouco mais pesada. E começou a falar sobre a vida, mesmo sem entender nada sobre.

Andrê Gazineu
Inserida por Gazineu

Felicidade é consolação; é livrar-se de toda opressão do interior.

Andrê Gazineu
Inserida por Gazineu